Carlos Fidelis: Democracia sitiada — autoritarismo, crime organizado e a disputa pelo Brasil
Tempo de leitura: 7 min
Por Carlos Fidelis Ponte*
O Brasil chega às eleições de 2026 diante de uma escolha que ultrapassa governos e candidaturas: está em disputa a capacidade da sociedade de decidir seu destino.
Depois de uma tentativa concreta de ruptura democrática, convivemos com forças que relativizam sua gravidade, enquanto o crime organizado avança sobre territórios, plataformas digitais concentram poder sobre a informação e pressões externas alcançam a política brasileira.
São fenômenos distintos, mas seus efeitos podem convergir: enfraquecer instituições e retirar da sociedade o poder de decidir seu futuro.
Ainda procuramos golpes esperando tanques nas ruas. O autoritarismo aprendeu com a história: democracias também podem ser corroídas por dentro, pela desinformação, pelo ataque às instituições e pela exploração do medo.
Não precisamos imaginar uma conspiração ligando tudo desde 2013 para reconhecer continuidades e consequências. Depois de ataques às urnas e à transferência do poder, o país enfrentou uma tentativa de ruptura democrática, pela qual o STF condenou, em 2025, integrantes do núcleo central da trama, incluindo Jair Bolsonaro.
A eleição começa muito antes da urna
Uma eleição democrática não começa quando o cidadão entra na cabine de votação. Começa nas condições em que vive, recebe informações, confronta alternativas e decide em quem confiar. Urnas seguras são indispensáveis, mas precisamos perguntar também quem controla a informação e quem dispõe de dinheiro e tecnologia para fabricar popularidade, indignação ou consenso.
O Brasil conhece as consequências da desinformação como instrumento de governo. Na pandemia de Covid-19, evidências científicas foram contestadas e tratamentos sem respaldo promovidos. A CPI da Pandemia apontou atraso na aquisição de imunizantes e promoção do chamado tratamento precoce.
Suas conclusões não equivalem a sentenças judiciais, mas deixaram uma advertência: quando autoridades desacreditam a ciência, as consequências chegam aos hospitais, às famílias e aos cemitérios.
A inteligência artificial e as plataformas digitais elevaram o problema a outra escala. Algoritmos selecionam o que milhões veem e redes coordenadas podem fazer parecer espontâneo o que foi fabricado. Uma mentira já não precisa convencer toda a sociedade: basta encontrar quem a multiplique.
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Anomalias digitais precisam ser investigadas com rigor, sem responsabilizar candidaturas sem provas. Uma popularidade fabricada pode produzir notícias e converter aparência em adesão verdadeira. Tecnologia não pode fabricar vontade popular e apresentá-la como espontânea.
O Brasil não pode se transformar em um grande Rio de Janeiro
O Brasil não pode repetir, em escala nacional, a trágica experiência pela qual passou e ainda passa o Rio de Janeiro. Desigualdade, corrupção, violência e abandono de territórios permitiram a expansão de organizações criminosas que controlam atividades econômicas, impõem regras e disputam autoridade com o Estado. Facções e milícias têm origens distintas, mas ambas revelam o que acontece quando grupos armados acumulam poder sobre a vida cotidiana e as instituições.
O problema ultrapassa a criminalidade. Não existe cidadania plena onde o Estado não garante liberdade, segurança e direitos, nem liberdade política completa quando pessoas calculam o que podem dizer, por onde circular e as consequências de suas escolhas. Uma eleição pode ser formalmente livre e ocorrer numa sociedade em que parte dos cidadãos vive submetida a poderes que jamais escolheu e que não pode destituir.
Os assassinatos de Marielle Franco e Anderson Gomes, em 2018, tornaram-se a expressão mais conhecida dessa tragédia. Em fevereiro de 2026, o STF condenou Domingos e Chiquinho Brazão como mandantes do ataque.
