Pedro Pinho: A governança brasileira e as eleições de outubro

Tempo de leitura: 4 min
Esta ilustração, de 1905, do cartunista estadunidense Louis Dalrymple é atual. Tio Sam gigantesco, com um pé na América do Norte e o outro na América do Sul, e, na mão, o porrete com a inscrição “Doutrina Monroe”

Por Pedro Augusto Pinho*

Neste início de ano, as pesquisas de intenção de voto visando às eleições de outubro de 2026 ainda não merecem muita credibilidade. Porém, já se vislumbra algum desinteresse no pleito, o que não deveria acontecer, já que ele ocorrerá num mundo em guerra.

E por quê?!

Porque mesmo geograficamente longe do Brasil, esta guerra toca no petróleo.

Não se pode dizer que é mais uma disputa, pois ela começou na década de 1960, quando os consumidores ocidentais perderam o controle sobre as reservas de petróleo e passaram e tentar o domínio com uma “transição energética”. Transição que é, verdadeiramente, uma “regressão energética”.

É muito importante que o leitor esteja bem informado sobre a questão energética, pois ela definirá a capacidade do país, qualquer que sejam seus recursos naturais, de ter ou não autonomia decisória.

Os valores que utilizaremos são os divulgados por estas duas fontes:

Agência Internacional de Energia (IEA), em Paris (França)

Statistical Review of World Energy, do Energy Institute, em Londres (Reino Unido), uma parceria da British Petroleum (empresa britânica de petróleo) com as empresas de auditoria KPMG (auditoria) e Kearney (consultora de negócios), localizadas respectivamente nos Países Baixos e EUA.

Sumariamente, com dados de 31/12/2025, a matriz energética mundial foi composta por 82% de energia fóssil, 14% de energias de fontes renováveis e 4% de energia nuclear, com consumo anual equivalente a 107 bilhões de barris (considerando um barril equivalente a seis gigajoules de energia), o que representaria para o petróleo em torno de 40/45 anos de consumo.

Apoie o VIOMUNDO

No entanto, todos estes números são questionáveis.

Primeiro, porque seus informantes os computam como se fossem dados homogêneos as produções de folhelhos betuminosos (abundantes no Canadá e nos EUA) e aquelas das rochas porosas de arenitos, preponderantemente, dos reservatórios de petróleo, por todo resto do mundo.

Segundo, porque as fontes ditas renováveis são de naturezas distintas. A biomassa advém de um investimento contínuo na sua produção, seja vegetal seja animal. Porém, tanto a energia eólica quando a de placas solares têm duração indeterminada, dependente das manutenções, ou seja, de custos operacionais, não de novos investimentos.

Terceiro, atualmente as energias da biomassa são cada vez mais homogeneizadas com as energias do óleo e do gás natural, formas nas quais se apresenta o petróleo.

E, provisoriamente concluindo estas considerações, o fato de dispor de recursos energéticos não significa que o país seja soberano. É imprescindível a decisão política, e aí temos a discussão sobre a governança do País.

O Brasil tem muito mais do que necessita para suprir de energia todas as suas necessidades, nas diversas formas que existem no território nacional.

Temos água dos inúmeros cursos d’água, do rio Amazonas ao córrego do quintal, capazes de produzir hidroeletricidade.

Temos áreas igualmente abundantes para produção da biomassa, animal e/ou vegetal.

Temos insolação para as placas solares em todo território nacional.

E temos petróleo em abundância, podendo produzi-lo para as necessidades nacionais e para ganhos comerciais com a exportação.

Apenas na área da energia nuclear, os que governaram o Brasil a partir de 1979 tudo fizeram para riscar da capacidade nacional o desenvolvimento da energia atômica.

Vê-se, portanto, a importância de escolha dos candidatos.

E, assim, não devemos cair nas falsas opções que nos são empurradas pelas pesquisas. Aquelas que são apontadas como as que mais nos afligem não são causas mas consequências da inexistência de um projeto de Brasil.

Se afirmamos assim é porque o nosso País é único, aqui não cabe — e erram ao tentar transplantar — o que eventualmente beneficiou um ou mesmo uns poucos países.

Primeiro, pela extensão e riqueza do território brasileiro. Segundo pela formação, mesmo intelectualmente falha, mas que está em nossa formação miscigenada e mística, não religiosa.

Ao tratar da governança surgem logo dois grupos de decisões a serem adotadas:

— Aquelas relativas à própria autonomia decisória, ou seja, à capacidade de o país ter decisões que surjam de sua história e cultura e, primordialmente, atendam a sua população.

— E no outro grupo, formar o próprio povo e lhe oferecer todas as condições para se desenvolver, ou como escreveu Confúcio (552 a.C. – 489 a.C.), em “Os Analectos”: “velar para que o povo tenha suficientes víveres, suficientes armas, e assegurar a sua confiança”.

SOBERANIA E CIDADANIA

Como afirmamos, as pesquisas de opinião de voto ainda estão na fase da campanha eleitoral.

Em decorrência, os temas que mais despertam atenção são aqueles que melhor se ajustam às campanhas dos candidatos “patrocinados”. Deles, sobressai a segurança, de grande interesse para os bolsonaristas e para a direita, em geral.

Mas o que mais angustia o povo, na sua imensa maioria, é a luta pelo pão de cada dia, nem que lhe seja fornecido pelo “dono da favela”.

O que significa a fome? A recente decisão governamental de ampliar os limites de isenção do Imposto de Renda, que equivale ao aumento salarial da parcela isenta, foi de diversos modos tentado demonstrar, pelos mesmos que consideram a segurança o maior eleitor, como irrelevante, não ter surtido efeito.

Observe, caro leitor, que todos os dados são apresentados como o Brasil fosse um país de classe média, quando quase 90% da população se mantêm com menos de dois salários mínimos.

Assim, ou temos uma classe média que vive com pouco mais de salário mínimo e meio ou o Brasil é um país de pobres, com uma minoria de abastados, o que está, a nosso ver, bem mais perto da realidade. E, também, explica a corrupção ou ganhos à margem da contabilidade nacional.

Temos então um país onde o informal superou o legal, e que se proclama democrático e republicano, quando o é do compadrio e do jeitinho.

Logo, a plataforma eleitoral, para qual deveria convergir a imensa maioria dos eleitores, é a da institucionalização do Brasil.

O que significa a institucionalização do país?

Que ele não seja privatizado, para o que trabalharam com empenhos diversificados, mas todos dirigentes e estão fazendo todos políticos eleitos desde 1990. A democracia passou a ter sua constituição no decálogo do Fundo Monetário Internacional (FMI) denominado “Consenso de Washington”.

Um país privatizado é um país do crime, ou seja, dos ilícitos diversos.

Basta que pague o que lhe for cobrado, desde uns trocados para o guarda não olhar o estacionamento irregular até a ninfeta para prazer do velho imoral. Por isso existem os “Daniel Vorcaro”.

E que já estão votando desde agora para evitar surpresas desagradáveis no dia das eleições de outubro.

O fim do sistema ideológico neoliberal seria o programa mais necessário para o Brasil de 2026. Como o “tenentismo” deu um tempo para o Brasil se desenvolver entre 1930 e 1979.

*Pedro Augusto Pinho, administrador aposentado.

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo

Apoie o VIOMUNDO


Siga-nos no


Comentários

Clique aqui para ler e comentar

Nenhum comentário ainda, seja o primeiro!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


Leia também