Reynaldo Aragon: A estratégia oculta dos EUA para usar o STF e encurralar o Brasil
Tempo de leitura: 11 min
A guerra híbrida não precisa controlar o Supremo: basta penetrar suas fraturas, cultivar pontos de influência e conectar disputas internas a redes políticas, jurídicas e econômicas capazes de transformar uma crise brasileira em poder de pressão sobre o país
Por Reynaldo Aragon*, no Código Aberto
Por trás do confronto que atravessa o STF existe uma arquitetura muito mais ampla do que a disputa entre ministros. Redes transnacionais de influência, formação de elites, lobby político, operadores jurídicos, plataformas digitais, processos em tribunais americanos, pesquisas eleitorais, sanções e instrumentos comerciais começam a tocar os mesmos pontos de vulnerabilidade do Estado brasileiro.
Este artigo reconstrói essas engrenagens, separa evidência de hipótese e mostra onde pode estar o próximo movimento: não necessariamente controlar uma instituição brasileira, mas criar incentivos, proteção e custos externos capazes de alterar o comportamento de quem exerce poder dentro dela.
Às vésperas da eleição de 2026, compreender esse mecanismo deixou de ser uma questão sobre o STF. Tornou-se uma questão de soberania.
A guerra começa onde parece haver apenas uma crise

O Supremo enfrenta algo maior do que uma crise de imagem. As mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro, os questionamentos que atingem Alexandre de Moraes e Paulo Gonet, a ofensiva institucional de André Mendonça, as acusações dirigidas contra o próprio Mendonça e a entrada de Edson Fachin como árbitro expuseram uma fratura rara: a estrutura encarregada de controlar o Estado passou a disputar, internamente, quem controla quem.
O erro seria reduzir esse quadro a uma sucessão de escândalos ou rivalidades pessoais. Uma crise institucional se torna estratégica quando passa a produzir vulnerabilidades que outros atores podem converter em poder.
É nesse ponto que a guerra híbrida começa a operar. Ela explora conflitos reais, disputas de competência, interesses, redes de influência, processos, dinheiro, informação e perda de confiança. Quanto mais profunda a fratura interna, maior o valor que ela pode adquirir para quem tem capacidade de reorganizá-la de fora.
A estratégia aqui chamada de “oculta” não pressupõe a existência de um plano secreto comprovado, mas uma arquitetura de influência e coerção cuja força está justamente em operar por conexões, incentivos e instrumentos que raramente aparecem reunidos como parte de um mesmo sistema.
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A pergunta decisiva, portanto, não é apenas quem agiu corretamente dentro do STF. É quem ganha capacidade de ação quando essas instituições entram em colisão. Quem consegue transformar documentos produzidos no Brasil em argumento para pressão diplomática, sanção, tarifa, processo judicial ou disputa eleitoral? O problema deixa de ser apenas a crise. Passa a ser quem consegue convertê-la em alavanca sobre as decisões do Estado brasileiro.
Capturar sem controlar: como funciona a guerra híbrida por dentro

A forma mais sofisticada de influência estrangeira não depende de agentes pagos nem de ordens secretas. Ela opera sobre redes, acessos, afinidades, incentivos e proteção. O objetivo não é necessariamente controlar quem decide, mas alterar o ambiente em que a decisão é tomada.
É por isso que a captura de elites aparece entre os instrumentos estudados em estratégias de interferência. Formação de quadros, organizações estrangeiras, think tanks, fundações, redes religiosas, associações profissionais e espaços jurídicos podem funcionar como canais legítimos de relacionamento e, em determinadas condições, como vetores de influência.
O problema começa quando opacidade, dependência, conflito de interesse ou expectativa de proteção passam a afetar a autonomia de quem exerce poder público.
A distinção é fundamental: relação não é influência; influência não é cooptação; cooptação não é comando. Entre esses pontos existe um continuum de acesso, legitimação, incentivo, proteção e dependência. Coordenação só pode ser afirmada quando houver evidência concreta de instruções, financiamento, mensagens ou ação sincronizada.
Um ator pode agir por convicção própria e ainda assim produzir resultados úteis a interesses externos. Se encontra fora do país redes capazes de amplificar sua posição ou elevar o custo de seus adversários, a correlação de forças interna pode mudar sem qualquer ordem direta.
A guerra híbrida não precisa produzir obediência. Basta produzir funcionalidade.
O ponto de acoplamento: por que André Mendonça importa

