Marcelo Zero: O falso centro e a despolitização como linhas auxiliares do bolsonarismo – o Rivotril político do doutor Cury
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Por Marcelo Zero*
Confesso que não li os livros de autoajuda do Doutor Cury. Sempre tive a opinião de que livros de autoajuda só ajudam realmente seus próprios autores.
A julgar pelo patrimônio declarado do candidato (R$ 242.281.162,52, segundo o TSE), pelo número de “obras literárias” vendidas (cerca de 40 milhões) e pela multidão de seguidores que possui (ao redor de 8 milhões), esse foi, sem dúvida, o caso do Doutor Cury. Não ajudou as massas, mas se autoajudou em massa.
Ademais, antes de ler qualquer coisa, sempre penso na célebre frase cunhada por Arthur Fletcher, em 1972, para o United Negro College Fund (UNCF), como forma de auxiliar uma campanha para amealhar fundos para universidades frequentadas por jovens afrodescendentes: “A mind is a terrible thing to waste” (“uma mente é algo terrível de se desperdiçar”, que me perdoe Arthur Fletcher pela tradução).
Por essa razão, evito a subliteratura rasa e maçante típica dos livros de autoajuda. Não ajuda e faz doer os neurônios. Depois, custa muito para tentar “des-ler”. Fica impregnado, como refrão de música pop medíocre.
E pior do que a literatura de autoajuda é a literatura de autoajuda que assume ar de cientificidade. Pelo que soube, o Doutor Cury se autointitula o desenvolvedor de duas “grandes teorias” da neuropsiquiatria moderna: a “Teoria da Inteligência Multifocal” e a “Teoria da Síndrome do Pensamento Acelerado”.
Curiosamente, ninguém na comunidade científica reconhece a validade dessas “teorias” desenvolvidas sem quaisquer evidências empíricas e sem nenhum estudo minimamente rigoroso. Pouco importa, faz muito sucesso entre leigos necessitados de consolo.
Reconheço, por outro lado, que, por dever de ofício, li o programa de governo do “Doutor”. Não com muito vagar, pois trata-se, na realidade, de um amontoado de platitudes requentadas. Um programa de autoajuda para o eleitor brasileiro.
Detive-me, mais atentamente, no Prefácio e na Introdução, assinados pelo “Doutor” e na parte do programa que se refere à política externa. Me bastou.
O Prefácio intitula-se Cultura da paz em uma sociedade polarizada e adoecida e a Introdução tem como título O Brasil não está em dois barcos.
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Lá pelas tantas, no Prefácio, lê-se o seguinte:
Por que permitir que o radicalismo destrua a capacidade de pensar? Não proponho neutralismo. Neutralidade absoluta diante das dores humanas pode ser covardia intelectual. Também não proponho um comportamento morno. O morno frequentemente se omite diante das injustiças. O que proponho é algo mais complexo e mais difícil: maturidade emocional e inteligência política. Meu coração abraça os valores sociais mais nobres da esquerda. Minha mente valoriza os pilares econômicos e institucionais mais sólidos da direita.
Mais à frente, na Introdução, escreve-se o seguinte:
Criou-se uma das maiores ilusões políticas da história moderna: acreditar que existem dois barcos navegando em oceanos separados, um chamado direita e outro chamado esquerda. Essa divisão emocional contaminou famílias, amizades, escolas, universidades e até igrejas. Pessoas passaram a acreditar que o adversário ideológico deve ser destruído e não compreendido. O debate foi substituído pelo ataque. A reflexão foi substituída pelo cancelamento. O diálogo perdeu espaço para os gritos. As redes sociais amplificaram impulsos agressivos. A inteligência coletiva começou a adoecer silenciosamente. E milhões passaram a viver aprisionados em bolhas emocionais.
Há uma passagem bastante reveladora, na Introdução, na qual se alega o que se segue:
Martin Luther King iria às ruas de Brasília, conduzindo líderes que hoje se digladiam a lutar pelo mais nobre dos sonhos: a família brasileira, mitigando a guerra de egos e transformando as divergências na beleza da democracia. E eu, Augusto Cury, inspirado por todas essas teses, proporia um pacto nacional para mudar a mente do confronto para a cultura da paz. Viveríamos a tese de que, na essência, somos iguais e trabalharíamos em conjunto — direita, centro e esquerda —, enquanto, nas diferenças, aprenderíamos a nos respeitar.
Como se vê, as reflexões do Doutor Cury, que têm a empáfia de querer nos ensinar a pensar, mergulhando-nos no “oceano” da “completude da mente humana”, e que se compara a Martin Luther King, têm uma profundidade oceânica que caberia nas areias tórridas do Deserto da Namíbia, o mais antigo do mundo.
Na realidade, o Doutor Cury, ao contrário do Doutor King, é o que Bertold Brecht chamava de “analfabeto político”.
O Doutor Cury vê o mundo da democracia como um mundo que deve evitar as discordâncias e conflitos e buscar a unanimidade que uniria harmonicamente a esquerda, o centro e a direita, com base nos valores cristãos da “família brasileira”.
Nossa! Que densidade de pensamento!