Mas há milhares de vítimas anônimas: moradores assassinados, famílias expulsas, comerciantes extorquidos, jovens mortos. A barbárie possui vítimas conhecidas que simbolizam sua violência, mas sua verdadeira dimensão aparece na multidão anônima que aprende a conviver diariamente com o medo.
Recuperar esses territórios exige inteligência, investigação financeira, combate à corrupção e responsabilização de agentes públicos. Exige também um Estado presente quando não há operação policial: na escola, na saúde, no transporte, na moradia e no trabalho.
Segurança e direitos não são conceitos contraditórios entre si. O Rio mostra o custo de deixar a degradação consolidar estruturas paralelas de poder, muitas vezes apresentadas demagogicamente como solução para problemas que o próprio Estado não foi capaz de enfrentar.
Quem decide os destinos do Brasil?
Autoritarismo, crime organizado e manipulação informacional são problemas diferentes, mas conduzem à mesma pergunta: quem exerce poder real sobre a sociedade?
Soberania é a capacidade coletiva de decidir o próprio destino. Para exercê-la, um país precisa de instituições, ciência, tecnologia e capacidade produtiva para relacionar-se com o mundo sem ser reduzido a fornecedor subordinado de recursos e trabalho barato.
Em julho de 2025, Donald Trump anunciou tarifa de 50% sobre produtos brasileiros e vinculou a medida, entre outros argumentos, ao processo envolvendo Jair Bolsonaro e a decisões do STF. A configuração tarifária mudou depois, mas ficou a vinculação explícita entre pressão econômica e a vida política brasileira.
Depois do tarifaço, bandeiras norte-americanas apareceram em manifestações bolsonaristas acompanhadas de demonstrações de apoio a Trump. Naquele contexto, a bandeira também fazia parte da mensagem: setores que reivindicavam patriotismo brasileiro exibiam o símbolo de uma potência estrangeira justamente quando seu governo exercia pressão econômica sobre o Brasil em defesa de interesses ligados à disputa política interna do país.
Há algo de profundamente contraditório — e, sim, vergonhoso — em reivindicar patriotismo enquanto se deposita numa potência estrangeira a esperança de impor ao próprio país, por pressão externa, resultados políticos que deveriam ser decididos pelos brasileiros.
Não existe patriotismo coerente quando a soberania vale apenas se produzir o resultado político que desejamos. O Brasil precisa relacionar-se com todos, cooperar com todos e subordinar-se a nenhum.
Nossas divergências devem ser resolvidas segundo nossa Constituição, nossas leis e nossas instituições.
Defender a democracia não significa suspender a crítica aos governos. Juros, política fiscal, desigualdade, segurança e direitos sociais precisam permanecer submetidos ao debate público. Criticar um governo democrático é parte da democracia; perder a capacidade de distinguir seus limites daqueles que pretendem restringir ou destruir o próprio espaço democrático é um erro de outra natureza.
O mesmo vale para as instituições. O STF pode e deve ser criticado, como qualquer instituição da República, mas não pode ser desestabilizado justamente quando sua independência é decisiva para assegurar a Constituição, o Estado de Direito e as regras da disputa democrática.
É preciso perceber que estamos diante de estratégias que exploram deliberadamente a desinformação, o medo e a desconfiança para desorientar a população, desacreditar instituições e corroer as bases de nossa ainda frágil democracia.
Podemos pressionar e criticar governos e substituí-los pelo voto; podemos discordar das instituições e exigir seu aperfeiçoamento. O que não podemos é destruir o terreno democrático no qual essas divergências podem existir. Essa defesa se torna ainda mais decisiva quando a erosão da democracia se associa à perda de soberania e ao recrudescimento de uma herança colonial fundada na subordinação externa, na superexploração do trabalho e na exploração predatória da natureza.
Também precisamos abandonar a fantasia do “quanto pior, melhor”.
O sofrimento não produz automaticamente consciência. A escravidão deveria bastar para nos ensinar isso: por muito tempo, gerações viveram sob uma ordem indigna que transformava seres humanos em propriedade. Houve resistências permanentes, mas foram necessários mais de três séculos para que a escravidão fosse abolida. E, mesmo então, a liberdade chegou sem terra, reparação ou condições que assegurassem à população liberta uma integração social em bases de igualdade.
