Gilberto Maringoni: A torcida pelo Oscar foi legal; ali jogamos no campo do adversário

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Por Gilberto Maringoni*, em perfil de rede social

Saí, como toda/o brasileira/o frustrado da cerimônia do Oscar deste domingo.

Aliás, saí duplamente, pois embora torcesse pelo ‘Agente secreto’, gostaria que dois filmes recebessem a estatueta de melhor produção estrangeira: o nosso e o excepcional e necessário ‘A Voz de Hind Rajab’.

A fita tunisiana exibe a história da menina palestina de 6 anos assassinada no carro de sua família por forças israelenses em Gaza, em 2024. O ator principal, Motaz Malhees, foi proibido de entrar nos EUA nesta semana.

A torcida faz parte do evento, mas é sempre preciso dar uma de chato: o Oscar não é a olimpíada mundial ou o campeonato internacional do cinema. É uma cerimônia anual da indústria cinematográfica estadunidense e ponto.

Sua primeira edição aconteceu em 1929, sob o patrocínio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, que congrega profissionais do setor, críticos e jornalistas e é patrocinada pelos monopólios do audiovisual do Império.

Em 1957, no meio da Guerra Fria, abre-se a categoria ‘Melhor filme estrangeiro’.

O cinema, como todos sabem, faz parte do aparato de difusão ideológica da potência hegemônica. Não tenho dúvida que o cinema norteamericano é o melhor do mundo.

Isso se dá pela genialidade de diretores, roteiristas, produtores, técnicos e artistas amparados pela infindável capacidade da indústria em amealhar fartos financiamentos e de possuir imenso poder de comercialização e distribuição ao redor do planeta. Aliás, é a grana farta que dá a possibilidade de Hollywood recrutar os melhores profissionais do mundo.

A categoria de ‘Melhor filme estrangeiro’ faz parte das habilidades do país hegemônico em exercer seu poder brando (soft power) diante do mundo. Em outras palavras, sua capacidade de sedução ideológica, ou de convencimento, se pensarmos hegemonia nos moldes gramscianos de coerção e convencimento.

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A Academia laureou 69 filmes estrangeiros desde que a categoria foi instituida. Só por curiosidade, resolvi contabilizar a divisão por continente de origem dessas produções. Eu me espantei com algo que não deveria me espantar. Vejam minha conta de padaria:

* Separei URSS/Rússia de Ásia por sua característica híbrida, euroasiática
** Dois são filmes iranianos
*** Decidi separar Canadá de América do Norte para não causar confusão

Assisti quase metade dessas fitas. São obras-primas, algumas delas claramente de denúncias de ações dos EUA, como entre outros os argentinos ‘A história oficial’ e ‘O segredo de seus olhos’ e o brasileiro ‘Ainda estou aqui’.

Chamo atenção, contudo, para o viés Norte Global da maioria dos escolhidos. Dos 69, temos 53, se incluirmos os 2 japoneses. Isso dá 78% do total. É certo que produções estrangeiras podem concorrer em outras categorias, mas me ative aqui apenas à uma modalidade específica. Ela dá ideia do viés da premiação.

Alguns podem alegar que a maior quantidade de produções provém dos EUA e da Europa para justificar a proporção de distinções. OK. Mas aí não conseguiremos explicar como a Índia, que coloca nas salas e no streaming centenas de atrações ao ano, nunca tenha merecido um Oscar de Melhor filme estrangeiro.

Enfim, não quero aqui justificar minha frustração com a premiação do norueguês ‘Valor sentimental’, um belo filme, mas sem temática ou abordagem original. Quero apenas dizer que ganhar o Oscar é bacana, tendo em mente que ali jogamos no campo do adversário.

Eu sei, eu sei. Dá um tremendo gosto golear no terreno dos outros em jogo apitado pelos juízes deles. Desculpem o lugar-comum, mas a vida é assim.

*Gilberto Maringoni é jornalista e professor de Relações Internacionais na Universidade Federal do ABC (UFABC).

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo

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