VIOMUNDO

Diário da Resistência


Política

Dr. Rosinha: Não jogo a toalha


07/08/2013 - 21h58

Diferentemente do que diz a faixa do ato de protesto, faltam médicos no Brasil, sim

por dr. Rosinha, especial para o Viomundo

Por um período da minha vida de militante político voltado para o debate sobre saúde pública, médicos, ensino de medicina, políticas de saúde, cheguei a tomar posição contra a abertura de novos cursos de medicina. Inclusive, quando deputado estadual, ao votar contrário à abertura de um curso de medicina numa Universidade Estadual do Paraná, fui declarado persona non grata no município sede da referida Universidade.

Nesta ocasião, num debate sobre a abertura ou não deste curso, um médico, ex-professor meu, com posição igual à minha (contra a abertura de novas faculdades de medicina), “jogando a toalha” declarou mais ou menos o seguinte: “Vamos ver se com mais faculdades de medicina pelo menos formamos mais pessoas que, com melhor formação, pelo menos possam criar a consciência de cidadania”.

Isso já se vai uma década e meia. Neste período, o Brasil já abriu várias vagas a mais para a formação de médicos e médicas e já formou milhares de profissionais. Já se teria criado, portanto, se a frase estivesse certa, milhares de cidadãos e cidadãs.

Ser cidadão e exercer a cidadania, entendo, é conhecer seus direitos, sem ignorar os direitos do outro. O próprio direito não se sobrepõe ao do outro, mas se soma e se complementa, formando um coletivo de direitos. Entendo que na nossa sociedade não há essa consciência de cidadania coletiva. É fácil concluir isso, basta observar o dia a dia, seu e dos que com você convivem. E, no caso específico dos médicos, observar o comportamento de boa parte destes profissionais.

A relação de poder na nossa sociedade é de desrespeito à cidadania, mesmo que você seja o responsável, profissionalmente, por garanti-la.

Vamos aos exemplos: o juiz muitas vezes tem uma relação de prepotência para com aquele que ele deveria garantir a justiça; o advogado tem a relação de superioridade com aquele que deveria colocar-se no mesmo nível para explicar os seus direitos de cidadão; o médico, com o seu saber, pode “decidir” sobre a vida e sobre a morte. E, assim, poderia listar inúmeras profissões, mas creio que estes poucos exemplos bastam para esclarecer aonde quero chegar.

Não sei se o meu querido ex-professor continua com a mesma posição, mas eu mudei: sou favorável à abertura de novos cursos de medicina em universidades públicas.

Os milhares de médicos formados ultimamente sonham, o que é justo, com a construção de sua cidadania e a garantia de seus direitos, incluindo condições de trabalho e salário digno. Tenho profunda dúvida se estes milhares de médicos e médicas têm a consciência de que saúde é um direito do cidadão e da cidadã e que este direito coletivo deve ser garantido pelos esforços de todos e todas.

O Ministério da Saúde e muitos prefeitos pelo interior do país oferecem, não o mundo porque não têm, mas um digno salário para ter um profissional. Muitos desses locais também oferecem condições de trabalho, no entanto, não encontram o profissional. Por que isso está ocorrendo?

Supondo que a maioria dos médicos tenha a consciência de que a cidadania e o direito devem ser uma conquista coletiva, que o salário (10 mil reais) para um recém-formado é digno e que as condições de trabalho estejam dadas, e mesmo assim não se encontra o profissional, sou obrigado a afirmar que faltam médicos e médicas no Brasil.

Se não é falta de médico, como muitos têm afirmado, é então falta de consciência, que o meu antigo professor, já “jogando a toalha”, esperava que as novas faculdades e novos cursos de medicina dariam ao futuro profissional.

Algumas palavras de ordem, algumas chamadas pela mobilização dos médicos e algumas faixas que apareceram nas manifestações, demonstram que uma boa parte desses profissionais não tem a consciência de que a cidadania não se constrói individualmente, mas é fruto de construção coletiva e que jamais a sua cidadania pode ser vivida em detrimento da de outrem.

