Ângela Carrato: Para combater o terrorismo bolsonarista e outros monstros

Tempo de leitura: 7 min

Por Ângela Carrato*

Há várias interpretações possíveis para os objetivos dos atos de vandalismo praticados pelos terroristas bolsonaristas no domingo 8 de janeiro, que destruíram as sedes dos Três Poderes da República, em Brasília: Palácio do Planalto, Congresso Nacional e Supremo Tribunal Federal.

As mais mencionadas são:

1. Pretendiam espalhar o caos, abrindo espaço para os militares assumirem o poder, através da decretação da Lei da Garantia e da Ordem (GLO). A minuta de decreto encontrada na casa do ex-ministro da Justiça de Bolsonaro, Anderson Torres, aponta nesta direção.

2. Mesmo sabendo ser impossível derrubar Lula, obrigar o governo a deslocar-se para a direita, abrindo mão do compromisso de “colocar os pobres no orçamento e os ricos no imposto de renda”.

Ação que, na prática, equivaleria a inviabilizar o terceiro governo Lula.

Com os dados de que dispomos até agora, considero a segunda interpretação mais provável.

Mesmo o mais estúpido dos líderes bolsonaristas – e estupidez não lhes falta – sabe que se o golpe fosse vitorioso, teria vida curtíssima, uma vez que governantes de todas as partes do mundo condenaram o terrorismo e se colocaram ao lado de Lula.

O presidente brasileiro recebeu a solidariedade de lideranças tão diferentes quanto Joe Biden, Wladimir Putin, Xi Jinping, Emanuel Macron e Nicolás Maduro, para citar apenas alguns.

Toda a destruição provocada pelos terroristas bolsonaristas teve também como objetivo contrapor-se à belíssima cena protagonizada por Lula no dia de sua posse.

Ao subir a rampa do Palácio do Planalto acompanhado de representantes do povo brasileiro e ao receber a faixa presidencial das mãos de uma mulher negra, catadora de materiais recicláveis, ficava nítido que a esperança havia substituído o medo.

BOMBA SEMIÓTICA

Os bolsonaristas não suportam a esperança. Eles só têm espaço onde há medo. Daí a bomba semiótica, que foram as fotos e imagens da destruição, cujo objetivo era assustar as pessoas, deixá-las inertes, como se não houvesse mais nada a fazer. Inércia cujo objetivo principal era paralisar Lula e sua equipe.

No passado, o nazismo e o fascismo e, nos dias atuais, a extrema-direita, materializada no trumpismo e no bolsonarismo, só encontram terreno fértil para prosperar onde existe medo e onde impera a desinformação.

Não por acaso a figura mais citada antes e durante a campanha eleitoral de 2022 em muitas das ditas igrejas neopentecostais foi a do diabo.

Igualmente não por acaso, o temor recorrente nos meios reacionários, sobretudo entre militares e forças policiais, é ao comunismo.

Muitos ainda devem se lembrar que na última campanha eleitoral, o que mais aconteceu foi a canalha comparação feita por pastores e candidatos reacionários que tentaram igualar o diabo ao comunismo e esse, por sua vez, ao PT e a Lula.

SINAL DE TEMOR

O maior pesadelo para Bolsonaro foi perder as eleições. Ele, melhor do que ninguém, sabe dos desmandos, ilegalidades e corrupções que praticou.

Sabe que, fora do poder, isso virá, como já está vindo, à tona, e ele terá que enfrentar a Justiça como um cidadão comum.

Daí não ter pensado duas vezes antes de estimular sua turma a agir, pouco somando com as consequências que tais atitudes pudessem ter.

Basta lembrar que na terra plana onde vivem os bolsonaristas, o TSE fraudou as eleições e deu vitória a Lula. Aliás, até o momento, Bolsonaro não admitiu a derrota e nas redes bolsonaristas ele ainda é o presidente do Brasil.

Se a viagem/fuga dele para os Estados Unidos, dois dias antes da posse de Lula, já era sinal do temor de ser preso tão logo perdesse as imunidades do cargo, os atos terroristas de 8 de janeiro confirmam tais temores e indicam que ele foi além: partiu para um confronto que só piorou ainda mais a sua situação.

Entre as centenas de pessoas detidas pelos atos terroristas em Brasília estão apenas os chamados “peixes pequenos”. A Justiça sabe disso e está seguindo o fio do novelo para chegar aos “peixes graúdos”: quem financiou e quem articulou tais atos.

Não está descartada nem mesmo a conexão destes articuladores e financiadores com a extrema-direita dos Estados Unidos e da Europa, além, claro, com setores do empresariado brasileiro.

A prisão do ex-ministro da Justiça e ex-secretário de Segurança de Brasília, Anderson Torres, que estava nos Estados Unidos com Bolsonaro, e retornou ao Brasil neste fim de semana, poderá esclarecer muita coisa.

Tudo o que está acontecendo aqui vem sendo acompanhado de perto pelo mundo inteiro, pois se hoje somos a bola da vez, ninguém sabe qual país pode ser o próximo alvo da extrema-direita e de sua guerra híbrida contra as instituições democráticas.