Não sabemos quanto tempo dura uma barbárie nem quantas gerações pagarão por ela. A história não promete que depois da destruição virá uma sociedade melhor — nem mesmo que o fim de uma barbárie elimine a herança que ela deixa.
A democracia brasileira está longe daquela que queremos. Não é plenamente democrática uma sociedade marcada por desigualdade extrema, racismo, violência e territórios submetidos ao crime.
Precisamos defender a democracia precisamente para transformá-la: ampliar direitos, distribuir poder e recuperar a capacidade do Estado de promover desenvolvimento. Democracia, soberania e justiça social pertencem à mesma disputa.
O Brasil não pode esperar
O maior perigo talvez seja esperar um aviso inequívoco de que a democracia está terminando. Uma mentira se normaliza. Uma violência é aceita porque atingiu um adversário. Uma eleição é contestada sem provas. Uma organização criminosa assume mais um território.
Uma pressão estrangeira é celebrada porque prejudica quem está do outro lado. Exceções viram precedentes e o intolerável passa a fazer parte da paisagem. Podemos descobrir tarde demais que continuamos realizando eleições sobre um terreno profundamente alterado — e que, enquanto aceitávamos cada retrocesso como episódico ou suportável, comprometíamos o presente e cavávamos a sepultura do nosso próprio futuro.
Não queremos uma democracia que apenas sobreviva, mas um país no qual nenhuma organização criminosa governe territórios, nenhuma força política destrua as regras porque perdeu uma eleição e nenhuma potência estrangeira decida pelo povo brasileiro. Não queremos a paz dos cemitérios nem a estabilidade do medo, mas paz fundada em direitos, soberania e justiça social. E nenhuma democracia se sustenta apenas por suas leis se a sociedade deixa de defendê-la.
É por isso que o próximo 7 de Setembro pode ultrapassar a celebração ritual da Independência. Mais de dois séculos depois, permanece a pergunta: quem decide os destinos do Brasil?
Independência, hoje, é assegurar ao povo o direito de responder e recusar a submissão ao autoritarismo, ao poder das armas, ao crime organizado ou a pressões externas.
Que o 7 de Setembro seja o ponto de partida de uma nova etapa de mobilização nacional em defesa da democracia, da justiça social e da soberania. Uma mobilização ampla, pacífica e plural, capaz de reunir quem diverge sobre governos e projetos, mas reconhece a necessidade de preservar o espaço democrático. Que as ruas não se esvaziem naquele dia nem a defesa da democracia termine nas eleições.
A exemplo do 2 de Julho na Bahia, que mantém viva a memória da participação popular nas lutas pela Independência, é preciso devolver à celebração da soberania sua dimensão popular: a Independência pertence ao povo e se realiza quando o povo participa da construção de seu próprio destino.
Como disse o poeta, a praça é do povo. E as ruas pertencem à democracia: não podem ser abandonadas ao autoritarismo, ao medo ou à violência. Ocupá-las pacificamente é recuperar o sentido da Independência: um povo disposto a decidir seu próprio destino.
O Brasil conhece o preço da ditadura, da escravidão, da desigualdade e da violência como método de poder. Conhece também sua capacidade de resistir e conquistar direitos. É essa capacidade que precisa ser mobilizada para construir o que ainda não existe.
Defender a democracia é defender o direito de continuar transformando o Brasil. Defender a soberania é assegurar que essa transformação seja decidida por seu povo. Defender a verdade é impedir que a mentira se transforme novamente em instrumento de poder. Defender a paz é recusar a política do medo e das armas. Defender a justiça é não aceitar como destino a desigualdade, a violência e a superexploração.
É essa disputa que está diante de nós. E é agora que ela precisa ser enfrentada.
*Carlos Fidelis Ponte é presidente do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde, membro do Conselho Nacional de Saúde e pesquisador da Fiocruz.
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.




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