Hoje favorável à abertura de novos cursos de medicina em faculdades públicas e com nova grade curricular, não jogo a toalha porque tenho a certeza que nessas condições serão gerados profissionais comprometidos com a construção do direito e da cidadania.

Dr. Rosinha, médico pediatra é deputado federal (PT-PR) e presidente da Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara dos Deputados. No twitter: @DrRosinha

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27 comentários

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Gustavo Fanha

10 de agosto de 2013 às 10h31

Acredito fortemente que é uma questão de consciência, não sou medico, alias nem formação acadêmica ainda tenho, mas tenho a impressão que este é um tema para ser debatido em todas as categorias dos trabalhadores em nosso País, e não um tema pra ser colocado como de situação ou de oposição, como surgem os comentários.
Estes temas servem para fortalecer os trabalhadores, de domésticos a engenheiros, e para que todos possam ter direito a cidadania.
Como estamos em um País em que todos temos direitos, pois isso faz parte da Democracia, conseguimos analisar quanto cada um tem de consciência em poucas palavras colocadas.
Tomara que o tema em questão gere bastante polêmica, desta forma vamos poder verificar o quanto querem nos manipular para tentar mudar a opinião publica. Adorei a Matéria Rosinha.

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Paulo

10 de agosto de 2013 às 00h51

Sou médico e discordo totalmente do texto do Dr. Rosinha, que está falando como político vinculado ao governo e não como médico. Vejam bem, nos Estados Unidos tem 141 escolas de medicina para uma população de 317.641.087 de habitantes; no Brasil tem 196 escolas para uma população de 190.732.694 de habitantes. Não faltam médicos, o que falta é estrutura. O salário inicial de médico em prefeituras do interior não é R$ 10.000,00, esse valor só para esse programa. Basta que se vejam os anúncios em jornais. Pagam em média R$ 2.000,00. Aí o médico pega sua caneta e o carimbo e vai fazer o que no interior? Sem muitas vezes um rx ou exames básicos. NÃO SE FAZ MEDICINA SÓ COM CANETA. Se for seguir essa lógica vamos contratar cozinheiras para o problema da fome. Quem já foi a um posto de saúde no interior sabe bem das condições. Se o Dr. Rosinha propusesse um programa de melhoria das escolas eu estaria de acordo. O governo quer responder às ruas e coloca a culpa do caos da saúde nos médicos, ao invés de assumir anos e anos de descaso, falta de investimento, falta de saneamento básico entre outros. Temos um exemplo das escolas de direito. No Brasil temos 1240 cursos de direito, a soma do resto do planeta chega em 1.100 e nem por isso temos uma justiça de boa qualidade
http://www.oab.org.br/noticia/20734/brasil-sozinho-tem-mais-faculdades-de-direito-que-todos-os-paises

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zuleica jorgensen

09 de agosto de 2013 às 18h36

Outro dia vi um comentarista médico dizendo que: médico para a Amazonia nem com salário de 100 mil.
Vejo nos médicos muita razão quando reivindicam uma carreira, com benefícios e emprego garantido. Ser cidadão é também estar inserido na sociedade com os direitos e garantias que a lei oferece.
Mas vejo também um lado cínico nas manifestações de médicos. E creio que aquele médico que citei no início está certo: para muitos locais os médicos não irão mesmo que tenham carreira e direitos garantidos.
Não podemos esquecer que médicos são oriundos das classes mais favorecidas, e a maioria se forma e quer trabalhar em cidades onde possam, ao lado da atividade pública, com duas matrículas como permite a lei, possam abrir seus consultórios particulares.
Talvez com a abertura de cursos médicos em locais mais próximos dos que mais necessitam de médicos seja possível que, depois de formados, esses profissionais não batam asas para a cidade grande.

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Mameladov

09 de agosto de 2013 às 17h04

Não é que o PT não enxergue a cura, é que o PT não vê a doença..

