Ceci Juruá, sobre a festa incompleta dos 200 anos da Independência: Falta festejar as do Piauí, Ceará, Bahia, Pará e Maranhão

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Ilustração: Mihai Cauli

Comemorações inconclusas do Bicentenário, faltam Nordeste e Amazônia

Por Ceci Juruá*

Em agosto de 1822, o então Príncipe Regente do Brasil, Dom Pedro I, viajou do Rio de Janeiro para São Paulo para resolver questões políticas desta província.

Em sua ausência, o navio português Três Corações atracou no Rio de Janeiro, trazendo ordens  das  Cortes de Lisboa.

Entre elas, teve repercussão altamente desfavorável a que determinava a instalação nas províncias brasileiras de juntas governativas subordinadas a Lisboa nas províncias brasileiras, medida que obrigatoriamente limitaria a autoridade do Príncipe Regente.

Dom Pedro, por cartas recebidas de José Bonifácio e da Imperatriz Leopoldina tomou conhecimento do fato e das opiniões de ambos a respeito.

E, ali onde estava, em 7 de setembro de 1822,  às margens do arroio Ipiranga, em São Paulo, proclamou o brado simbólico: Independência ou morte!

Não se tratou de gesto impulsivo. Na Corte do Rio de Janeiro, a independência era fato consumado, desde a convocação da Assembleia Constituinte, em 3 de junho de 1822.

Ou, pelo menos, desde o decreto da Proclamação aos Povos do Brazil, de 1º de agosto, que começava com a seguinte frase: “Esclarece os Povos do Brazil das causas da guerra travada contra o Governo de Portugal” (sic)

O documento continha graves acusações, como: “mãos roubadoras dos recursos aplicados no Banco do Brasil”; Congresso de Lisboa “negociava com Nações estranhas a alienação de porções do território brasileiro, visando enfraquecer e escravizar”.

Em 9 de setembro de 1822, em sessão extraordinária do Grande Oriente do Brasil, Joaquim Gonçalves Ledo apresentou moção para a mais antiga sociedade de maçons no país realizar cerimônia, marcando o rompimento total e definitivo com a Corte de Lisboa.

Daí, em 12 de outubro, a aclamação de Dom Pedro “pela graça dos povos e de Deus” como Imperador constitucional do Brasil. No dia, ele fazia 24 anos.

Naquela ocasião, apenas os estados que hoje constituem as regiões Sul e Sudeste apoiavam a nova organização política. Pernambuco apenas participara das eleições para a Assembleia Constituinte. Em janeiro de 1823, Goiás e Mato Grosso juntaram-se ao Império.  Na sequência, Pernambuco, Sergipe e Alagoas.

No artigo “Estado e Política na Independência”, a historiadora Lúcia M. Bastos Pereira das Neves diz que   a não adesão imediata de parte do território da Bahia e das províncias nordestinas dePiauí/Ceará, Maranhão e Pará decorreu de laços políticos e conflitos entre o centralismo da corte fluminense e eventual autogoverno provincial:

… finda a invasão do território português pelas tropas francesas, algumas províncias, como passavam a ser chamadas as capitanias, voltavam a ligar-se diretamente a Lisboa, em função, sobretudo, de seus interesses econômicos e comerciais…acabaram por constituir um grupo bastante homogêneo e poderoso, solidamente enraizado no Centro Sul, cuja atuação seria decisiva na independência, de forma distinta daqueles que habitavam o Norte e o Nordeste, ainda dependentes em muito das casas comerciais portuguesas.

A dependência comercial mais a presença de tropas portuguesas nas províncias explicam parcialmente as guerras da independência que ocorreram em território da Bahia, nas províncias nordestinas de Piauí/Ceará e Maranhão, e ao Norte, no Pará.

”Foram guerras com efusão de sangue”, acentua Lúcia Neves.

Guerras para expulsar os que se tornaram estrangeiros. Em cada local, foram fixadas datas de comemoração local da independência com adesão ao Império do Brasil e à autoridade de Pedro I:

Piauí/Ceará, 13 de março, após Batalha de Jenipapo

Bahia, 2 de julho, após expulsão das tropas portuguesas que ocupavam Salvador

Maranhão e Pará, 7 e 15 de agosto respectivamente

Os cinco estados, ex-províncias, que conquistaram guerreiramente o direito de pertencer ao Brasil merecem em 2023 uma comemoração à altura do papel que desempenham ainda hoje como guardiães da verdadeira cultura brasileira.

Uma cultura poderosa, que resiste a séculos de escravidão e de genocídio dos povos originários e que, em 2022, nos brindou com heroica vitória eleitoral contra velhos fantasmas nazifascistas. Para os brasileiros, vai ficando claro que a Bahia é o nosso principal berço nativista.

Nosso povo gosta de festa, alegria e liberdade. Quem sabe o governo atual tenha disponibilidade para festejar este outro Brasil.

O dois de julho de 2023 merece comemoração especial na Bahia e no Brasil.

Aquelas batalhas, de adesão ao Brasil que se formava, estão descritas na magnífica obra ”O Feudo”, do historiador brasileiro Moniz Bandeira, que mergulhou nos arquivos provinciais e descreveu detalhes dos embates que uniram indígenas, negros e senhores feudais.

Dessas batalhas gloriosas fizeram parte Maria Quitéria, Joana Angélica, o Barão da Torre de Garcia d´Ávila (titulo de nobreza de Joaquim Pires de Carvalho e Albuquerque; primeiro barão e único visconde com grandeza, o Visconde de Pirajá).

Há também, em perspectiva internacional, o projeto de celebração de outro bicentenário, festejando o início das relações diplomáticas entre Brasil e Argentina. Unidos, enfim, a dupla Argentina-Brasil permite sonhar e renovar as esperanças de que poderemos construir um grande futuro para nossos povos, com bem-estar e justiça social para todos cidadãos e cidadãs de nosso sub-continente. Sonho de muitos heróis que já deram a vida pela Pátria Latina.

A Independência foi duramente conquistada por nosso povo. Devemos festejá-la na sua integridade e honrar a memória dos que nos legaram este imenso, lindo e rico território. À festa companheiros e companheiras! Festejemos nosso Brasil!

Consulta bibliográfica:

Bastos P. Neves, Lúcia M. Estado e Política na Independência. In O Brasil Imperial, vol.1 – 1808-1831. Por Keyla Grinberg e Ricardo Salles (orgs). Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2009

Vainfas, Ronaldo (Dir.) Dicionário do Brasil Imperial. Rio de Janeiro: Ed. Objetiva, 2002

 Vivi Nabuco (org) e Alexei Bueno História das ruas do Rio. Rio de Janeiro: Bem-Te-Vi Produções literárias, 2013 (6ª edição). Por(na 6ª edição)
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*Ceci Juruá é economista, mestre em Desenvolvimento e Planejamento Econômico, doutora em Políticas Públicas. Foi professora de Economia da Universidade Católica de Brasília, conselheira do Corecon-RJ por dois triênios, vice-presidente da Federação Nacional dos Economistas. Atualmente é membro do Conselho Diretor do Centro Internacional Celso Furtado e do Conselho Consultivo da Confederação Nacional CNTU.

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