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Política

Noam Chomsky: A maior ameaça à paz mundial


23/01/2013 - 21h52

Os Estados Unidos realizaram em dezembro um teste nuclear em Nevada. O país não aceitou abrir a atividade aos inspetores internacionais, o que têm exigido do Irã – que, aliás, protestou, assim como fizeram o prefeito de Hiroshima e alguns grupos pacifistas japoneses. O acontecimento voltou a chamar atenção para a disputa entre Israel e Irã, mas sem pôr em pauta o que realmente é importante: a criação de uma zona livre de armas nucleares no Oriente Médio.

Noam Chomsky, em La Jornada, via Carta Maior

Há alguns meses, ao informar sobre o debate final da campanha presidencial nos Estados Unidos, o The Wall Street Journal observou que “o único país mais mencionado (que Israel) foi o Irã, o qual a maioria das nações de Oriente Médio vê como a principal ameaça à segurança da região”.

Os dois candidatos estiveram de acordo em que um Irã nuclear é a maior ameaça à região, se não ao mundo, como Romney sustentou explicitamente, reiterando uma opinião convencional.

Sobre Israel, os candidatos rivalizaram em declarar sua devoção, mas nem assim os as autoridades israelenses se deram por satisfeitas. Esperavam “uma linguagem mais ‘agressiva’ de Romney”, segundo os repórteres. Não foi suficiente que Romney exigisse que não se permitisse que o Irã “alcance um ponto de capacidade nuclear”.

Também os árabes estavam insatisfeitos, porque os temores árabes sobre o Irã se “debateram sob a ótica da segurança israelense, não da região”, e as preocupações dos árabes não foram contempladas: uma vez mais, o tratamento convencional.

O artigo do Journal, como incontáveis outros sobre o Irã, deixa sem resposta perguntas essenciais, entre elas: Quem exatamente vê o Irã como a ameaça mais grave à segurança? O que os árabes (e a maior parte do mundo) acham que se pode fazer diante dessa ameaça, existindo ou não?

A primeira pergunta é fácil de responder. A ameaça iraniana é uma obsessão totalmente do Ocidente, compartilhada por ditadores árabes, embora não pelas populações árabes.

Como mostraram numerosas pesquisas, mesmo que os cidadãos dos países árabes em geral não simpatizem com o Irã, não o consideram uma ameaça muito grave. Na verdade, percebem que a ameaça são Israel e Estados Unidos, e vários, muitas vezes maiorias consideráveis, veem nas armas nucleares iranianas um contrapeso para essas ameaças.

Em altas esferas dos Estados Unidos, alguns estão de acordo com a percepção das populações árabes, entre eles o general Lee Butler, ex-chefe do Comando Estratégico. Em 1998 ele disse: “É extremamente perigoso que, no caldeirão de animosidades que chamamos Oriente Médio”, uma nação, Israel, deva contar com um poderoso arsenal de armas nucleares, “que inspira outras nações a tê-lo também”.

Ainda mais perigosa é a estratégia de contenção nuclear da qual Butler foi o principal formulador por muitos anos. Tal estratégia, escreveu em 2002, é “uma fórmula para uma catástrofe sem remédio” e convidou os Estados Unidos e outras potências atômicas a aceitar os compromissos contraídos dentro do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) e fazer esforços de “boa fé” para eliminar a praga das armas atômicas.

As nações têm a obrigação legal de levar a sério esses esforços, decretou a Corte Mundial em 1996: “Existe a obrigação de avançar de boa fé e levar a termo as negociações orientadas ao desarmamento nuclear em todos seus aspectos, conforme um controle internacional estrito e efetivo”. Em 2002, o governo de George W. Bush declarou que os Estados Unidos não estão comprometidos com essa obrigação.

Uma grande maioria do mundo parece compartilhar a opinião dos árabes sobre a ameaça iraniana. O Movimento de Países Não Alinhados (MNA) apoiou com vigor o direito do Irã de enriquecer urânio; sua declaração mais recente aconteceu na cúpula de Teerã, em agosto passado.

