VIOMUNDO

Diário da Resistência


Opinião do blog

Soberania relativa. Você ainda vai ter uma


05/05/2011 - 02h31

por Luiz Carlos Azenha

O mundo em que vivemos, de crescente interconexão econômica entre estados soberanos, pede um número cada vez maior de organismos multilaterais para promover a resolução de conflitos e garantir que isso se dê com equilíbrio diante de interesses divergentes.

O acesso de um número cada vez maior de países às novas tecnologias, de impacto regional ou global, requer isso. Antes a necessidade de respeito à soberania alheia estava ligada, em grande medida, à exploração de recursos naturais comuns. Um rio, por exemplo. É óbvio que o Brasil deve satisfações à Argentina quando falamos da bacia do Prata. O mesmo vale para o Peru em relação ao Brasil, quando tratamos da bacia Amazônica.

A exploração da energia nuclear, para dar um exemplo atual, abriu um novo campo de debate sobre o conceito de soberania relativa. O Japão deve satisfação aos vizinhos sob risco de contaminação por conta dos vazamentos em Fukushima.

Tudo isso — e mais a decadência econômica relativa — põe em risco o poder dos que antes eram todo-poderosos. Exemplo: os cincos países com poder de veto no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

As crescentes amarras do multilateralismo colocam em xeque o poder de quem sempre mandou.

Qual é a resposta dos que se acreditam diminuídos pela ameaça ao status quo? É a imposição de novos conceitos de soberania relativa, distorcidos de tal forma que na verdade servem como instrumentos de preservação de poder.

No campo diplomático, com uma boa dose de hipocrisia, é a defesa de “certos” Direitos Humanos. Sim, eu sei, todos nós devemos defender os Direitos Humanos. Dos cubanos, mas também dos sauditas. Dos líbios, mas também dos iemenitas. Dos prisioneiros de Guantanamo, mas também das minorias étnicas da China. No campo do palavreado, é tudo muito bonito. Mas, no campo da relação entre estados, sabemos que é mais provável a condenação internacional de Robert Mugabe, do Zimbábue, do que do emir do Bahrein, Hamad bin Isa Al Khalifa, ambos acusados de esmagar a oposição política.

Não, não se trata da cor da pele, nem dos olhos. Vejamos: Mugabe promoveu uma reforma agrária que prejudicou interesses britânicos, enquanto Khalifa sedia em seu reino a Quinta Frota, a mais importante dos Estados Unidos. Ah, quanta diferença…

O que nos leva ao campo militar, onde a artimanha das guerras permanentes — contra as drogas, contra o terrorismo — serve exatamente ao mesmo fim.

A despolitização da política, ou seja, a militarização da resolução de conflitos serve… a quem tem força.

A amnésia histórica é um componente essencial desta equação, já que o país que varre o mundo caçando terroristas abriga em seu solo um cidadão que ajudou a executar a derrubada de um avião civil, em 1976, causando a morte de 73 pessoas. Falo de Posada Carriles.  Ah, mas avião da Cubana de Aviación não conta… Da PanAm, em Lockerbie, aí é terrorismo. E não foram exatamente os irlandeses católicos da região de Boston que financiaram o IRA, que usou táticas de guerra assimétrica na Irlanda do Norte? Ao que me consta, nenhum deles foi parar na cadeia por financiar terroristas.

As trajetórias de Manuel Noriega, Saddam Hussein e Osama bin Laden são exemplares.

Antes: informante da CIA, aliado militar contra o Irã, “freedom fighter” contra os soviéticos no Afeganistão.

Depois: traficante de drogas, monstro carniceiro, inimigo público número um.

Quando a Colômbia violou a soberania do Equador para caçar Manuel Reyes, das FARC, estava apenas aplicando na América do Sul a teoria da “soberania relativa”, que nasceu como piração hegemônica dos neocons mas agora é política de estado turbinada pelos drones. A lógica é a mesma. Foi aplicada na caça a suspeitos no Iêmen, no sequestro de suspeitos na Europa e, em breve, estará entre nós, provavelmente em algum lugar da região da Tríplice Fronteira.

Curiosamente, grandes barganhas são feitas em torno da soberania relativa. Mate os seus chechenos, que eu mato os meus pashtun, você mata os vossos tibetanos e eles que se contentem com líbios e marfinenses.

Será que o Itamaraty, sonhando com o dia em que faremos parte do clube, aderiu? Quantas divisões tem o barão do Rio Branco?

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19 comentários

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Luiz S

12 de março de 2012 às 16h11

Discernimento:Grupos humanos nomades imigraram e criaram territorios e ao se integrarem fortaleceram nações!Se adquiri nacionalidade nascendo no territorio ou se naturalizando.Raizes estão onde se tira o sustento da familia,educação e saude!Não se pode instituir estudos academicos que diferenciam nacionais segundo origens antepassadas pois, somente faz aflorar discriminações,insurgencias e conflitos ou (no dividir e conquistar!)!É uma traição a nação a aceitação por aqueles que deveriam zelar pela soberania plena aceitar subservientemente a soberania relativa, impostas pelos interesses alienigenas com apoio de grupos economicos,como acontece coma Australia!Soberania relativa é mais um instrumento de sujugação de nações não nucleares assim como os organismos internacionais!.O Brasil nação continental legada de nossos antepassados oriundos de diversas parte do mundo com muita luta, sangue e ousadia, se nãofosse as traições e subserviencias já deveria estar dentre as quatro grandes potencias:economica e belica.

