VIOMUNDO

Diário da Resistência


Vergonha no Japão: Bolsonaro fala sobre bijuteria, sem ter noção do escândalo que envolve o nióbio no Brasil
Com os colegas Helio Alvarez, Paulo Bolívar e Domingos Mascarenhas, antes de uma viagem de trem entre Moscou e Leningrado, na União Soviética, anos 80. Foto arquivo pessoal
Opinião do blog

Vergonha no Japão: Bolsonaro fala sobre bijuteria, sem ter noção do escândalo que envolve o nióbio no Brasil


28/06/2019 - 00h50

por Luiz Carlos Azenha

Como correspondente, durante quase 20 anos cobri vários eventos internacionais, e visitei cerca de 50 países.

Na política, ficaram mais frescas na memória a visita de José Sarney à China, a do presidente eleito Fernando Collor ao Japão e a de Lula ao Haiti, acompanhando a seleção brasileira de futebol (passei mal por causa do calor e por pouco não acionei a Globo por apoio médico).

Estes eventos são frequentemente mais descontraídos, menos protocolares, já que giram em torno do encontro de apenas dois chefes de Estado.

Encontros de cúpula são muito mais formais, especialmente quando o futuro do planeta está realmente em jogo: foi assim quando vi Mikhail Gorbatchev e Ronald Reagan se encontrarem três vezes, primeiro em Reykjavik, na Islândia, depois em Moscou e Washington.

Ali ficou claro que era questão de tempo o Muro de Berlim desabar, o que também testemunhei pessoalmente. Foi o início de uma nova era na política internacional.

Finalmente, existem os eventos multilaterais. Frequentemente eles são menos ricos em notícias realmente importantes mas atraem uma tropa de jornalistas especializados, interessados em temas muito específicos.

O repórter russo quer saber do encontro entre Trump e Xi Jinping por causa da guerra comercial que tem repercussões planetárias, a repórter paquistanesa quer ver Putin com Modi pela implicações que isso pode ter na disputa fronteiriça entre Paquistão e Índia e a entrevistadora alemã vem ouvir Bolsonaro antes de um provável encontro com Angela Merkel, por causa dos contenciosos em torno da preservação ambiental entre Brasil e UE, notadamente Alemanha, França e Noruega.

Já estive na babel de repórteres e fotógrafos guiados por assessores feito gado até o Salão Oval da Casa Branca, a entrada do Palácio do Eliseu em Paris, o Grande Palácio do Povo em Beijing e o gigantesco Kremlin, em Moscou — onde, aliás, dei sorte, encontrei Mikhail Gorbatchev caminhando pelas alamedas com seus seguranças e, depois de tomar uns tapas, consegui a primeira entrevista não agendada com um secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética.

O evento fez as redes norte-americanas ABC, NBC, CBS e CNN baterem na porta de meu quarto de hotel em busca das imagens e saiu no Pravda e no Vremya, o Jornal Nacional de lá, tudo por causa do completo ineditismo.

Para os mais jovens, explico que os antecessores de Gorbatchev, como Leonid Brezhnev, se comportavam como verdadeiras múmias, muitas vezes reduzidas a figurantes de um poder que de fato já nem exerciam.

Mantinham distância quilométrica da imprensa e só se manifestavam em discursos escritos, sem qualquer improvisação.

A não ser por estes momentos simbólicos, de um Gorbatchev que surpreende o mundo com seu carisma e descontração, os encontros entre chefes de Estado frequentemente são arrastados, cheios de protocolo e muito chatos de cobrir.

Em geral, a diplomacia já fez todo o trabalho anterior e os líderes apenas formalizam algumas decisões, avançando outras de acordo com a capacidade de dialogar e aglutinar líderes em torno de suas propostas, processos que sempre, se derem frutos, serão de longo prazo.

Eu já me deparei com situações cômicas na cobertura de líderes, como quando um caminhão dos grandes estacionou ao lado do prédio do hotel Waldorf Astoria, em Nova York, exclusivamente para transportar ao aeroporto as malas da gigantesca delegação que o ex-presidente José Sarney levou a uma assembleia geral das Nações Unidas.

A TV Manchete, então devedora do Banco do Brasil e pendurada no governo, não pôs no ar a reportagem que fiz a respeito, mas outros colegas testemunharam — a repórter Renata Lo Prete, então na Folha de S. Paulo, viu o mesmo que eu e conseguiu emplacar a notícia no jornal.

É óbvio que, desde então, as redes sociais transformaram as comunicações institucionais e o próprio ciclo da notícia.

Por isso, os tweets de Donald Trump durante a cúpula do G-20 no Japão vão ser acompanhados de perto.

Porém, do que vi até agora, a viagem de Jair Bolsonaro pode estabelecer um novo recorde na degradação da política externa brasileira, mesmo no nível apenas formal, da simples educação com repórteres brasileiros e estrangeiros, para não falar de bobagens elevadas a assuntos de Estado.

