Carta Maior: Suspeitas de ligações de Perillo com Cachoeira permanecem

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Bem preparado, seguro e acompanhado de um batalhão de correligionários, o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), prestou depoimento, nesta terça (12), à CPMI do Cachoeira. Mas circunstâncias da venda da sua casa, na qual o contraventor foi preso, continuam obscuras. As suspeitas de que empresas da quadrilha de Cachoeira tenham saldado suas dívidas de campanha também permanecem.

por Najla Passos, em Carta Maior

Brasília – Bem preparado e seguro, o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), prestou depoimento, nesta terça (12), na CPMI do Cachoeira. Mas, mesmo após quase nove horas, não conseguiu convencer os parlamentares do seu não envolvimento com a quadrilha do contraventor Carlos Augusto Ramos. As circunstâncias da venda da casa do governador, na qual Cachoeira foi preso, em fevereiro, continuam obscuras. As suspeitas de que empresas da quadrilha tenham saldado suas dívidas de campanha também permanecem.

Perillo chegou ao Senado acompanhado de um batalhão de correligionários. Além da sala 2 da Ala Nilo Coelho, tradicionalmente usada pela CPMI, a casa precisou abrir outras duas para acomodar o público recorde. E não foi suficiente. Havia aglomerações em frente dos telões espalhados pelos corredores. Inclusive de manifestantes que, com nariz de palhaço, gritavam “Fora Perilo”.

O governador usou 1,5 hora para suas considerações iniciais. Negou qualquer envolvimento com Cachoeira, disse estar sendo vítima de perseguição por ter sido o primeiro a alertar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre o esquema do “mensalão” e aproveitou o palco privilegiado para enumerar o que considera seus grandes feitos à frente da administração de Goiás.

A cada fala do governador, seus correligionários o saudavam com palmas efusivas. O clima de convenção partidária nas salas alternativas a do depoimento era tanto que, quando a TV Sendo interrompeu a transmissão, chegou a haver protestos. “Os eleitores de Goiás querem ouvi-lo se explicar”, justificaram os tucanos. E conseguiram convencer a casa a reautorizar a transmissão, mesmo em desacordo com o regimento interno.

O clima só começou a mudar quando os parlamentares governistas e, especialmente, os ditos “independentes”, passaram a inquiri-lo.
Perillo informou à CPMI que vendeu sua casa ao ex-vereador Wlademir Garcez, posteriormente preso por envolvimento com a quadrilha. Disse que recebeu pelo imóvel R$ 1,4 milhões, valor de mercado, pagos em três cheques nominais, depositados em sua conta em março, abril e maio. Admitiu que não verificou que quem assinou os cheques foi o sobrinho de Cachoeira, Leonardo Ramos, em nome da empresa Excitant Indústria e Comércio de Confecções.

O senador Randolfe Rodrigues (PSOL-DF), entretanto, demonstrou que a Alberto & Pantoja, apontada pela Polícia Federal (PF) como uma das laranjas do esquema de Cachoeira, cobriu os valores pagos pela Excitant, em repasses iguais ou aproximados, ocorridos, curiosamente, nos mesmos dias em que os cheques depositados na conta de Perillo foram compensados. Mesmo assim, o governador negou que tenha vendido a casa à Cachoeira.

Outros documentos apresentados pelo parlamentar demonstram que o grupo do contraventor fez doações ao Comitê do PSDB em Goiás, durante a campanha de Perillo ao governo do Estado. Só o empresário Rossini Aires Guimarães, apontado pela PF como sócio de Cachoeira, repassou R$ 800 mil à legenda. Mas Perillo continuou insistindo que não recebeu nenhuma doação de Cachoeira.

O governador foi muito questionado sobre a possibilidade de empresas laranjas ligadas ao esquema criminoso terem quitado suas dívidas de campanha. O senador Pedro Taques (PDT-MT) insistiu em ouvi-lo sobre a denúncia feita pelo radialista Luiz Bordoni de que recebeu R$ 40 mil por serviços prestados durante a campanha, por meio de depósito da Alberto & Pantoja na conta de sua filha, Bruna Bordoni. Perillo negou a operação e disse que já está processando o radialista por calúnia.

Questionado pelo relator da CPMI, Odair Cunha (PT-MG), o governador não soube explicar porque tantos assessores, secretários e coordenadores do seu governo foram apontados pelas investigações como pessoas ligadas ao esquema de Cachoeira. Disse, por exemplo, desconhecer que sua chefe de gabinete, Eliana Pinheiro, avisava Cachoeira das operações policiais que pudessem prejudicá-lo, por meio de um rádio Nextel habilitado pela quadrilha nos Estados Unidos.

Também não justificou porque manteve no cargo o diretor do Detran, Edvaldo Cardoso, mesmo após ter recebido denúncia de que ele estava favorecendo as empresas de Cachoeira nas licitações do órgão. Segundo Perillo, a denúncia, apócrifa, foi repassada à Auditoria Geral. Ele não tomou conhecimento dos resultados da apuração, mas prometeu repassá-lo à CPMI.

