Lelê Teles: Nunca mais acampei na Semana Santa

Tempo de leitura: 3 min
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Por Lelê Teles

Lelê no pandeiro amarelo e punkito,cabeludo, de camiseta preta ao seu lado

Por Lelê Teles*

quando eu era adolescente, todos os feriados eu saía com a minha turma para acampar.

o cerrado tem rios incríveis, com corredeiras, cachoeiras, cânions com paredões de pedras gigantes, além de ostentar uma fauna e uma flora exuberantes.

buscávamos, sempre, a beira de um rio ou de um córrego, para armar as barracas e montar a nossa pequena comunidade hippie.

passávamos o feriado todo fumando a erva do diabo, tomando banho de poço, se jogando de cachoeiras, tocando violão, bebendo vinho na boca da garrafa e experimentando chás de cogumelos mágicos.

anarquistas, éramos uma tribo sem cacique.

à noite, recitávamos poesias, namorávamos as estrelas e dançávamos em volta da fogueira.

quem cuidava da larica da molecada era o pequeno punkito.

ele improvisava um fogãozinho rústico, feito de pedras, e fazia o melhor macarrão com sardinha do mundo.

a prova disso é que, quando adulto, punkito se tornou chefe de cozinha, comandando o restaurante de um dos hotéis mais tradicionais de brasília.

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veja que delícia.

houve uma semana santa em que a moçada decidiu sair numa quinta-feira à noite e, dessa vez, não sei por que diabos, eu não tava muito afim de ir.

a amiga, helena de troia, passou em minha casa e pediu que eu a ajudasse a levar a barraca e as bagagens dela até o ônibus da excursão.

chegando lá, a moçada não me deixou voltar pra casa.

tive que ir, só com a roupa do corpo, mas impus uma condição: só iria se deixassem o xis ir também.

por alguma razão que desconheço, a moçada não queria que ele fosse, mesmo que a irmã e a namorada dele estivessem no ônibus.

mas o malandro foi esperto, amoleceu meu coração e me convenceu a convencer a galera.

fomos.

xis era, sem dúvida, o cara mais animado dentro do ônibus.

dessa vez fomos a uma cachoeira em cristalina, em goiás, nos arredores de brasília.

chegamos já com a lua alta.

armamos as barracas, tocamos violão, comemos, bebemos, dançamos e fomos para as barracas descansar, pra acordar bem cedo e desbravar a mata.

mas o xis preferiu ficar um pouco mais.

ele se deitou nas pedras e passou horas a fio ali, inebriado com o barulho das águas.

no dia seguinte, fizemos uma aposta pra ver quem chegava mais rápido, à nado, para se sentar nas pedras debaixo da cachoeira.

saltamos todos juntos e, ao chegar do outro lado, constatamos que faltava o xis.

e tempo foi passando e nada dele nadando.

lucky disse que viu quando xis saltou e que até chegou a tocar nele debaixo d’água, como se o xis tivesse preferido ir no mergulho.

mas aí, a irmã do xis apareceu, meio nervosa, e nos advertindo que não deixássemos o xis se aventurar no poço, porque ele não sabia nadar.

“como assim, ele não sabe nadar?”

entramos em desespero.

foi um corre-corre, um deus-nos-acuda, uma gritaria geral, ninguém sabia exatamente o que fazer.

até que, do nada, apareceu um adulto, que era bombeiro, perguntando o ponto exato onde o xis teria saltado.

o bombeiro mergulhou uma, duas, três vezes, até que, finalmente, emergiu com o corpo do nosso amigo.

já sem vida.

fez-se um silêncio ruidoso.

o ônibus só chegaria para nos buscar no domingo, e ainda era sexta-feira.

o carro do bombeiro havia quebrado.

a namorada do xis, num ato de amor e desespero, colocou o corpo dele no colo, como uma pietá, e ficou ninando ele até o final da tarde, quando chegou o socorro.

uma imagem tragicamente linda e dolorosa!

nunca mais acampei na semana santa.

sempre me lembro dele nessa data, ele implorando pra ir, ele sorrindo no ônibus, ele inebriado com a cachoeira, à noite, ele saltando com a gente pela manhã.

não, eu nunca me senti culpado pelo que aconteceu.

ninguém se culpou.

ele sabia que não sabia nadar.

e, no entanto, ele também não teve culpa.

palavra da salvação.

*Lelê Teles é jornalista, roteirista e mestre em Cinema e Narrativas Sociais pela Universidade Federal de Sergipe (UFS)

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

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Lelê Teles

Lelê Teles é jornalista, roteirista e mestre em Cinema e Narrativas Sociais pela Universidade Federal de Sergipe (UFS).


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