A Índia, membro mais populoso do MNA, encontrou formas de evadir às onerosas sanções financeiras dos Estados Unidos ao Irã. Executam planos para vincular o porto iraniano de Chabahar, recondicionado com assistência indiana, com a Ásia Central, através do Afeganistão. Também se informa que as relações comerciais se incrementam. Se não fosse pelas fortes pressões de Washington, é provável que estes vínculos naturais tivessem uma melhoria substancial.

A China, que tem estatuto de observadora no MNA, faz o mesmo, em boa medida. Expande seus projetos de desenvolvimento para o Ocidente, entre eles iniciativas para reconstituir a antiga Rota da Seda para a Europa. Uma linha ferroviária de alta velocidade conecta a China com o Cazaquistão e além. É provável que chegue ao Turcomenistão, com seus ricos recursos energéticos, e que se conecte com o Irã e se estenda até a Turquia e a Europa.

A China também tomou o controle do importante porto de Gwadar, no Paquistão, que lhe permite obter petróleo do Oriente Médio evitando os estreitos de Ormuz e Malaca, saturados de tráfico e controlados pelos Estados Unidos. A imprensa paquistanesa informa que “as importações de petróleo cru do Irã, dos estados árabes do Golfo e da África poderiam ser transportadas por terra até o noroeste da China através deste porto”.

Em sua reunião de agosto, em Teerã, o MNA reiterou sua velha proposta de mitigar ou pôr fim à ameaça das armas nucleares no Oriente Médio, estabelecendo uma zona livre de armas de destruição em massa. Os passos nessa direção são, sem dúvida, a maneira mais direta e menos onerosa de superar essas ameaças, o que é apoiado por quase o mundo inteiro.

Uma excelente oportunidade de aplicar essas medidas se apresentou recentemente, quando se planejou uma conferência internacional sobre o tema em Helsinki.

Foi realizada uma conferência, mas não a que estava planejada. Só organizações não governamentais participaram da reunião alternativa, organizada pela União pela Paz, da Finlândia. A conferência internacional planejada foi cancelada por Washington em novembro, pouco depois que o Irã concordou em comparecer.

A razão oficial do governo Obama foi “a turbulência política na região e a desafiante postura do Irã sobre a não proliferação”,  segundo a agência Associated Press, junto a uma falta de consenso sobre como enfocar a conferência. Essa razão é a aprovada referência ao fato de que a única potência nuclear da região, Israel, se negou a comparecer, alegando que a solicitação para fazê-lo era “coerção”.

Aparentemente, o governo de Obama mantém sua postura anterior de que “as condições não são apropriadas, a menos que todos os membros da região participem”. Os Estados Unidos não permitirão medidas para submeter as instalações nucleares de Israel a inspeção internacional. Também não revelará informação sobre “a natureza e alcance das instalações e atividades nucleares israelenses”.

A agência de notícias do Kuwait informou imediatamente que “o grupo árabe de Estados e os estados membros do MNA concordaram em continuar negociando uma conferência para o estabelecimento de uma zona livre de armas nucleares no Oriente Médio, assim como de outras armas de destruição em massa”.

Recentemente, a Assembleia Geral da ONU aprovou, por 174 votos a seis, uma resolução na qual convida Israel a aderir ao TNP. Pelo não, votou o contingente acostumado: Israel, Estados Unidos, Canadá, as Ilhas Marshall, Micronésia e Palau.

Dias depois, em dezembro, os Estados Unidos realizaram um teste nuclear, impedindo mais uma vez o acesso de inspetores internacionais ao local do teste, em Nevada. O Irã protestou, assim como o prefeito de Hiroshima e alguns grupos pacifistas japoneses.