André Mendonça interessa à análise estratégica menos como indivíduo do que como posição dentro de uma rede. Sua trajetória combina autoridade institucional, identidade religiosa pública e circulação documentada por ambientes jurídicos conservadores com conexões internacionais.
Uma dessas conexões passa pela ANAJURE. A entidade apoiou publicamente a indicação de Mendonça ao STF, e pesquisa acadêmica documenta sua parceria institucional com a Alliance Defending Freedom, organização jurídica religiosa sediada nos Estados Unidos e com atuação internacional.
Por meio dessa parceria, foram custeadas bolsas para juristas brasileiros participarem do Blackstone Legal Fellowship nos EUA, experiência que impulsionou a criação da Academia ANAJURE. Em 2020, a programação da academia incluiu André Mendonça e Jeffery Ventrella, então diretor do Blackstone. O conjunto não prova submissão ou coordenação. Documenta, porém, um circuito transnacional de formação jurídica, relacionamento e circulação de ideias.
Há também interlocuções documentadas com organizações de atuação pró-Israel. Em 2024, Mendonça participou de uma viagem privada de magistrados custeada pela Confederação Israelita do Brasil e pela StandWithUs Brasil. O episódio mostra circulação e acesso a organizações com atuação pública e capacidade de articulação internacional.
A relevância disso cresce quando se observa a crise atual. Mendonça ocupa posição decisiva em desdobramentos do caso Master sob sua relatoria, enfrentou Moraes dentro do STF e passou ele próprio a ser questionado por procedimentos adotados na investigação. Edson Fachin determinou esclarecimentos formais de Mendonça, Moraes, Paulo Gonet e Andrei Rodrigues. O quadro continua juridicamente aberto.
A relevância estratégica está justamente nessa posição. Não há evidência pública de comando estrangeiro, cooptação ou coordenação envolvendo Mendonça. O que existe é algo que merece atenção por si só: um ministro situado no centro de uma fratura institucional, inserido em redes transnacionais e capaz de produzir decisões cujos efeitos ultrapassam imediatamente as fronteiras do STF.
É essa capacidade de conectar sistemas distintos, sem que seja necessário demonstrar comando entre eles, que transforma Mendonça em um possível ponto de acoplamento da crise.
A ponte: como uma disputa brasileira chega a Washington

Uma crise interna só ganha valor estratégico para uma potência estrangeira quando existe quem consiga transportá-la entre sistemas. É essa função que os intermediários cumprem. Eles transformam um fato produzido no Brasil em linguagem política utilizável no exterior e o conectam a redes capazes de pressionar o Estado brasileiro.
Eduardo Bolsonaro ocupa hoje uma posição objetiva nessa ponte. Atuando a partir dos Estados Unidos, apresentou André Mendonça como contraponto institucional a Alexandre de Moraes e confirmou que ele e seus aliados pressionaram o governo americano pela retomada das sanções Magnitsky contra Moraes. Também afirmou que oferecem sua avaliação quando são consultados por interlocutores em Washington.
O dado central é simples: enquanto uma disputa ocorre dentro do STF, um ator brasileiro instalado nos EUA trabalha para conferir legitimidade a um dos polos e aumentar o custo externo do outro.
O caso Master acrescenta uma conexão material. A Entre Investimentos, de Antônio Carlos Freixo Júnior, o Mineiro, fez repasses a pedido de Daniel Vorcaro ao Havengate Development Fund, sediado no Texas e administrado por Paulo Calixto, advogado ligado a Eduardo Bolsonaro.
O fundo foi utilizado no financiamento de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro. Freixo firmou acordo de colaboração premiada com a PGR, hoje sob análise de André Mendonça no STF. A Polícia Federal investiga a destinação dos recursos enviados aos Estados Unidos, inclusive a hipótese de que parte deles tenha servido a finalidades diferentes do financiamento do filme, o que é negado pelos envolvidos. O ponto estratégico é que uma colaboração submetida à análise de Mendonça alcança uma estrutura financeira nos Estados Unidos ligada ao entorno de um dos principais articuladores da pressão americana contra Moraes.
É assim que a crise muda de escala. Informação produzida no Brasil atravessa políticos, advogados, fundos, plataformas e redes de influência, chega a Washington com novo enquadramento e pode retornar vinculada a instrumentos de coerção. O intermediário é a peça que transforma conflito doméstico em capacidade externa de pressão.
A máquina: quando Washington transforma narrativa em coerção