AÇÕES RÁPIDAS

Outro motivo para o desespero dos terroristas bolsonaristas é que o governo Lula não ficou paralisado nem um instante.

Agiu rápido e de forma eficaz.

Durante toda a tarde e noite do domingo (8), Lula esteve em contato direto com seus ministros e os integrantes dos demais poderes e decidiu pela intervenção na Segurança do Distrito Federal.

O governador de Brasilia Ibaneis foi afastado por 90 dias e dificilmente retornará ao cargo.

Ao lado dos dirigentes dos demais poderes e na companhia de todos os governadores, Lula atravessou a Esplanada e foi ao STF.

A cena serviu para se contrapor à bomba semiótica dos terroristas bolsonaristas.

Lula deixou claro que entendeu o peso e importância da comunicação.

O governo Lula também trabalhou durante toda a madrugada da segunda-feira (9), quando a ação rápida dele, de algumas forças estaduais e dos petroleiros inibiu sabotagem nas refinarias da Petrobras.

Articulações terroristas foram detectadas pela Federação Única dos Petroleiros (FUP), ao passo que a direção bolsonarista da Petrobras não moveu uma palha. Detalhe: pela lei das estatais aprovada no governo do golpista Temer, só em abril o novo presidente indicado por Lula, Jean Paul Prates, poderá assumir.

Outro exemplo de que o governo Lula não se deteve em função dos atos terroristas foi o plano econômico anunciado pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad.

Na quarta-feira, ele expôs as primeiras medidas para tentar reduzir o rombo das contas públicas provocadas pelo desgoverno Bolsonaro e conter a alta na dívida no setor.

Devidamente implementadas, as medidas podem fazer com que as contas públicas em 2023 tenham um saldo positivo.

Não foi dito, mas o governo Lula espera contar também com uma enorme presença de investimento externo, que aguardava apenas o país voltar a ter um governo sério e confiável.

A “BOMBA” DAS AMERICANAS

Mas se o “mercado” parece não ter se importado com o terrorismo bolsonarista, uma vez que não se viu nenhuma manifestação ou reação dura dele aos riscos para a democracia brasileira, esse mesmo mercado também acabou por ser atingido por uma bomba de altíssimo poder explosivo: o escândalo de um rombo de R$ 20 bilhões, que as Lojas Americanas S.A. escondiam em seu balanço.

Coincidentemente, os três principais controladores da empresa, os empresários João Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira, apoiaram alegremente o golpe de 2016 e a destruição do mercado interno.

Considerados “gênios dos negócios” pela maioria dos comentaristas da mídia corporativa, esses senhores teriam tudo para continuar mantendo a farsa se não fosse o país estar sob nova direção.

O caso das Lojas Americanas, que está longe de ser isolado, serve também como alerta para a vastidão dos problemas que estão pela frente na chamada iniciativa privada, ela que vive acusando o setor público de má gestão.

Este caso serve como alerta igualmente para que ninguém deixe de observar como a política e a economia estão diretamente relacionadas.

Esses empresários, que apoiaram o golpe contra Dilma, a prisão de Lula e a eleição de Bolsonaro, têm muitas contas a prestar à democracia. Coisa que jamais fizeram no governo do capitão, que ajudaram a implantar, com a guarida da mídia corporativa.

A RESPONSABILIDADE DA MÍDIA

A própria mídia corporativa, que hoje defende a democracia, tem uma enorme parcela de responsabilidade nestes atos terroristas.

Durante décadas foi ela quem criminalizou, sem provas, o PT e Lula.

Foi ela quem endeusou a Operação Lava Jato e transformou o juiz parcial Sérgio Moro em herói.

Foi ela quem achou que poderia controlar Bolsonaro e passou pano para ele durante os quatro anos de seu mandato.

A família Marinho, que controla o maior grupo de mídia no país, criticou Bolsonaro apenas pelo desastre na pandemia, mas nunca deixou de elogiar sua política econômica neoliberal e nem de exaltar o seu ministro da Economia, Paulo Guedes, aquele cuja fortuna está em paraísos fiscais.

Paulo Guedes é outro que tem uma enorme conta a acertar, pela gestão criminosa e os desmandos contra a economia brasileira e as empresas estatais.

Dito de outra forma, essa velha mídia, que hoje atua corretamente denunciando o terror bolsonarista, teve papel central na transformação de um capitão, que lá atrás também praticou atos terroristas, num político palatável para a classe média e num ídolo para os desinformados e os cooptados pelo medo via igrejas neopentecostais ou pela retórica reacionária da extrema-direita e dos militares.

A FACE VISÍVEL DO MONSTRO

Por tudo isso, o terrorismo bolsonarista que destruiu a sede dos poderes da República, que destrói empresas e empregos, que solapou a soberania brasileira, é apenas a face mais visível de um monstro que foi nutrido e acalentado por muitos.

Bolsonaro se foi, mas o bolsonarismo ainda está presente na sociedade brasileira.

Bolsonaro usou os militares ou foi usado por eles nesta empreitada? Acredito que as duas coisas.

