Por Lelê Teles
Por Lelê Teles*
“bailam corujas e pirilampos entre os sacis e as fadas”, Secos & Molhados.
na estrada, vejo, ao longe, o céu enegrecendo.
uma enorme cortina escura, formada por nuvens espessas, envolve o sertão.
os primeiros pingos de chuva, avexados, tocam o para-brisa do carro.
as gotas batem forte, como se aves bicassem o vidro.
abro a janela e deixo entrar o vento fresco, fragrante e úmido.
agora, as gotas se multiplicam, vastas, largas, uniformes.
a chuva chora e escorre pelos vidros do carro.
paro na beira da estrada, de frente a uma pequena propriedade rural.
Apoie o VIOMUNDO
como é domingo, a casinha, colorida e avarandada, tá cheia de gente.
o sorriso alegre das crianças se esparrama pelo quintal.
desço, debaixo de chuva, e observo a alegria em minha volta.
o que não vejo, advinho:
o gado muge, ouço o balir de cabras e ovelhas, o jumento dá pinotes.
trotam cavalos e burros, porcos focinham, patos nadam, aves fazem voos alegres e canoros nos céus.
sapos coaxam mantras na beira dos riachos, açudes, poços, cacimbas e corredeiras.
insetos habitam a relva úmida.
os quintais exalam o cheiro fresco de terra molhada, as mulheres, com seus lenços na cabeça, erguem a bainha dos vestidos leves e saem em disparada carreira pra tirar as roupas dos varais.
meninos e meninas fazem fagueira correria, deslizam no chão molhado das varandas, brincam de ciranda com os pés descalços, sujam-se lama limpa, pisam em poças, jogam água nos amigos fazendo chapinha com a sola dos pés…
o velho agricultor recolhe-se a reminiscências, as passadas e as futuras.
debruçado sobre o parapeito da janela, pita seu cigarrim de palha e filosofa.
observa, com os olhos marejados de felicidade, a algazarra que se forma no ambiente: terra molhada, relva verde, céu alegre, gente feliz.
dona maricota, na cadeira de espaldar, pitando seu cachimbo rústico, vira-se de lado e cospe ao longe, estilo cocô de pato.
o bebê, recém-nascido, é retirado do berço pelo jovem casal, levam a cria até a janela e lhe apresentam a chuva, o deus hídrico do sertão.
o bebê parece sorrir.
outrora, ele vivia em um mundo hídrico, agora viverá nas intermitências sazonais.
aprenderá a amar a chuva, mesmo aquela fina e de gotas frágeis.
o cãozinho, biloca, sorrindo como sorriem os cães domésticos, lambe a água que cai do céu, não pra matar a sede, que não tem, mas para reviver a brincância canina dos tempos selvagens.
amanhã é dia de feira e não se falará em outra coisa.
até no relincho dos cavalos se ouve a fofoca sobre o tempo chuvoso.
águas abundam: gotejam, pingam, vazam, vertem, transbordam, esguicham, ejaculam, gozam.
o que antes faltava, agora farta.
grilos sorriem esfregando as suas finas canelas de serrote, as árvores dançam sacudindo as cabeleiras verdes.
o lobisomem, peludo e purulento, assustado, esconde-se numa gruta escura.
curupiras fazem a dança da chuva, deslizando um moonwalking pela mata viva.
tudo em volta é só alegria.
chove no sertão.
palavra da salvação.
*Lelê Teles é jornalista, roteirista e mestre em Cinema e Narrativas Sociais pela Universidade Federal de Sergipe (UFS)
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.
Lelê Teles
Lelê Teles é jornalista, roteirista e mestre em Cinema e Narrativas Sociais pela Universidade Federal de Sergipe (UFS).




Comentários
Nenhum comentário ainda, seja o primeiro!