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antonio carlos ciccone

09 de agosto de 2013 às 13h57

Dr. Rosinha, sou médico com 35 anos de formado.Trabalhei para o Inamps(o melhor serviço que tive, antes de ele ser destruido por FHC)por muitos anos. Trabalhei para as Pref. de S.Paulo, Cotia , Carapicuiba . Trabalhei para o Estado. A cada ano que passava a situação estava pior.
Hoje moro próximo à junção das cidades de Carapicuiba, Cotia, S.Paulo e Osasco . Há unidades de saude precisando de médicos em todas.
Algumas ficam a dez , vinte minutos de carro. Eu estou só com uma atividade.Não vou trabalhar em nenhuma dessas cidades, muito próximas, pois não há mais condições de trabalho.
Conheço tudo em matéria de SUS.Não se consegue exames, os retornos são a perder de vista, não há material, medicamentos, equipamentos, etc,etc
As contratações são precárias e o sistema foi todo destruido.Acho que não tem volta.

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marco

09 de agosto de 2013 às 09h03

Dr.Rosinha.Mesmo que se criem mais escolas,duvido que consigam despertar em qualquer um deles,o que o sr.chama de espírito cidadão.Eu chamo isto de senso de dever o que vem a ser a mesma coisa,contudo numa sociedade cuja prevalência dos valores estâo focadas do individualismo,in dividualismo este característicos de uma classe social que hoje chamam de classe média,não passam de componentes da velha pequena-burguesia,tão odiada por àqueles filósofos do passado recente e que acentuavam serem estes,os mesmos que um pouco mais pra traz,na história,eram os vassalos,que passaram suas existências,sonhando em se transformarem nos senhores que tanto admiravem e admiram hoje,isto é,ser rico.Não vejo portanto grandes possibilidades de se mudar isto,se não mudarmos a cultura no sentido de A cada direito adquirido,some-se um dever devido.Infelizmente Dr.Rosinha,embora concoerde com o senhor!

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Julio Silveira

08 de agosto de 2013 às 12h42

O único pensamento que me bate é imaginar que o Dr. Rosinha pertence ao baixo clero.

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Fábio Mayer

08 de agosto de 2013 às 11h24

Dr. Rosinha: criar cidadãos começa por não passar a mão nas suas cabeças eternamente! No Brasil, as pessoas negam cidadania até em coisas simples, como o falar: vão para a escola pública, universal e gratuita, recebem uniforme, transporte, alimentação, livros e materiais escolares e depois de 8 anos de ensino fundamental, acham que falar errado é bonito, denota suposta “humildade”. Gente assim jamais será cidadã, como não é cidadão quem joga lixo na rua, enche boeiros e bocas de lobo e depois vai pedir casa nova para o governo, porque este não preveniu enchentes! Ora, a formação de uma pessoa não ocorre só nas faculdades, ocorre desde o berço, se elas chegam à faculdade sem se preocupar em ter o mínimo de formação e educação, não sairão cidadãs de lá! O que falta no Brasil é responsabilizar as pessoas pelos seus atos, doa a quem doer, seja rico ou pobre, tenha curso universitário ou só o fundamental. Cidadania é decorrência do império da Lei. Enquanto perdurar no Brasil esse clima de vale tudo, que vai desde o descumprimento de regras de trânsito, passa por gente que não observa nem uma prosaica fila e desagua em casos escabrosos de corrupção que simplesmente não são punidos, não haverá cidadania no Brasil, nem entre médicos, nem entre políticos, nem entre trabalhadores menos qualificados!

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renato

08 de agosto de 2013 às 10h51

Muito bem Dr. Rosinha, falo daqui, da cidade onde deveria haver um faculdade. Mas vai sair.

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Noé

08 de agosto de 2013 às 10h46

Estudar numa universidade sempre foi privilégio de poucos brasileiros, principalmente a medicina considerada a coqueluche da elite. Decerto que esses filhos da elite nunca irão se internar no sertão. Esperemos que daqui pra frente o governo popularize o curso de medicina permitindo que verdadeiros vocacionados tenham acesso à profissão. Só assim se resolverá o problema da saúde no Brasil.

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Mardones

08 de agosto de 2013 às 09h27

Como gerar cidadãos conscientes se os cursos universitários não tratam da formação cidadã? Ilude-se quem pensa que formar-se numa instituição de nível universitário é garantia de construção de consciência coletiva para os direitos de todos nos egressos. Nossas universidades e faculdades, no máximo, garantem diploma e plantam no egresso a semente do ‘ vá buscar seu lugar no mundo’. E mais nada!