Bolsonaro precisa ser responsabilizado por tudo o quê fez de mal ao Brasil e ao povo brasileiro.

Não há como os poderes da República fugirem disso, sob pena de manterem um monstro solto e à espera de nova oportunidade para atacar.

Não dá também para fingir que as forças militares – forças armadas, mas também polícias militares – não foram coniventes e não têm enorme culpa no cartório.

Não dá, por outro lado, para pensar em fim das forças armadas e abolição das polícias militares.

No Estado Democrático, elas devem primar pelo comando civil.

Fácil de falar, mas difícil de fazer, uma vez que estas forças, ao longo de toda a história do Brasil, serviram sempre aos interesses dos ricos e dos milionários.

Lula sabe disso. A maioria do povo brasileiro também.

Daí a tarefa que se coloca para o terceiro governo Lula ser gigantesca.

É preciso reinventar as Forças Armadas, direcionando-as para seu papel num estado democrático: a defesa do país contra inimigos externos e não contra os interesses da maioria da população.

LUTA ÁRDUA E LONGA

Tarefa árdua, mas não impossível, mesmo sabendo como as forças armadas brasileiras se tornaram mamateiras e adoradoras das boquinhas e boconas no governo do capitão.

É preciso repensar a função das Polícias Militares, que há tempos não obedecem aos governadores, que apenas fingem que as comandam.

É importante que a mídia corporativa, que agora combate o terrorismo bolsonarista, também combata o terrorismo empresarial.

Um bom começo seria parar de divulgar os press-releases das Lojas Americans e mostrar a barbaridade cometida pelos seus acionistas controladores?

Por que não denominá-los também como terroristas do mercado? Mais ainda: quais outras empresas, entidades ou pessoas foram coniventes?

Daí a importância de ninguém acreditar que os riscos para a democracia, a inclusão social e a soberania nacional vão acabar de uma hora para a outra.

O trabalho é urgente. A luta será longa e árdua.

Lutar e esperançar precisam estar de mãos dadas.

Ângela Carrato é jornalista e professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG.

Leia também:

Paulo Abrão: Reação internacional à tentativa de golpe no Brasil mostrou sincronia que raramente se viu

Nassif: Lemann produz o maior rombo da história; Americanas escondeu passivos equivalentes à metade do seu patrimônio

Manuel Domingos Neto: Estancar a depravação militar que estimulou e acoitou terroristas e vândalos


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Comentários

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Zé Maria

https://twitter.com/i/status/1615009101385277440

“EBC SOB NOVA DIREÇÃO!

Foi neste clima a chegada do Ministro Paulo Pimenta (@DeputadoFederal)
e a assinatura do termo de Posse da Gestão que vai conduzir a transição da
@EBCnaRede a uma nova era.”

Jornalista NICOLE BRIONES
https://youtu.be/pINvbF0f5A8
https://twitter.com/nicolebriones/status/1615009101385277440
.
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https://pbs.twimg.com/media/Fmmw-QiX0AAkn7V?format=jpg

“A jornalista Kariane Costa toma posse no comando da #EBC
Ela é representante dos empregados no Conselho de
Administração (Consad)
e será responsável pela transição para Nova Gestão,
a ser implementada nos próximos meses.”

https://twitter.com/EBCnaRede/status/1615050207107944454
.
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Cerimônia de Posse de Kariane Costa, Nova Presidenta da
Empresa Brasileira de Comunicação (EBC):
https://twitter.com/i/broadcasts/1MYxNgEWkzpKw

https://twitter.com/DeputadoFederal/status/1614995494345867265

marcio gaúcho

No caso das Lojas Americanas, para que serve uma auditoria independente, quando faz de conta que não enxerga o rombo nas demonstrações contábeis da empresa? Não sei qual renomada empresa de auditoria foi a responsável pelo aval das contas, mas essa deveria ser banida e proibida de operar no Brasil. Onde estava a CVM nesse momento???

Zé Maria

https://pbs.twimg.com/media/FmbdLYuXoAIHTHv?format=png

Todo mundo conhece a Índole dos
Fascistas Apoiadores de Bolsonaro.

Mas não custa nada demonstrar
a insensibilidade dos Bolsonaristas.

Absolutamente nenhum Bolsonarista
se solidarizou com o Ministro Barroso

após o Falecimento de sua Esposa,
vítima de um OsteoSarcoma Cruel.

https://twitter.com/search?q=Barroso

Em Nota, Jorge Messias, Advogado-Geral da União (AGU),
se solidariza com o Ministro e Familiares.
Tereza e Luís Roberto são Pais de Luna e Roberto.

“Com grande pesar, recebi há pouco a notícia do falecimento, nesta data (13/01),
da senhora Teresa Cristina Van Brussel Barroso, esposa do ministro do Supremo
Tribunal Federal (STF) Luís Roberto Barroso.
Em nome dos integrantes da Advocacia-Geral da União (AGU), manifesto nossos
profundos e respeitosos sentimentos aos familiares e amigos”.

https://twitter.com/revistaforum/status/1614220713552146433

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