Altamiro Borges: Mídia, disputa pela hegemonia e a covardia do governo

Tempo de leitura: 5 min

por Altamiro Borges. em seu blog

Avança o consenso nas esquerdas políticas e sociais de que a mídia exerce hoje papel central na disputa pela hegemonia na sociedade. Não há como avançar nas lutas dos trabalhadores, na radicalização da democracia e na própria superação da barbárie capitalista sem enfrentar o poder altamente concentrado e manipulador dos latifundiários da mídia. A luta pela democratização da comunicação, com o fim dos monopólios privados e com o estímulo à pluralidade informativa, passa a ser encarada como estratégica na atualidade.

Antonio Gramsci, intelectual e revolucionário italiano, já havia alertado para esta questão no início do século passado. Como apontou na época, principalmente nos momentos de crise da representação partidária das classes dominantes, a imprensa ocuparia a função de “partido do capital”. Ela se tornaria o principal “aparelho privado de disputa da hegemonia”. Hoje, com a construção dos gigantescos impérios midiáticos – menos de 30 no planeta e apenas sete no Brasil –, este papel nefasto ficou ainda mais proeminente.

Na América Latina, que de laboratório do neoliberalismo transformou-se em vanguarda na luta pela superação das teses destrutivas e regressivas do capital, esta distorção é ainda mais visível. A mesma mídia que apoiou os golpes e as ditaduras militares na região e que disseminou as teses do desmonte do estado, da nação e do trabalho, hoje substitui os partidos em crise das classes dominantes como a principal força opositora e desestabilizadora dos governos progressistas democraticamente eleitos pelo povo.

Mesmo no Brasil, onde a luta de classes ainda não atingiu maior radicalização, os barões da mídia tentam agendar a política, definir as prioridades e enquadrar os governos. A própria ex-presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ), Judith Brito, executiva do Grupo Folha, confessou recentemente que a mídia desempenha a “posição oposicionista” em função da “fragilidade da oposição”. Em vários episódios, a velha imprensa tem se comportado como a principal força opositora ao que ela mesma batizou de “lulopetismo”.

Nas eleições de 2010, esta postura ficou explícita. Cito três episódios grotescos para ilustrar. Ainda quando se definia a candidatura da ex-ministra Dilma Rousseff como sucessora de Lula, a Folha de S.Paulo publicou na capa uma ficha policial falsa da postulante. Já na campanha a TV Globo transformou uma bolinha de papel quase num míssil contra a careca do tucano José Serra. A mídia também fez um baita escarcéu com a questão do direito do aborto, reproduzindo frase de Mônica Serra de que Dilma “matava criancinhas”.

Um quarto episódio se deu nas eleições municipais do ano passado. Durante três meses, a mídia explorou ao máximo o julgamento do “mensalão do PT”. De forma seletiva, esbanjando alto padrão de manipulação, ela omitiu os escândalos envolvendo políticos da direita para interferir no processo eleitoral. O julgamento chegou a ser cronometrado. Não por coincidência, a condenação do núcleo político por “corrupção passiva” ocorreu na véspera do primeiro turno; já o da “formação de quadrilha” se deu na reta final do segundo turno.

A mídia perseguiu dois grandes objetivos no julgamento – num jogo combinado com o Supremo Tribunal Federal (STF). O primeiro foi tático, imediato, visando impedir o definhamento dos partidos da direita. O plano não obteve êxito completo, como atesta a derrota de José Serra na capital paulista. Mas em outras capitais e centros urbanos, a tática surtiu efeito ao alavancar candidaturas do bloco liberal-conservador. O segundo objetivo, mais estratégico, foi o de desmoralizar as esquerdas. A mídia tentou levar ao banco dos réus não apenas os chamados “mensaleiros”, mas todas as forças políticas e sociais que deram sustentação aos governos Lula e Dilma.

A partidarização da imprensa fica mais escancarada nos momentos decisivos das eleições. Mas ela não se manifesta somente nestes períodos. Ela se dá no cotidiano, tentando interferir nos rumos do governo. Agora mesmo a mídia concentra a sua artilharia contra as tímidas mudanças no “sagrado” tripé neoliberal. A mídia, que também é poder econômico, não esconde os seus vínculos com o capital, principalmente o financeiro, contrapondo-se à queda dos juros, ao controle do cambio e à maior flexibilidade nas políticas fiscais. Ela também fez terrorismo contra a redução das tarifas de energia elétrica, numa defesa implícita dos interesses dos ricos acionistas.