Claro que, para estabelecer uma zona livre de armas atômicas, se requer a cooperação das potências nucleares: no Oriente Médio, isso incluiria os Estados Unidos e Israel, que se negam a cooperar. O mesmo acontece em outros lugares. As zonas da África e do Pacífico aguardam a aplicação do tratado porque os Estados Unidos insistem em manter e melhorar as bases de armas nucleares nas ilhas que controla.

Enquanto se levava a cabo a conferência de ONGs em Helsinki, em Nova York se realizava um jantar com o patrocínio do Instituto sobre Políticas sobre o Oriente Próximo, de Washington, ramificação do conselho israelense.

Segundo uma matéria entusiasta sobre essa “cerimônia” na imprensa israelense, Dennis Ross, Elliott Abrams e outros “ex-conselheiros de alto nível de Obama e Bush” asseguraram aos presentes que “o presidente atacará (o Irã) se a diplomacia não funcionar”: um presente de festas de fim de ano muito atrativo.

É difícil que os estadunidenses estejam cientes de como a diplomacia voltou a falhar, por uma simples razão: virtualmente não se informa nada nos Estados Unidos sobre o destino da forma mais óbvia de lidar com “a mais grave ameaça”: estabelecer uma zona livre de armas nucleares no Oriente Médio.

Noam Chomsky é professor emérito de linguística e filosofia no Instituto Tecnológico de Massachusetts, em Cambridge. O novo livro de Noam Chomsky, Power systems: conversations om global democratic uprisings and the new challenges to US empire (Sistemas de poder: conversas sobre as rebeliões democráticas globais e os novos desafios ao império estadunidense) será publicado em janeiro.

Leia também: 

Simon Jenkins: A ameaça dos aviões não tripulados

Mairead Maguire: A degeneração do Nobel da Paz

Robert Fisk: A Arábia Saudita como fonte da democracia





9 comentários

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kalifa

25 de janeiro de 2013 às 11h39

O obama o bufão dos imbecis inicia em breve a guerra com o irã que tenta se imunizar da brutalidade fazendo a bomba imprópria para o uso!

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ZePovinho

24 de janeiro de 2013 às 12h55

Não vou nem falar,para não me descerem o cacete,que em Israel o povo judeu já começa a minar o sionismo ao eleger o Bibi como pato manco.
Veja,Azenha,para entender a mente da direitona dos EUA as seguintes pérolas mineradas pelo operoso ZePovinho:

http://resistir.info/financas/ouro_24dez12.html

O ouro e o “fim do mundo”

“…O Federal Reserve System, que guarda o ouro nacional em cofres-fortes, tornou-se a segunda linha de resistência à Alemanha. A princípio a oposição foi verbal. A CNBC, por exemplo, um media influenciável, foi utilizada. John Carney, Editor Sénior da CNBC.com, publicou um editorial que continha uma declaração integrante. Dizia: “Não importa nem um pouco se o Federal Reserve Bank of New York realmente tem ouro do banco central alemão ou se o ouro é puro. Desde que o Fed diga que está ali, ele é tão bom como se estivesse ali para todos as finalidades práticas para as quais possa ser colocado. Ele pode ser vendido, alugado (lease out), utilizado como colateral, empregado para eliminar passivos e contado como capital bancário da mesma fora quer exista ou não”. E acrescentou: “Como mencionei acima, para quase todas as finalidades operacionais imagináveis, a existência real do ouro em Fort Knox ou no cofre-forte por baixo da sede do FRBNY na Liberty Street é irrelevante. Aqui a contabilidade é o que realmente importa. Desde que o Fed diga que o Bundesbank possui X toneladas de ouro, o Bundesbank pode actuar como se possuísse o ouro – mesmo se o ouro tiver sido engolido no buraco de um verme galáctico comedor de ouro”. Segundo ele, “estou certo de que os responsáveis do Bundesbank entendem isto bastante bem, muito embora o Tribunal de Contas Alemão não entenda. Não há nada a ser ganho com a inspecção do ouro. Se ele está todo ali e puro, não há diferença em relação a uma ausência não descoberta. Mas se o ouro não estiver ali, bem, poderia seguir-se a calamidade quando a confiança nos depósitos de ouro do banco central se evaporasse instantaneamente””…

http://redecastorphoto.blogspot.com.br/2013/01/nos-eua-guerra-contra-realidade.html