Dois exemplos aparecem no vídeo acima.

Num deles, o mais bizarro, Bolsonaro conseguiu falar da bijuteria de nióbio sem dizer uma única palavra sobre a importância do nióbio brasileiro e o que está acontecendo com nossas reservas.

Por isso, o Viomundo trouxe de volta para a capa do site a reportagem de Marco Aurélio Carone sobre o escândalo do nióbio de Araxá, que ele fez na forma de uma carta a Rodrigo Janot e Raquel Dodge.

Resumo: uma empresa estatal fixa seu teto de lucro em contrato, permitindo que a sócia privada fique com 75% do faturamento!

Suspeita-se que parte deste faturamento seja desviada para uma conta em Cingapura.

Curiosamente, a Lava Jato ainda não tem um núcleo de investigações em Minas Gerais. Não tem corrupção lá, é? Ou o Aécio Neves é uma “pessoa engraçada” — como o definiu o ex juiz federal Sérgio Moro, agora ministro da Justiça?

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A publicação traz uma coletânea de artigos produzidos por um dos maiores especialistas do Brasil no tema da democratização da comunicação.

Por Laurindo Lalo Leal Filho



4 comentários

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Zé Maria

28 de junho de 2019 às 16h32

O Jornalista Luiz Carlos Azenha
é uma das poucas pessoas do Planeta
que póde afirmar que “Viu o Mundo”.

E o Apreço pela Verdade Factual,
às vezes até de forma obsessiva,
e o desapego pelo dinheiro fácil,
é o que o diferencia da Maioria.
Não diferente, nesses aspectos,
é a Jornalista Conceição Lemes,
especialista na área da Saúde,
co-administradora deste Blog,
que não é financiado nem por
empresas nem por governos.
Por tudo isso se pode afirmar,
sem erro, que o Viomundo é
um Blog, de Linha Editorial
de Esquerda, Confiável.

https://www.saraiva.com.br/edicao-antiga-vi-o-mundo-o-que-voce-nunca-pode-ver-na-tv-2786892.html
https://www.amazon.com.br/lado-sujo-do-futebol-ebook/dp/B00KPVCO30
http://www.abrea.com.br/not%C3%ADcias/novidades-e-eventos/128-concei%C3%A7%C3%A3o-lemes.html
https://blogdacidadania.com.br/2010/06/o-livro-de-conceicao-lemes/

Responder

Jenifer Benacci

28 de junho de 2019 às 09h13

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk eu morro de rir desse ser.

Responder

henrique de oliveira

28 de junho de 2019 às 08h54

Foda se o nióbio , o problema é a água.

Responder

João

28 de junho de 2019 às 07h33

FORA DE PAUTA PORQUE É O ASSUNTO DO MOMENTO

ELES ESTÃO QUERENDO BLINDAR QUEM?

Aeronáutica impõe sigilo à investigação de militar preso com cocaína
O que há para esconder?

Publicado em 27/06/2019 no Conversa Afiada

De Jussara Soares, no Globo Overseas:

Aeronáutica impõe sigilo nas investigações em caso de militar preso na Espanha

O Comando da Aeronáutica impôs sigilo na investigação envolvendo o caso do militar preso na Espanha, sob suspeita de tráfico de drogas. Em coletiva à imprensa na tarde desta quinta-feira, a corporação não esclareceu se o sargento Manoel Silva Rodrigues, de 38 anos, flagrado com 39 quilos de cocaína em sua bagagem, na terça-feira, passou por uma inspeção na base aérea de Brasília antes de embarcar.

Sob alegação de que o inquérito policial militar (IPM), instaurado na quarta-feira, está sob sigilo, também não houve esclarecimento se, nesta viagem, a equipe de apoio foi submetida a uma vistoria antes da decolagem.

– Especificamente deste caso, é objeto da investigação. E está sob sigilo. Quando for concluído o inquérito, que tem a data de 40 dias mais 20 dias, vai ter a conclusão deste processo – alegou o porta-voz da Aeronáutica, major aviador Daniel Rodrigues Oliveira.

(…)

https://www.conversaafiada.com.br/politica/aeronautica-impoe-sigilo-a-investigacao-de-militar-preso-com-cocaina

QUE TAL o Moro fazer uma proposta de delação premiada ao sargento Manoel Silva Rodrigues, “o dono” dos 39 kg de cocaína? Seria uma ótima oportunidade de abrir um inquérito contra Lula e Dilma, como sugeriu nas entrelinhas o ministro da educação, por tráfico INVISÍVEL de drogas. E a argumentação que levaria Dilma à cadeia seria: ninguém viu, ninguém constatou, mas que ocorreu, ocorreu. E Lula pegaria mais uns 20 anos de prisão.

Porra! Eu já estou arrependido dessa sugestão.

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