Os movimentos sociais já conhecem esta prática dos barões da direita. Historicamente, eles sempre foram criminalizados e satanizados em suas lutas. As greves de trabalhadores ou não são notícia ou são tratadas como atos de vandalismo, que congestionam o trânsito e prejudicam a sociedade. As ocupações de terra são rotuladas de invasões e os seus autores são taxados de bárbaros, que destroem a sacrossanta propriedade privada. As lutas estudantis são estigmatizadas como ações de minorias desocupadas e viciadas – coisa de “quadrilha”, como ocorreu na recente ocupação do prédio da reitoria da USP.

Exatamente por isso, os movimentos sociais têm avançado na consciência sobre o papel estratégico da luta pela democratização dos meios de comunicação, contra a ditadura midiática, e têm investido nos seus próprios veículos de informação e formação. Há ricas experiências de jornais sindicais, de rádios comunitárias, da construção de tevês alternativas – como a TVT. Neste esforço, eles contam hoje com novas ferramentas derivadas da brecha tecnológica aberta pela internet. O ativismo digital tem se convertido num poderoso contraponto à mídia hegemônica. Ainda é uma guerrilha diante dos exércitos regulares, mas tem avançado nas suas trincheiras.

O Brasil, inclusive, vivencia uma interessante experiência de organização destes ativistas digitais. Zelando pela unidade na diversidade, o chamado movimento dos blogueiros progressistas – batizado de Blogprog – já realizou três encontros nacionais e um fórum mundial em apenas três anos de existência. Além de participar da luta pela democratização da comunicação, unindo-se a outras entidades da sociedade civil – como o reitoria da USP –, este movimento tem ajudado a dar maior visibilidade às lutas dos trabalhadores, contrapondo-se à criminalização patrocinada pelos barões da mídia. A direita nativa já sentiu a sua presença, tanto que os rotulou de “blogs sujos”.

Todo este esforço, porém, ainda não foi suficiente para pressionar o governo no sentido de enfrentar os monopólios da mídia. O Brasil permanece como um dos países mais atrasados na implantação de uma regulação democrática dos meios de comunicação. Até nas chamadas democracias ocidentais, tão badaladas pela velha imprensa, existem regras para evitar a concentração no setor e garantir mais diversidade e pluralidade na mídia. Na América Latina, a vitória de governos antineoliberais tem resultado na adoção de políticas públicas e de novas leis que estimulam a verdadeira liberdade de expressão – que não se confunde com a liberdade dos monopólios.

No Brasil, os governos oriundos das lutas democrática e populares firmaram pactos de não agressão com os barões da mídia. Como demonstra o professor Venício A. de Lima, no livro “Política de comunicações: um balanço dos governos Lula”, o ex-presidente optou por não enfrentar esse grave problema da democracia nativa. Algumas iniciativas até foram tomadas, como a constituição da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) e a redefinição da distribuição das verbas oficiais de publicidade. Mas elas foram muito tímidas. Já a atual presidenta, Dilma Rousseff, recuou ainda mais neste terreno minado, estabelecendo um curioso “namorico” com a mídia.

O governo não entendeu que “nas batalhas pela hegemonia, a centralidade dos meios de comunicação torna-se decisiva, visto que eles elaboram e disseminam informações e ideias que concorrem para a formação do consenso em torno de determinadas concepções de vida” – segundo definição do professor Dênis de Moraes, no livro “Vozes abertas da América Latina”. A ausência de convicção política sobre o caráter estratégico da mídia faz com que o governo se acovarde diante do tema, o que aumenta a responsabilidade dos movimentos sociais e dos ativistas digitais na luta pela conquista da verdadeira liberdade de expressão no Brasil.

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Comentários

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Otacílio Gomes

A implicância de Ali Kamel

Dilma em Roma:

O PAPA É ARGENTINO, MAS DEUS É BRASILEIRO
(Genial, minha Presidenta!)

Sobre os gastos da comitiva? Besteria, minha gente. Se dependesse do ali kamel, a Dilma viajaria a Roma sozinha e ficaria hospedada num daqueles pardieiros encontrados em torno da Fontana de Trevi. O problema é que o Ali tem complexo de vira-lata.