A ponte só importa porque existe uma máquina estatal capaz de agir do outro lado. Washington já dispõe de instrumentos jurídicos, econômicos, financeiros e diplomáticos capazes de transformar disputas brasileiras em custo material.
A Section 301 mostrou essa capacidade. Em junho de 2026, o USTR considerou acionáveis práticas brasileiras envolvendo comércio digital e serviços de pagamento, enforcement anticorrupção, propriedade intelectual e outros setores.
Entre os fundamentos, citou ordens de tribunais brasileiros contra plataformas americanas. Em julho, o procedimento resultou em tarifa adicional de 25% sobre determinados produtos do Brasil. Uma controvérsia jurídica e digital atravessou a burocracia americana e reapareceu como coerção econômica.
No campo financeiro, o precedente também está documentado. A OFAC sancionou Alexandre de Moraes sob a Global Magnitsky em 30 de julho de 2025 e, em setembro, incluiu sua esposa, Viviane Barci de Moraes, e o Lex Instituto de Estudos Jurídicos. As designações foram retiradas em 12 de dezembro daquele ano. O episódio demonstrou que o sistema financeiro americano pode ser acionado diretamente contra integrantes da cúpula institucional brasileira e estruturas associadas a eles.
O vetor jurídico completa a arquitetura. Rumble e Trump Media levaram aos tribunais da Flórida uma disputa originada em decisões de Moraes. Em junho de 2026, o Brasil interveio formalmente no processo alegando ser a parte real interessada e sustentando que as ordens questionadas eram atos soberanos do Estado brasileiro. A Justiça americana admitiu a intervenção.
Há ainda uma estrutura explícita de acompanhamento político. A Ordem Executiva 14.323, de julho de 2025, determina que o secretário de Estado monitore a situação brasileira e, em consulta com Tesouro, Comércio, Homeland Security, USTR e assessores de segurança nacional e política econômica da Presidência, recomende ações adicionais quando considerar necessário.
A engrenagem decisiva é esta: mudar o domínio do conflito. Direito vira comércio. Informação vira sanção. Disputa institucional vira pressão diplomática. Quando isso acontece, a crise já não pertence apenas ao país em que nasceu. Passa a operar dentro de uma relação internacional de força.
O laboratório eleitoral: medir antes de agir

A pressão externa ganha outra dimensão quando seu efeito político passa a ser medido dentro do país alvo. Em agosto de 2026, aliados de Donald Trump encomendaram à McLaughlin & Associates uma pesquisa nacional no Brasil que avaliou, entre outros pontos, como possíveis sanções americanas contra autoridades brasileiras poderiam repercutir sobre o voto. Segundo a Folha de S.Paulo, o levantamento foi produzido para fornecer informações a interlocutores na Casa Branca e no Departamento de Estado.
A pesquisa ouviu 1.991 eleitores e perguntou diretamente se uma nova sanção financeira dos Estados Unidos contra Alexandre de Moraes alteraria sua decisão eleitoral. Para 53,3%, não alteraria; 24,7% afirmaram que ficariam mais propensos a votar em Flávio Bolsonaro e 18,2% em Lula. Isso não demonstra que o governo americano tenha encomendado a pesquisa nem que pretenda utilizar sanções para interferir na eleição. Demonstra que atores ligados ao trumpismo estão mensurando o efeito eleitoral, no Brasil, de um instrumento de coerção sob controle do Estado americano.
Esse tipo de mensuração reduz incerteza. Permite observar reação, identificar públicos sensíveis e calcular custos antes de ampliar uma pressão. Em estratégia, a sequência é conhecida: testar, medir, recalibrar. Numa eleição equilibrada, não é necessário alterar o comportamento de milhões de pessoas. Pequenas mudanças de percepção, confiança ou mobilização podem adquirir peso político desproporcional.
Por isso, o aspecto mais revelador da pesquisa não está nos percentuais. Está na pergunta formulada. Quando atores próximos à potência que dispõe da sanção começam a medir como essa sanção afeta o voto em outro país, política externa e ambiente eleitoral passam a ocupar o mesmo campo de cálculo estratégico.
O próximo movimento

