Por Lelê Teles
“não se curem além da conta. gente curada demais é gente chata. todo mundo tem um pouco de loucura…”, nise da silveira
Por Lelê Teles*
eu devia ter uns nove anos quando levaram o beto.
lembro-me que era um tempo de muita alegria, a molecada corria solta, livre e lépida pelas ruas nuas: a gente soltava pipa, saltava de cabeça nos córregos e bicas, inventava brinquedos e brincadeiras.
eu gostava de subir em árvores e de roubar frutas nos quintais.
tinha uma mangueira na vizinhança que só o beto conseguia alcançar o olhinho dela, que era o último galho no alto da árvore.
o beto sempre conseguia fazer coisas que a gente nem pensava em tentar.
quando o caminhão que fazia entrega de refrigerantes apontava no início da rua, era o beto que subia.
ele conseguia colocar até quatro garrafas dentro do calção.
depois a gente se sentava numa sombra e bebia refrigerante quente, em folgada alegria.
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o refri, quente, era horrível, gostoso era roubá-lo.
a molecada andava sem camisa, os pés, descalços e ligeiros, deixavam pelo caminho um rastro seco de poeira vermelha.
naquele tempo, a maior parte das ruas do gama nem eram asfaltadas, tinha muitos lotes vazios e menino demais fazendo algazarra até tarde da noite, sempre sorridentes.
viver era uma deliciosa alegria.
os cachorros andavam soltos pela rua e brincavam com as crianças, humanamente.
quando não estávamos jogando golzinho na rua, com traves feitas de chinelos, a gente jogava bola em um gramadinho perto do setor de indústria, próximo ao parquinho público, cercados por galpões em ruínas que projetavam sombras estranhas, pareciam horrendos monstros de concreto dormindo no calor do cerrado.
e lá, adiante, atrás dos chapiscos sujos de um muro alto e triste, ficava a tal casa de repouso são judas tadeu.
apesar do nome, era um lugar onde ninguém descansava.
os adultos falavam baixo quando passavam por ali.
“é melhor nem chegar perto, aquilo é lugar de doido”, aconselhavam.
eu sabia que o beto tinha sido levado pra lá, e sentia muita vontade de ir vê-lo.
mas o temor dos velhos me deixava apavorado.
o beto não era louco, o que ele tinha era excesso de mundo dentro dele.
o moleque fazia pergunta demais, corria demais, falava demais, era demasiadamente curioso e inventivo.
ele já tinha onze anos, quase doze, como ele disse, mas dava nó na cabeça dos garotos de quinze.
inventava máquina com lata de óleo, desmontava rádio velho, montava ventilador, arquitetava casinhas com gravetos, subia em árvore alta, respondia professor, perguntava por que deus nunca aparecia…
era um menino pardo e alegremente triste, magro, descabelado, cabeçudo e tinha duas orelhas enormes.
era também bastante energético, elétrico, impossível de conter.
era o tipo de moleque que, hoje em dia, receberia algum diagnóstico de nome estranho, entupiriam ele de remédios e passaria horas deitado num divã, falando sobre si mesmo.
beto não gostava de falar dele, ele gostava de falar do mundo.
estávamos no início dos anos oitenta, em plena ditadura militar. na escola era disciplina e correção, até os professores nos davam cacetadas.
ensinavam a gente a cantar o hino, hastear bandeira e imitar soldado, fazendo continência.
naquele tempo, menino inquieto demais, fora da curva, virava problema.
e problema se escondia.
a mãe dele, coitada, vivia cansada da lida diária, cuidando dos filhos dos outros, limpando a casa dos outros.
sem tempo pra viver a própria vida.
o pai, que trabalhava como um burro de carga, parecia ter vergonha do garoto. pra se livrar da aflição, ele bebia cachaça, batia na mulher e espancava o filho.
ele não gostava nenhum pouco do moleque, porque o beto era insolente, apanhava sem chorar e chamava o pai de covarde, o pai o chamava de doidim.
na escola, os professores diziam que o menino não parava sentado, conversava muito, não prestava atenção nas aulas.
tentar ensiná-lo era perda de tempo.
os vizinhos, adultos, zombavam dele, cochichavam pelos cantos que o garoto “não regulava bem”.
até que um dia, os pais decidiram se livrar daquela carga, pesada demais pra eles.
era uma sexta-feira, o céu tava dourado e o sol deslizava mansamente no horizonte, a molecada de nariz sujo jogava golzinho na rua.
a brincadeira parou quando uma rural azul avançou, buzinando.
abrimos caminho, o carro estacionou em frente à casa do beto, bateram as portas com força.
desceram dois homens vestidos de branco, como se fossem médicos, o pai do beto desceu em seguida.
fez-se um silêncio estranho e inquietante.
o beto apareceu no portão, descalço, de shorts e sem camisa.
a mãe deu um longo abraço no filho, como uma despedida.
beto fez uma cara de espanto.
o pai balançou a cabeça, autorizando os homens de branco a pôr as mãos no garoto.
tomaram ele pelo braço como quem pega um bandido.
surpreso, mas prevendo o que acontecia, beto esperneou e começou a gritar loucamente:
“me larga, me solta, eu não sou doido, eu não sou doido….”
repetiu isso inúmeras vezes e continuou a gritar mesmo quando já tinha sido jogado dentro do carro.
o veículo arrancou e, ao passar pela molecada, vimos, o desespero, a agitação e os berros surdos e desesperados do nosso amiguinho.