Cunha também lembrou que o governador foi o autor da lei que regulamentou a exploração das máquinas caça níqueis em Goiás, quando a ilegalidade da atividade já estava pacificada pela jurisprudência. O relator o questionou também sobre o porquê no êxito à repressão à máfia espanhola que concorria com Cachoeira na exploração das caça níqueis, quando o contraventor ganhou a licitação para explorar os serviços no Estado.

Provocado pelo relator, Perillo se negou a autorizar a quebra dos seus sigilos telefônico e bancário, “por não ver necessidade para isso”. Odair, entretanto, justificou que são muitas as dúvidas que ainda pesam sobre o envolvimento do governador com o esquema criminoso. O assunto rendeu bate boca entre tucanos e petistas. Mas Marconi se manteve firme na decisão de não abrir seus sigilos.

Relações protocolares

Citado 237 vezes nas escutas telefônicas feitas pela Policia Federal (PF), Perillo afirmou que não mantinha relações próximas com Cachoeira, mas admitiu que telefonou para o contraventor para parabenizá-lo por seu aniversário, que o recebeu uma vez no palácio do governo e que jantou com ele, em outras duas oportunidades: uma na casa do senador Demóstenes Torres (ex-DEM-GO) e outra na de Garcez.

O tucano insistiu que desconhecia o fato de que Cachoeira era um contraventor, já investigado desde a CPI dos Bingos, em 2005. E, de fato, se referiu a ele como “empresário” durante todo o depoimento. “Em 30 mil horas de gravações, a PF flagrou apenas uma ligação minha para ele. Isso prova que não tínhamos uma relação próxima”, justificou.

Marconi negou também que tivesse ciência do envolvimento do senador Demóstenes com o contraventor. Aliás, fez questão de dizer que o senador desempenhou papel relevante na sua eleição e que não gostaria de fazer juízo de valores sobre suas atitudes.

Impressões

Durante o depoimento, o presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), se disse convencido de que o colega de legenda “deu um banho”, ao prestar um depoimento contundente e sem contradições. “As perguntas são as mesmas já feitas pela imprensa. O que houve foi uma tentativa de mudar o foco do mensalão para a CPMI”, acusou.

O líder do PT na Câmara, deputado Jilmar Tato (SP), reagiu. “Nós também poderíamos falar do mensalão do Eduardo Azeredo [ex-governador de Minas pelo PSDB] ou do caixa dois do Serra [pré-candidato tucano à prefeitura de São Paulo]. Mas não queremos desviar o foco da CPMI”.

Segundo ele, a situação do governador permanece complicada. “O Cachoeira foi preso em uma casa que ele [Perillo] vendeu. E que recebeu em cheques pagos pelo sobrinho do Cachoeira. Houve pagamento de dívidas de campanha por empresas laranjas do esquema”, argumentou.

O senador Randolfe Rodrigues reconheceu que o depoimento de Perillo foi forte, mas não sanou as contradições. Ele, entretanto, criticou a postura do relator que, na sua opinião, fez perguntas pouco contundentes ao governador. E chegou a falar em “blindagem”, que poderia ter resultado de acordo entre PSDB e PT para poupar governadores. “Vamos ver como será o depoimento do Agnello [Queiroz, governador do DF] amanhã”.

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Paulo Teixeira: CPI do Cachoeira tenta ouvir Cavendish, Pagot e Paulo Preto « Viomundo – O que você não vê na mídia

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Sérgio

Eu gostaria que fosse publicada aqui a opinião de algum blog/colunista de direita sério a respeito dos depoimentos dos dois governadores. Ás vezes sinto que tenho uma opinião tendenciosa por me informar sempre nos mesmos veiculos de comunicação (Viomundo, Carta Capital etc….)

carlos dias

171… típico, bem falante… mas explicações mesmo, nada!

Paulo Cavalcanti

http://migre.me/9tdBr – CPI – não serve para nada. Ou se preferirem, serve de picadeiro, para que um monte de políticos apareçam na Tv e jornais, como zelosos paladinos a moralidade e da justiça…

Leiam matéria interessante

    Geysa Guimarães

    Acho que você tem razão.

Bonifa

Há muitos furos. O maior deles é a Primeira Ministra de Perillo, encarregada maior dos negócios (lato sensu) administrativos do Governo de Goiás, ser flagrada em conversações prá lá de comprometedoras com o grande empresário da contravenção Cachoeira, onde o mais importante chega a ser referido. Por aí está aberta uma avenida de múltiplas pistas para desvencilhar a influência do grande empresário no governo.

Julio Silveira

Já começa a cheirar a pizza. A politicalha brasileira deve estar fazendo cursos intensivos de arte dramática, para representarem tão bem o papel de ofendidos e ofensores. Sabe-se que terminada a apresentação no tablado congressual, já tá marcado, todo mundo reunido nos bares de brasília para comemorar o espetáculo, que só eles vão dar risadas.

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