Nos EUA, guerra contra a realidade

“… Vez ou outra, a Direita manifesta abertamente o desprezo que sente pelos fatos da realidade. Quando o escritor Ron Suskind entrevistou membros do governo Bush em 2004, recolheu inúmeros depoimentos carregados do mais profundo desprezo por quem se recusasse a ajustar-se ao neomundo dos neocrentes da neofé.

Citando fonte não identificada, alto assessor de George W. Bush, Suskind escreveu:

“O assessor disse que gente como eu não passa do que “nós chamamos de comunidade dos dependentes da realidade”, que o entrevistado definiu como “gente que crê que as soluções brotem de estudo atento da realidade circundante”. E o tal assessor continuou: “O mundo já não funciona assim. Os EUA agora somos um império. Quando agimos, criamos nossa própria realidade. E enquanto você estuda essa realidade – e estude muito atentamente, se quiser –, agiremos novamente criando novas realidades, que você também pode estudar o quanto quiser. E as coisas serão assim, daqui por diante. Somos atores da história (…). Você, todos vocês, ficarão para trás, para estudar o que fazemos””…

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    Mário SF Alves

    25 de janeiro de 2013 às 17h23

    Genial, ZePovinho. Genial essa coisa aí de criar a realidade.
    http://redecastorphoto.blogspot.com.br/2013/01/nos-eua-guerra-contra-realidade.html
    ________________________________________
    Também pudera, quem propaga aos 4 cantos do mundo que são os escolhidos e sei mais o quê, além fiéis depositários do tal destino manifesto, um dia iam acabar nisso, literalmente, pirando na batatinha.
    _________________________________________________
    Nem Einstein com a Teoria da Relatividade ousaria tanto!

Nelson

24 de janeiro de 2013 às 09h28

O autor dispensa apresentações. Além disso, descendente de judeus e nascido nos Estados Unidos, Chomsky é insuspeito; não pode ser acusado de padecer de ódio irracional contra os EUA e Israel.
Assim, este texto é mais uma oportunidade para que aqueles que “alimentam-se” de notícias apenas através dos órgãos da mídia hegemônica e seus (de)deformadores de opinião ampliem sua visão sobre o que acontece no mundo.
Só assim conseguirão enxergar por sobre a vasta cortina de fumaça que o aparato de propaganda do sistema dominante joga sobre nossos olhos e mentes para que não vejamos a essência dos fatos. Cortina de fumaça muito utilizada para que assimilemos como verdadeiras as versões dos fatos que este sistema deseja que entendamos como tradutoras da realidade vigente.

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F Toni

24 de janeiro de 2013 às 07h43

Por favor corrigir a seguinte informaçao: “Instituto Tecnológico de Massachusetts, em Cambridge”
O MIT nao fica em Cambridge – Reino Unido e sim em Massachusetts, Estados Unidos da América.

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    Luiz Carlos Azenha

    24 de janeiro de 2013 às 10h26

    Toni, é que tem Cambridge, Massachusetts, onde ficam Harvard e MIT. abs

J Souza

23 de janeiro de 2013 às 22h12

Alguém poderia me dizer COMO um equilíbrio de forças no Oriente Médio poderia atender aos interesses político-econômicos dos EUA na região?

Se os EUA pulverizarem o Irã, no dia seguinte terão que encontrar outra “ameaça” para manter seu vultuoso arsenal bélico no Oriente Médio…

O Irã está sendo um inocente útil, embora tenha, reiteradas vezes, recusado esse papel perante o mundo!

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    H. Back™

    23 de janeiro de 2013 às 23h28

    Exato! Coincidiu com o meu raciocínio! A maior ameaça à paz mundial são justamente os Estados Unidos e seu establishment.


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