aqueles gritos ecoam na minha cabeça até hoje.
ninguém fez nada.
as vizinhas só espiavam pelas janelas, curiosas e amedrontadas.
a pelada acabou. acabou o clima.
entrei pra casa.
mamãe chorava baixinho, lavando os pratos, impotente.
eram tempos em que os adultos tinham medo de tudo: dos homens do exército, da polícia fardada, de fazerem vergonha aos vizinhos…
as mulheres tinham medo dos homens, sobretudo dos maridos.
nunca mais vimos o beto.
até que um dia criamos coragem, eu e meus amigos, e nos aproximamos do manicômio, pra onde haviam levado o nosso amiguinho.
o prédio era horrível, de uma arquitetura brutalista, rústica e pesada.
a fachada sangrava uma pintura desgastada, as paredes exibiam cantos carcomidos, com tijolinhos vermelhos à mostra.
as janelas eram gradeadas e, por trás de uma delas, vi uma mulher fraca e triste, com um olhar vazio, fitando o infinito.
não vimos o beto, mas ouvimos muitos gritos sombrios vindos daqueles corredores escuros.
nunca mais voltamos lá.
o tempo foi passando como passa a poeira no cerrado: vagarosa, cobrindo tudo com seu manto diáfano.
o campinho virou estacionamento, os galpões cresceram, derrubaram muitas árvores…
gramaram tudo, colocaram calçadas, nunca mais vimos um redemoinho, a poeira sumiu.
vieram igrejas, farmácias, semáforos…
as carroças foram substituídas por automóveis.
chegaram edifícios residenciais muito altos e frios.
a gente também cresceu.
cresceram, barbas, bigodes, as meninas passaram a usar batom.
um dia, por força da lei, fecharam o hospício.
mas o beto não voltou pra casa.
muitos não voltaram.
quando desativaram o manicômio, pediram aos parentes que recolhessem os internos, mas a maioria foi ignorada pela família.
ficaram vagando pelas ruas da cidade, como molambos humanos, indesejados.
aquele labirinto de almas enlouqueceu todas as pessoas que passaram por lá, inclusive o beto.
ouvíamos histórias horríveis daquele lugar: de gente amarrada, torturada, de pessoas que eram dopadas até apagar, que sofriam com o abandono dos parentes, com o isolamento em quartos escuros, falavam de eletrochoques, castigos físicos e psicológicos…
o beto entrou lá menino.
saiu velho por dentro.
foi assim que o vi, num final de tarde, repentinamente.
ele estava sentado sozinho na rodoviária, olhando o movimento como quem observa um planeta desconhecido.
fiquei um tempo olhando pra ele.
o corpo era de homem, mas os olhos pareciam presos em algum lugar da infância.
tremia um pouco, as mãos inquietas, as unhas grandes e imundas, a cabeleira suja e descuidada.
falava sozinho, tinha medo de toque, medo de barulho, medo de gente.
mas tava ali, absorto, perdido, solitário no meio da multidão.
o menino que perguntava sobre estrelas havia se tornado um satélite ignoto, sua presença era muito distante.
lembro de ter sentado ao lado dele sem saber o que dizer.
ele me olhou e foi como se não me visse, os olhos mudos.
ficamos um tempo ali, em silêncio, vendo os ônibus que chegavam e partiam.
até que ele se virou e me perguntou, com uma voz quase infantil:
“ainda existe o pé de manga da nossa rua?”
eu não sabia o que responder, engoli uma bola de fogo que me rasgou a garganta.
porque o pé de manga já não existia, não existia mais o campinho, aquelas ruas cheias de poeira vermelha também já não estavam mais por lá.
suspirei fundo e, num só fôlego disso tudo isso a ele.
e, enquanto ele me olhava, vi em seus olhos o olhar daquela mulher da janela gradeada.
suspirei fundo e pensei: “é isso, o próprio beto também já não existe mais. levaram embora, dele, muito mais do que vinte anos. levaram o mundo que ele conhecia.”
o beto tava completamente perdido!
algo em mim também se perdeu com aquele encontro, algo que eu tenho certeza que nunca mais vou encontrar.
até hoje eu choro quando penso no beto.
não sei se ele entrou num daqueles ônibus e partiu.
não sei se ele se partiu entrando debaixo de um ônibus.
só sei que ele não era mais ele.
nunca mais vimos o beto.
palavra da salvação.
*Lelê Teles é jornalista, roteirista e mestre em Cinema e Narrativas Sociais pela Universidade Federal de Sergipe (UFS)
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.
Lelê Teles
Lelê Teles é jornalista, roteirista e mestre em Cinema e Narrativas Sociais pela Universidade Federal de Sergipe (UFS).




Comentários
Jandiro Arão
Confesso que também estou chorando nesse momento, é extremamente difícil admitir e compreender o quanto a ignorância pode fazer mal pra si e pra outras pessoas. Talvez com os recursos de hoje em dia o Beto possivelmente seria considerado um gênio ao invés de louco, talvez ia apenas talvez a família tivesse um pouco de empatia e não deixasse um ente querido ser submetido a esse tipo de “tratamento” tão comum para época.
Parabéns ao Lele Telles tá mais uma brilhante crônica recheada de realidade e verdades incômodas. Que cada um de nós que possui um Beto dentro de si possa reconhecer que o princípio da insanidade também reside na falta de empatia. Longa vida ao Beto!!!