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Gilberto Silva

08 de agosto de 2013 às 08h13

Porque então o Governo não passa as entidades médicas que estão dizendo que tem médico a responsabilidade de contratar os médicos onde são necessários ?

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Pedro luiz

08 de agosto de 2013 às 08h03

Eles não querem trabalhar no interior. Os médicos são de outra categoria, são da classe dos 10 mil.Nem todos, nem todos.Mas filho de garçom que se forma médico é muito pouco ainda.

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José Eduardo

08 de agosto de 2013 às 00h40

Que venham os estrangeiros! Porque esses que se dizem “ricos e cultos” não prestam! Esses sacanas estão é morrendo de medo da futura concorrência, isso sim!

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    Elias Borges

    09 de agosto de 2013 às 07h36

    Antigamente os bons profissionais recém formados iam para o interior fazer fama e dinheiro, hoje se formam nas coxas não vão por falta de capacidade.
    Aqui no meu município Vila Velha ES, quem medica nos Prontos Atendimentos é Enfermeiro, que se travestiram de Médicos pela lei e pela necessidade.

carmen silvia

08 de agosto de 2013 às 00h05

É lamentável saber que um texto simples como esse do Dr.Rosinha,mas ao mesmo tempo de uma clareza imensa sobre como deveria atuar um médico, será visto com cinismo e deboche por aqueles que deveriam primeiro se perguntar por que escolheram essa profissão senão para salvar vidas ou pelo menos fazer o impossível pra que isso ocorra.Pleitear melhores salários e condições de trabalho é absolutamente legítimo,mas usar essas reinvindicações como desculpa pra não cumprir um dos compromissos mais dignos é sérios,qual seja,salvar vidas,reduzir o sofrimento,curar doenças,definitivamente não dá pra entender.

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J Souza

07 de agosto de 2013 às 22h33

Sim, dr. que quando estava na oposição era contra e agora que é do partido no poder é a favor da abertura de cursos de medicina, os médicos brasileiros são muito “maus”, muito “desumanos”… Tragam os “humanos” do exterior!
E continuem dando BOLSAS, ao invés de empregos, para os médicos recém-formados, pois eles “não devem merecer” mais do que isso!
E também, dr., nem deve ser verdade que os prefeitos para os quais vocês estão fazendo politicagem desviam recursos da saúde… Isso deve ser intriga da oposição…
Botem esses médicos “vagabundos” para trabalhar… Sem concurso!… E paguem pouco, bem pouco, principalmente para os formados em universidades públicas…

Responder

    Carlos

    08 de agosto de 2013 às 08h44

    E você, Doutor, lembre do seu juramento…

    ma.rosa

    08 de agosto de 2013 às 10h34

    “janotinha” vc. chora de barriga cheia. Que coisa feia!!!

    albuquerque costa

    08 de agosto de 2013 às 11h36

    Falou tudo,porque o autor do texto,não se candidata a trabalhar como médico nos municípios que necessitam, o referido Dr. seria muito mais útil do que tem sido na potilíca,e o Brasil teria um médico a mais.

    Vlad

    08 de agosto de 2013 às 19h37

    Haha…e vai largar a mamata?!
    Vai sonhando.

Ozzy Gasosa

07 de agosto de 2013 às 22h14

A máfia de branco são uma vergonha para a Nação.
10 mil reais sem concurso público e ainda fazem a passeata da hipocrisia.

Responder

    Ines

    08 de agosto de 2013 às 16h12

    Sao os “Coxinhas” de avental branco.

    MarceloBA

    08 de agosto de 2013 às 21h19

    Se o avental/jaleco branco já têm, do hospital/consultório para a padaria/cozinha é um pulo…!

    Rosmeri

    08 de agosto de 2013 às 22h18

    Ozzy, Que todos os santos te cuidem e que vc nunca precise da mafia branca para curar as suas dores, assim como sua mae nao precisou de medico para parir voce …

    Edi Passos

    10 de agosto de 2013 às 15h15

    Será que vão “desligar os aparelhos”?


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