E o que fez Dilma nesta viagem? Mais uma vez, e habilmente, projetou o Brasil no cenário internacional. E o dono do conteúdo (???) do JN, morto de ódio, veio falar do “enorme” gasto da comitiva presidencial. Ora, se a Dilma é a Presidenta, ela tem o direito de ficar hospedada numa suíte presidencial, certo?

E a mulher foi maravilhosa quando numa coletiva à imprensa disse que “o Papa é argentino, mas Deus é brasileiro”. Genial! Genial! Genial!. É essa frase que vai marcar a posse do Papa Francisco, em todo o mundo.

E habilmente ela já começou a cobrar a opção assumida pelo Santo Padre com a pobreza ao debater o tema com a imprensa italiana.

A rede globo fez a maior propaganda em torno do tema (Francisco, de São Francisco de Assis, pela pobreza) por achar que o compromisso era do tipo “só os pobres aqui na Terra herdarão o reino dos céus; deixem pois eles morrerem de fome”.

Claro que a Dilma e a rede globo sabem do apoio que o Arcebispo de Buenos Aires deu à ditadura argentina. Mas o homem pode ter mudado, não pode? Mas quem nunca mudou de lado foi a Dilma.

Um beijo, minha querida Presidenta, por esta sua enorme capacidade de entender como funciona o mundo.

Roberto Locatelli

Excelente o artido do Miro Borges.

Realmente, nessa luta não poderemos contar com o governo. Enquanto Dilma mantiver Paulo Bernardo como ministro das comunicações e Zé Eduardo Cardozo no ministério da justiça, saberemos que a luta contra o PIG (Partido da Imprensa Golpista) e seu braço jurídico, o stf, será uma luta só da sociedade, sem o governo.

    Julio Silveira

    Caro Locateli, me desculpe, mas aí a sociedade “tafu”. Por que se colocamos reprentantes lá, que não nos representam, o que fazer? se em democracia as regras são essas. O povo, ir mais para as ruas, do que já foi, para colocar essa gente, que disseram ser seus representantes, para falar em seu nome? quantas vezes será necessário? exigir isso, novamente da cidadania, a cada percepção de traição é até um pouco sadico. As costas dos cidadãos estão largas e calejadas de tanto dar seus sangue e seu lombo para o brucutus virem se deleitar, na sua valentia armada e amparada, contra os indefesos. E a troco de que? nenhuma garantia de que respeitando as normas serão respeitados. Amigo, o cidadão precisa encontrar outra alternativa, e é urgente senão o sangue dos inocentes, já não tão inocentes assim, virarão nada mais que suco perante uma sociedade que a cada dia que passa se torna um pouco mais insensivel. Não sem motivo, ninguem aguenta mais ser a vitima perfeita dos eternos aplicadores de contos do vigário. Meu respeito e abraço.

    Julio Silveira

    Estive pensando, quem sabe a alternativa e a sociedade ter poder para retirar os politicos que não atendam as suas expectativas, mediante alguma forma de aferição de seus trabalhos e suas condutas, como num plebiscito anual por exemplo, onde a região base do sugeito possa lhe consentir com o “fica”.Da forma que está ninguem se responsabiliza por ninguem, não ha acompanhamento nem cumplicidade entre a cidadania e seus representantes. Esse negocio de vai lá e vota, de quatro em quatro anos, num sugeito que depois desaparece, para só voltar retomar o falso discurso de cumplicidade que todo mundo já sabe ser falso, contando com a obrigatoriedade legal do voto para eleger um nome qualquer, tira todo o sentido da bao democracia. Para mim a desobrigatoriedade do voto seria outro bom começo.

    Lu Witovisk

    Lembre da Islândia em 2008. A meu ver, é o unico caminho. Retomar o poder que entregamos aos “representantes que não nos representam”

    http://youtu.be/Le9DLXt1phA

    FrancoAtirador

    .
    .
    Esta proposta seria a ideal para o Brasil.

    Mas, para tanto, seria necessário alterar

    o sistema de governo para parlamentarista.
    .
    .

