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A disputa em torno do valor do petróleo


27/08/2010 - 19h23

Será de US$ 8,50 o preço do barril do petróleo da cessão onerosa

do Vermelho

Valor está exatamente entre o mínimo e o máximo sugeridos nos laudos das consultorias contratadas pela Petrobrás e pela ANP

O governo bateu o martelo e, salvo qualquer argumentação extraordinária nos próximos dias, o barril da cessão onerosa para a Petrobras ficará em US$ 8,50. O valor está exatamente no meio, entre o mínimo e o máximo sugerido nos laudos das consultorias contratadas pela Agência Nacional do Petróleo (ANP) e pela Petrobras para avaliar a área de Franco, que será cedida pela União à estatal dentro de seu processo de capitalização.

O diretor-geral da ANP, Haroldo Lima, voltou a afirmar ontem que gostaria de um valor superior a US$ 8. “O que já disse sobre isso, há uns 15 dias, é que US$ 5 ou US$ 6 seria baixo; acima de US$ 8 me parece razoável”, afirmou.

Interesses contraditórios

Os problemas relacionados à flagrante divergência entre os valores sugeridos pelas duas empresas não são exclusivamente técnicos. A definição do preço do barril do óleo que será extraído na área do pré-sal pertencente ao governo ocorre em meio a interesses contraditórios. Quanto maior o preço, melhor para o Estado, que passaria a possuir um percentual maior das ações ordinárias (com direito a voto) da empresa e amplia.

Os interesses dos acionistas privados (capitalistas de pequeno, médio e grande porte, com destaque para investidores estrangeiros) estão na contramão do governo, pois na medida em que aumenta o controle do governo sobre a Petrobras declina a participação relativa da iniciativa privada. A empresa, que ao longo do governo FHC sofreu uma espécie de privatização branca (com grande número de ações transferidos ao capital nacional e estrangeiro), também se sente prejudicada com o preço mais elevado do barril que terá de pagar com ações no processo de capitalização.

Apenas conservadorismo?

Por coincidência ou não a contradição de interesses transparece nas duas propostas divergentes. A sugestão de que o barril da cessão onerosa, ainda ocioso no fundo do oceano, deve ser fixado entre 5 e 6 dólares foi defendida de forma ardorosa pelos acionistas privados, com forte apoio da mídia capitalista. Esta promoveu uma campanha insidiosa contra o diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo (ANP), Haroldo Lima, que criticou tal proposta e defendeu um valor maior, sendo respaldado neste sentido pelo presidente Lula.

De todo modo, o valor do barril entre US$ 5 e US$ 6 apresentado pela consultoria DeGolyer & Mc Naughton, contratada pela Petrobras, não se sustentou na apresentação técnica feita ontem em Brasília em reunião interministerial. O laudo foi considerado conservador na análise de dados nunca antes considerados em outros projetos da estatal.

Meio termo

O governo, porém, não acatou o outro lado. Tomou a decisão, que parece mais política do que técnica, de optar pelo meio termo, o que não agradou os técnicos da ANP. Reavaliando os parâmetros utilizados nos dois laudos, a União reduziu o volume de reservas estimado da área para 4,5 bilhões de barris e ajustou o valor do barril para US$ 8,50. A Petrobras teria resistido à decisão, mas acabou cedendo diante da ameaça de novo adiamento do processo de capitalização, caso houvesse necessidade de contratar uma terceira consultoria para balizar as análises.

Técnicos da ANP também não cederam completamente ao valor de US$ 8,50. Há uma tendência na reguladora a apresentar argumentações nos próximos dias que forcem o governo a aproximar esse valor dos US$ 10. O diretor-geral da ANP, Haroldo Lima, voltou a afirmar ontem que gostaria de um valor superior a US$ 8. “O que já disse sobre isso, há uns 15 dias, é que US$ 5 ou US$ 6 seria baixo; acima de US$ 8 me parece razoável”, afirmou.





6 comentários

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ruypenalva

30 de agosto de 2010 às 21h22

O Haroldo está errado. Quanto maior o valor do barril, maior o tamanho da capitalização, que corre risco de micar se atingir um valor em dólar muito alto. O mercado é sábio nesse negócio e não foi à toa que Warren Buffet vendeu toda participação que tinha na Petrobrás até que seja definida a capitalização. Esse rame-rame está deteriorando o valor de mercado da empresa, o que não é bom, diminuindo o seu rating, aumentando o seu endividamento. Não importa um valor de barril de 6 dólares, pois não é sobre isso apenas que a União ganha, ganha também sobre os royalties e sendo dona de 33% da Petrobrás também ganhará com um valor de barris justestimado. Haroldo que me perdoe, mas ele sempre foi muito burrinho e cabeça dura, mesmo quando jovem; anos e anos de PCdoB emburrece qualquer mente. J. S. Gabrielli sabe das coisas, é inteligente, conheço-o pessoalmente desde a adolecência, não entregaria ouro a bandido, ele que é de esquerda e nunca deixou de ser; mas Haroldo é burro. A União ganha de qualquer jeito, em qualquer ponta, mas está prejudicando a sua maior empresa no momento com uma discussão sobre o sexo do barril de petróleo.