Mas, na realidade, as democracias nasceram e se desenvolveram arbitrando conflitos e os diferentes e diversos interesses que há em sociedades capitalistas, principalmente em sociedades capitalistas muito desiguais, como a nossa.
Nada contra, evidentemente, quanto a termos uma cultura de paz e de negociação, sem ódio e violência. Mas as divergências e os conflitos de interesses são inerentes a uma verdadeira democracia. É exatamente por isso que são realizadas eleições. Para decidir quais os interesses e as propostas que haverá de prevalecer no próximo governo, respeitando-se, é claro, os interesses minoritários.
Muito embora o Doutor Cury afirme que a “beleza da democracia está nas divergências”, ele propõe, no fundo, o caminho dissimuladamente autoritário das unanimidades anódinas e despolitizadas que suprimem as discordâncias e o debate de substância sobre propostas concretas, fatores que devem prevalecer numa democracia verdadeira.
Se as sociedades tendessem à unanimidade e à conciliação automática dos interesses, os pleitos democráticos seriam desnecessários.
Para o Doutor Cury, entretanto, as complexas questões políticas, econômicas e sociais que estão envolvidas no debate democrático são muito simples e podem ser resolvidas com a ajuda da psiquiatria da autoajuda.
A esquerda, segundo ele, tem algumas boas intenções (“combater a pobreza e proteger os vulneráveis”) e representa o “coração”, a emoção. Enfim, embora bem-intencionada, seria uma tanto burrinha. Já a direita, segundo seu profundo pensamento político, representa a inteligência, a razão.
O que ele propõe é unir esses dois polos neuronais numa síntese harmônica.
Entretanto, uma leitura que ultrapasse a grosseira superficialidade das suas, assim digamos, “reflexões”, revela preferências ideológicas bastante nítidas e definidas.
A direita, segundo ele, tem o valor importante da “responsabilidade fiscal”.
Segundo ele, gastar indefinidamente sem equilíbrio econômico produz inflação, endividamento e colapso financeiro. E quando a economia quebra, os pobres sofrem primeiro. Muitos governos prometeram benefícios imediatos ignorando sustentabilidade financeira. O resultado frequentemente foi desemprego, desvalorização da moeda e aumento da pobreza. Sonhos sociais sem planejamento econômico podem transformar esperança em tragédia.
A direita também valoriza segurança jurídica e estabilidade institucional, Investidores precisam confiar nas regras do jogo. Empreendedores precisam de previsibilidade. Sem segurança institucional, empresas reduzem investimentos. A insegurança afasta o crescimento. Países fortes economicamente normalmente possuem instituições relativamente estáveis. O respeito às leis e contratos ajuda sociedades a prosperarem.
Outro ponto relevante, segundo Cury, é o reconhecimento da importância da família e das tradições sociais. A família saudável é uma das maiores escolas emocionais da humanidade. Crianças emocionalmente protegidas possuem maiores chances de desenvolver estabilidade psíquica. Sociedades que desprezam completamente seus valores culturais frequentemente entram em crise de identidade coletiva.
No seu programa, há, assim, uma clara opção pelo neoliberalismo e por um profundo conservadorismo cristão, tão caro à extrema direita.
Por isso, seu programa econômico é um amontoado de platitudes conservadoras e neoliberais, como simplificação tributária e redução da carga tributária, controle rigoroso dos gastos (“não se pode gastar mais do que se arrecada”), reforma administrativa com corte de cargos, redução de ministérios (como se isso reduzisse gastos), combate à corrupção), dividir o BNDES para beneficiar os microempreendedores (como se o BNDES já não fizesse isso), redução da dívida etc.
Não obstante, o Doutor Cury não esclarece em nenhum momento como fará tudo isso sem prejudicar os mais vulneráveis, como promete.
Observe-se que no programa e no próximo orçamento proposto pelo governo Lula isso está esclarecido com medidas e propostas racionais e factíveis, não somente com “boas intenções”.
No campo da política externa, predominam também as platitudes e uma monumental ignorância.
Nesse campo, o Doutor Cury tem ideias “geniais” e “muito inovadoras”, tais como:
• Ampliar significativamente a participação do Brasil no comércio internacional;
• Elevar o volume das exportações brasileiras para um novo patamar;
• Reduzir a dependência de commodities, aumentando a participação de produtos industrializados e de alto valor agregado;
• Gerar milhões de empregos qualificados;
• Integrar o Brasil às cadeias globais de produção;
• Transformar inovação e tecnologia em novos motores de crescimento econômico.
Meu Deus, como ninguém nunca pensou nisso!
Ora, o que o Doutor Cury propõe é o que o governo Lula vem fazendo há muito tempo e pretende intensificar significativamente na próxima gestão, com medidas concretas e bem estudadas, não somente com boas intenções, repetimos.
Há, contudo, verdadeiras ofensas ao Itamaraty no programa do Doutor Cury. Ofensas inaceitáveis, resultado de ignorância abissal sobre como funciona nossa competente diplomacia.
Assim, há uma parte do programa do Doutor Cury toda dedicada à implantação do que ele chama de “embaixadas empreendedoras”.