    Angela Liuti

    Há muita frouxidão na atuação destes dois ministros, (tem outro tb o Gilberto Carvalho e o da saude) estou pensando em afrouxar tb meu voto nas próximas eleições. Não dá mais para sustentar esperanças não cumpridas com ministros com objetivos próprios carreiristas ,neste caso gostaria de estar na Venezuela ou na Argentina.Chega de sonhos, prefiro o embate direto a beijar a mão de papas.

Sender

Checando as noticias da Folha sobre a estada da Dilma em Roma:

Folha: “Dilma, quatro ministros, assessores mais próximos e seguranças se hospedaram no hotel Westin Excelsior, na Via Veneto, um dos endereços mais sofisticados de Roma, num total previsto de 30 quartos.

Um deles foi transformado em escritório para a Presidência da República.

A diária da suíte presidencial custa cerca de R$ 7.700, enquanto o quarto mais barato fica por R$ 910”.

Checando os preço dos quartos e suítes do Westin Excelsior, na Via Veneto, com a Booking.com: o quarto mais barato sai hoje por R$ 896,00 e a suíte presidencial por R$ 5.534,03 a diária (este é o quarto mais luxuoso do hotel), e não por R$ 7.700,00 como diz a Folha de São Paulo.

De mentira em mentira o meu saco já está cheio.

Sender

Sem alternativa, mudei do Jn para o Telejornal da Record. Mas constatei que este último é uma continuação mal feita do programa do Datena: só noticia mortes, dramas pessoais, julgamentos de criminosos, catastrofes naturais, acidentes de transito e outras tragédias cotidianas. E, de maneira semelhante ao JN, fala muitíssimo sobre o “novo” Papa.

A mesma coisa é o Telejornal da Band. Já a Band News tem com slogan “a notícia em primeiro lugar”, que foi corrigido por um leitor deste blog para “a desgraça em primeiríssimo lugar”.

Ou seja, o brasileiro está sem opção em termos de telejornais. Até quando, minha Presidenta?

Fernando Ferro: “Barões da imprensa não têm o direito de nos calar” « Viomundo – O que você não vê na mídia

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Moacir Moreira

Quem patrocina a imprensa golpista em primeiro lugar são os banqueiros do crime organizado internacional com sua fatia no orçamento federal e em segundo lugar é a classe média fútil, egocêntrica, individualista, racista, hipócrita, nazista…A classe média tão bem representada pelo PSDB.

Fabio Passos

O PiG e o partido da pior “elite” do mundo.
E a maquina de propaganda da casa-grande… o sustentaculo do Apartheid Social.

Todas as reporcagens do PiG defendem os privilegios indecentes da minoria branca e rica e combatem os interesses da maioria trabalhadora.

Acabar com as oligarquia decrepitas que controlam a informacao no Brasil e questao capital para o Brasil superar o atraso e o subdesenvolvimento.

Lutar contra o PiG e dever de todo cidadao que deseja justica social.

ricardo silveira

É inexplicável a postura de inércia do Governo Lula e Dilma em relação ao monopólio da mídia. Dizer que não tem força no Congresso para enfrentar os golpistas, a ponto de nada fazer para, no mínimo, exigir que seja cumprida a Constituição? É realmente inexplicável, ainda mais para um governo de esquerda que tem mais de 60% de aprovação popular.

    Fabio Passos

    Inexplicavel.
    O governo assiste passivamente algumas oligarquias medonhas de atrasadas idiotizando parte da nossa classe media e comprometendo o futuro do Brasil.

    Paciencia tem limite.
    Tolerar meia duzia de apoiadores e filhotes da ditadura sabotando nossa democracia e um absurdo.

    E dever do governo promover a democratizacao das comunicacoes.
    E obrigacao do governo Dilma.

lulipe

Esse lero lero de novo…

    Anônimo do Prado

    Estava em dúvida entre “lero-lero”, “ti-ti-ti” ou “trololó”. Consultou “o mais preparado” e chegou a essa brilhante conclusão.

    Caracol

    Tem também “nhe-nhe-nhém”.
    O “mais bem preparado” é preparado pacas, não sei porque a Academia não convidou…

Almerindo

A Dilma prefere o REAL risco de perder uma eleição do que ENFRENTAR o problema de frente… DEPRIMENTE.

    Fabio Passos

    Dilma sustenta o PiG.
    Corta a verba publicitaria e o PiG cai!

    Chega de sustentar o PiG com dinheiro do povo!

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