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Klaus

30 de agosto de 2010 às 11h06

Para explorar o pré-sal, a Petrobras precisa de dinheiro, alguns bilhões de dólares. A melhor maneira que se viu pra conseguir estes bilhões de dólares foi com esta capitalização. O governo não vai entrar com dinheiro vivo, mas ssim com a cessão honerosa de 5 bilhões de barris à Petrobras. O dinheiro mesmo, que é necessário para a exploração do pré-sal, virá dos sócios minoritários. Se estes não entrarem com o dinheiro, terão sua participação na empresa diluída e o estado brasileiro terá uma fatia maior da empresa. Mas se eles não entrarem com dinheiro, também não haverá com se explorar o pré-sal, pois o dinheiro vivo virá deles. É claro que qualquer que seja o valor do barril na cessão honerosa haverá interesse dos minoritários em participar, mas talvez este interesse será proporcional ao valor do barril. De qualquer maneira, a cessão honerosa já está precificado no valor das ações. Tempos atrás, Vale e Petrobras tinham um valor por ação praticamente igual. Hoje, a cotação da Vale está em R$41,40 e a Petrobras em R$26,12.

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    Klaus

    30 de agosto de 2010 às 12h46

    Onerosa com H é duro de ler…

Marco

28 de agosto de 2010 às 15h57

Sobre a capitalização da Petrobrás, uma proposta muito simples e justa foi apresentada ao congresso, porém não foi acatada pelo relator do projeto de lei (pra variar).

CAPITALIZAÇÃO DA PETROBRÁS: http://www.aepet.org.br/index.php?yEDM5YjM1UzM40z

"Quando o presidente da AEPET, hoje licenciado, Fernando Siqueira, esteve depondo na audiência pública, na Câmara dos Deputados, que discutiu a forma de capitalização da Petrobrás, deu uma sugestão que foi aceita por todos, mas não foi acatada pelo relator. Trata-se da proposta que simplificava o processo de capitalização e eliminava seus riscos. Era, basicamente, a seguinte:

Após uma avaliação por auditores internacionais, o preço acordado, digamos US$ 8 por barril, seria só uma referência para a viabilizar a operação para o ingresso de capitais na Petrobrás.

Na medida que a Empresa fosse concluindo a produção do petróleo, seria feita o acerto de contas, considerando o preço do mercado no momento, concretizando a capitalização. Se o preço final, abatidos os custos totais de produção (custos operacionais, financeiros, e os demais), fosse maior que o estimado, a Petrobrás pagaria a diferença ao Governo. Caso fosse menor, ela receberia a diferença. Assim, o preço final (real) seria o preço correto, sem prejuízo para ninguém.

Esta proposta eliminaria o risco de qualquer das partes ter prejuízo.

Há uma perspectiva de alta dos preços internacionais do petróleo, o que levaria os acionistas da Petrobrás e terem uma lucratividade considerável em detrimento da União. Se, na hipótese, menos viável, o preço cair, perdem os acionistas da Petrobrás.

Assim, muito mais sensato é eliminar o risco para qualquer das partes.

Ocorre que o cartel internacional do petróleo não que deixar a Petrobrás ser a operadora de todos os campos. E, através das órgãos de comunicação hegemônicos comprometidos ao capital externo, tumultuam o processo. Eles querem produzir e querem tirar o máximo proveito possível. Para eles, o ideal é permanecer a Lei 9478/97, instituída por FHC. Ela transfere às corporações internacionais do petróleo 100% da produção. Por isto, o cartel promove esta campanha contra a mudança do contrato de concessão para partilha. (Redação)"

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Ed.

28 de agosto de 2010 às 13h45

O importante é que é uma capitalização aberta, no mercado, onde todos podem participar, diferentemente dos envelopes fechados dos leilões de compra (de ações ordinárias, de controle) de FHC e sua privataria.
Agora discutem-se os parâmetros, riscos e regras transparentemente.

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GustavoEgito

28 de agosto de 2010 às 01h55

Decisão bem "Salomônica", hein?

Pois, é!

É tristemente lamentável que o petróleo (as ações da Petrobrás) não seja só nosso. Elevados percentuais da "mezzo" estatal estejam nas mãos de particulares estrangeiros e de fundos de pensão!

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