A questão agora é identificar qual combinação de instrumentos pode produzir maior efeito político com menor custo para Washington.
O primeiro movimento provável é narrativo. A ofensiva contra Moraes esteve concentrada em censura e perseguição política. O caso Master permite ampliar o enquadramento para integridade institucional, conflito de interesse e abuso de poder, alcançando públicos que não aderem ao discurso bolsonarista, mas podem reagir à percepção de deterioração das instituições.
O segundo movimento tende a ser jurídico. Rumble e Trump Media já questionam decisões de Moraes nos Estados Unidos, enquanto a AGU sustenta que elas constituem atos soberanos brasileiros. Fatos novos podem ser utilizados para tensionar essa fronteira e tentar caracterizar determinadas condutas como pessoais ou praticadas além da autoridade do cargo.
O terceiro movimento pode ser seletivo. Sanções, vistos, audiências, processos e legitimação política permitem elevar o custo de determinados atores e reduzir o de outros, alterando a correlação de forças dentro da própria crise.
Por fim, a pressão tende a ser calibrada pela reação brasileira. O sinal decisivo será observar se os mesmos fatos passam a aparecer simultaneamente no discurso político americano, em procedimentos jurídicos ou administrativos e na disputa eleitoral brasileira.
Quando isso acontecer, a possível reação de Washington já terá entrado no cálculo interno das autoridades brasileiras antes mesmo de qualquer nova medida ser executada.
Como quebrar o circuito sem blindar ninguém

A pior resposta brasileira seria confundir soberania com proteção corporativa. Se existem suspeitas contra Moraes, Mendonça, Gonet, integrantes da Polícia Federal ou qualquer outro agente público, elas precisam ser investigadas com rapidez, transparência, contraditório e independência. Um Estado que esconde suas próprias fraturas entrega ao exterior o argumento de que precisa ser tutelado.
A primeira defesa é reduzir a opacidade. Relações financeiras, conflitos de interesse, viagens custeadas por organizações privadas, contatos com entidades estrangeiras e vínculos de familiares de autoridades precisam estar submetidos a regras claras de transparência. Isso deve valer para todos os campos políticos. Soberania seletiva é apenas facção.
A segunda defesa é abandonar a obsessão exclusiva pela desinformação e mapear redes de influência, intermediários, fluxos financeiros, estruturas jurídicas e canais de transmissão. Guerra híbrida não opera apenas por conteúdo falso. Opera também por fatos verdadeiros selecionados estrategicamente, por lobby, litígios, organizações transnacionais e capacidade de fazer informação chegar ao lugar onde ela pode ser convertida em poder.
A terceira defesa é antecipar a coerção. Itamaraty, AGU, órgãos econômicos e estruturas de inteligência precisam trabalhar com cenários prévios para sanções, tarifas, processos e medidas extraterritoriais. A contestação brasileira à Section 301 na OMC mostra uma direção possível: deslocar a pressão unilateral para arenas jurídicas e multilaterais que aumentem o custo da ação externa.
A quarta defesa é eleitoral. Proteger a eleição não pode significar proteger governos nem criminalizar crítica legítima. A resistência mais sólida é uma sociedade capaz de conhecer rapidamente os fatos, identificar quem tenta instrumentalizá-los e decidir sem tutela de Brasília nem de Washington.
No fundo, a defesa brasileira exige reduzir a distância entre soberania formal e soberania real. Quanto maior a dependência de plataformas, tribunais, sistemas financeiros, mercados e governos estrangeiros, maior o número de alavancas disponíveis para pressionar o país.
A melhor defesa contra a exploração externa de uma crise brasileira não é negar a crise. É investigá-la de forma tão legítima e soberana que nenhum outro Estado consiga reivindicar para si o direito de defini-la, julgá-la ou utilizá-la para condicionar o futuro do Brasil.
O verdadeiro alvo

É tentador reduzir tudo a personagens: Moraes contra Mendonça, Bolsonaro contra Lula, Trump contra o governo brasileiro. Essa leitura transforma uma disputa estrutural numa briga entre nomes.
O verdadeiro alvo é outro: a capacidade soberana de decisão.
Se houver crimes, abusos ou conflitos de interesse, que sejam investigados e punidos no Brasil. Mas quando fraturas internas passam a ser convertidas em proteção, punição ou incentivo por uma potência estrangeira, o problema deixa de ser apenas institucional e se torna estratégico. A questão já não é quem controla o Supremo. É quem consegue alterar seu comportamento sem precisar controlá-lo.
Na guerra híbrida, o cerco se completa quando o adversário já não precisa entrar no Estado. Basta que o próprio Estado produza, por dentro, as alavancas que serão acionadas de fora.
*Reynaldo Aragon é jornalista especializado em geopolítica da informação e da tecnologia, com foco nas relações entre tecnologia, cognição e comportamento. Editor do codigoaberto.net . É pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação (NEECCC – INCT DSI) e integra o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberania Informacional (INCT DSI), onde investiga os impactos da tecnopolítica sobre os processos cognitivos e as dinâmicas sociais no Sul Global.
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.
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