Segundo o “Doutor”, o Brasil precisa inaugurar uma nova política externa econômica. Nossas embaixadas não podem mais ser apenas centros protocolares, burocráticos ou diplomáticos no sentido clássico. Devem tornar-se plataformas inteligentes de promoção econômica, comercial, turística, cultural e institucional do país. Devem aprender a vender o Brasil com competência, estratégia, ousadia e visão de futuro.
Ora, nossas embaixadas e consulados têm, há muito, gente especializada e competente em “vender o Brasil”, abrir novos mercados e estimular nossas exportações. Alguém tem de avisar o Doutor Cury que a diplomacia econômica existe há décadas. Ou ele acha realmente que nossas embaixadas servem apenas para promover jantares protocolares e tocar meros serviços burocráticos?
Lembro-me, a esse respeito, do meu finado pai, encarregado de negócios em Barbados, na década de 1980. Percorria toda a ilha numa Brasília para convencer importadores e comerciantes barbadianos a comprar carros e outros produtos do Brasil. Foi na gestão dele que foram inaugurados os voos da Cruzeiro do Sul entre Manaus e Bridgetown (capital de Barbados), com escala em Port of Spain, Trinidad e Tobago. Com essa linha aérea, muitos barbadianos passaram a visitar o Brasil e a fazer compras no nosso país. Lembro-me de um médico barbadiano que comprou um grande estoque de pneus no Brasil, porque os preços aqui eram bem mais baratos.
O MIDIC também tem a ampla rede da ApexBrasil, que há duas décadas promove a diversificação das exportações brasileiras. Apenas em 2025, 25 mil empresas receberam atendimento na ApexBrasil para exportar, das quais 51% eram micro e pequenas empresas.
O BNDES, por seu turno, que o candidato quer desmembrar por simples ignorância, voltou a financiar as estratégicas exportações de serviços de engenharia no exterior e lançou o Plano Brasil Soberano para proteger empresas nacionais afetadas por barreiras tarifárias e crises globais.
O Plano Brasil Soberano 3, recém-anunciado, voltado a apoiar empresas brasileiras afetadas pelas tarifas de importação dos Estados Unidos e por conflitos internacionais, contará com um novo orçamento de R$ 22,6 bilhões.
O BNDES vai destinar R$ 9,1 bilhões ao plano, ante os R$ 5 bilhões previstos inicialmente. Nesta terceira edição, o programa também terá uma linha específica para minerais críticos.
A impressão que fica é que o candidato não conhece nada do Brasil e dos seus programas. É o típico sujeito que acha que está inovando muito ao reinventar a roda.
Mas o pior no campo da política exterior do candidato é o que ele mesmo chama de “espinha dorsal de seu projeto”. O Doutor Cury promete criar “cinco grandes zonas francas de exportação”: a Zona Franca de Fortaleza, a Zona Franca da Bahia, a Zona Franca do Rio de Janeiro, a Zona Franca de São Paulo (sim!) e a Zona Franca do Rio Grande do Sul.
Nesse trecho, faltou-me o Rivotril. Não me senti consolado. Coração e mente se estraçalharam no piso de uma cloaca neuronal.
O sujeito quer industrializar o país e inovar nossa economia com zonas francas de exportação?
Ora, zonas francas de exportação, além de implicarem grande sacrifício fiscal, são o exato antídoto para não industrializar e não inovar nada.
O sujeito não deve saber, mas a Zona Franca de Manaus foi implantada, em 1967 (lá se vão quase 60 anos), com os objetivos defensáveis de promover o desenvolvimento econômico da Amazônia e integrar a região ao restante do Brasil. Na época, fazia sentido para aquela região, já que a Amazônia era bem mais pobre e muito isolada dos grandes centros econômicos do país. Era praticamente um país à parte.
Pelo mesmo motivo, frise-se, a Argentina criou uma Zona Franca em Ushuaia. Mas nem o celerado e anarquista econômico Milei propôs criar zonas francas de exportação em Buenos Aires ou Córdoba, que eu saiba.
Pode-se argumentar, é claro, em favor da Zona Franca de Manaus, que ela deu uma contribuição para a preservação da floresta, pois gerou um polo econômico na cidade de Manaus, evitando a exploração econômica predatória da floresta em pé.
Contudo, o que acontece normalmente com zonas francas de exportação é a criação de enclaves econômicos desvinculados das cadeias produtivas nacionais e regionais. Por isso, criar zonas francas de exportação em grandes centros como São Paulo, Rio de Janeiro etc., é uma loucura desindustrializante. Uma ideia totalmente fora de tempo e lugar.
Só inova em seu atraso mental, que julgávamos sepultado.
Que o eleitor não se engane. A candidatura Cury propõe um falso centro e uma despolitização destrutiva da nossa democracia. Ela tem um lado ideológico definido. O da direita que tem vergonha de se definir como direita e o da política “despolitizada”.
Uma dupla enganação. Engana, ao mesmo tempo, o coração e a mente.
*Marcelo Zero é sociólogo e especialista em Relações Internacionais
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo
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