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Bernardino

06 de maio de 2011 às 10h30

Parabéns,Augusto,nós comungamos com a mesma opiniao.O GEISEL era militar foi presidente na ditarura,porem foi mais Nacionalista que os pilantras que vieram depois,faz exceçao o pres LULA.
Lembro-me o Geisel em 1974,quando reconheceu a CHINA e pisou no pescoço do Frota ,ministro de exercito de entao e ainda reconheceu Angola recem independente contra a vontade de TIO SAM,.
Mais na ONU mandou o embaixador brasileiro votar contra o SIONISMO,fez o Pro alcool e a industria petroquimica.Outrossim era de origem alemã e nao gostava de Ianques.
Fica como registro os três: GETULIO<GEISEL E LULA.

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FrancoAtirador

05 de maio de 2011 às 18h05

.
.
QUAL É A MORAL DA HISTÓRIA?

Suponhamos que um ex-guerrilheiro italiano,
considerado um "terrorista" fugitivo pelo governo da Itália,
estivesse clandestinamente em território brasileiro,
portanto sem o conhecimento do governo do Brasil.

Suponhamos então que o governo italiano,
também desconhecendo o paradeiro do foragido,
resolvesse investigar a sua exata localização,
para, uma vez localizado, "tomar as providências necessárias".

Suponhamos que, durante o período de investigação,
o governo da Itália tenha prendido e torturado
uma série de pessoas ligadas ao "terrorista",
para obter as informações desejadas.

Suponhamos que o serviço secreto italiano,
depois de 10 anos, descobrisse que o famigerado bandido
se escondia numa mansão em uma praia brasileira,
mais precisamente em Copacabana, no Rio de Janeiro.

Suponhamos que, a partir disso, o governo italiano
decidisse montar uma operação militar secreta,
para eliminar o fascínora "terrorista" ameaçador,
pois era considerado o "inimigo nº 1" da Itália.

Supunhamos que secretamente, à meia-noite de um 1º de maio,
um grupo de militares italianos, a bordo de helicópteros de guerra,
invadisse o espaço aéreo brasileiro, pousasse em Copacabana
e se deslocasse até a mansão do "bandido" italiano.

Supunhamos que os militares italianos arrombassem a casa,
metralhassem o "terrorista assassino", além de fuzilar sua família,
arrastassem os corpos dos mortos até um dos helicópteros,
levantassem vôo e os jogassem na Baía da Guanabara.

Suponhamos que, após isso, o grupo de elite militar italiano
retornasse tranquilamente à Itália, sem que o governo do Brasil,
em momento algum, estivesse a par da operação estrangeira,
realizada de forma ilegal e unilateral, em território brasileiro.

Suponhamos que, horas depois, o primeiro-ministro da Itália
viesse a público, através das redes de emissoras de TV italianas,
e comunicasse ao mundo o ocorrido, relatando a operação militar secreta
e afirmando, sob os aplausos efusivos e eufóricos do povo italiano,

que tudo foi feito em nome da mais absoluta Justiça…
.
.
Qual é a moral da história?

Pois é…

ALÉM DE ILEGAL, É AMORAL !
.
.

Responder

Luiz

05 de maio de 2011 às 16h43

A reportagem seguinte é verdadeira?
"O consultor, o motorista e Niger" no blog da tia Carmela: http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EM…

Responder

ninguém merece

05 de maio de 2011 às 14h49

Quem indicou o chanceler Patriot deve estar gostando de sua atuação.

Responder

    Guanabara

    05 de maio de 2011 às 20h15

    Patriot e Johnbin são da cota da Hillary.

    Pedro1

    05 de maio de 2011 às 22h03

    Johnbin está sob controle. Assim como o Tony. Atualmente o mais fraco, disparado, é o Patriota.

r godinho

05 de maio de 2011 às 14h30

Os primeiros revolucionários achavam que o comunismo ia unificar o mundo e acabar com as divisões nacionais. Pobres parvos. O capitalismo se unificando em todo o mundo. Este século não acaba sem um governo global e capitalista.

Responder

Mário

05 de maio de 2011 às 14h26

Excelente texto, Azenha. Só pra variar.

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fernandoeudonatelo

05 de maio de 2011 às 12h59

Soberania não se barganha, ponto final. Os países devem entrar em acordo mútuo, cooperação e reciprocidade técnico-científica, economica, comercial, estudantil e etc.

Podem e devem até prestar contas de atividades, a princípio, maléficas para o bem-estar de povos terceiros e ecossistemas próximos.

Mas, nunca barganhar a soberania, em troca de brinquedinhos de guerra oferecidos como compra de prateleira, em pacotão "vinculado", como o Departamento de estado americano adorava fazer. Isso não é contrapartida nem aqui nem na lua.

Ou em troca de assentos permanentes com promessas vazias, sem poder de veto e sem representar os interesses do conjunto de países independentes no mundo.

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Ana Cruzzeli

05 de maio de 2011 às 12h26

Talvez e só talvez o Ministro das relações exteriores tenha sido informado que a captura do ¨MAIOR TERRORISTA DO MUNDO ¨ ( risos, risos e mais risos ) tenha sido feita em conjunto com os paquistaneses, haja visto que esses são uns dos maiores LACAIOS preferidos do IMPÉRIO DO MAL até com verba liberada em ORÇAMENTO IANQUE.
Só por esse pequeno grande detalhe que o NOSSO AMADO ministro das relações exteriores tenha feito tal declaração.
Seria impossivel que não ter tido a participação da inteligencia e governo paquistanês.
As declarações posteriores do governo do Paquistão de que não sabia de nada, de que não fez nada são tão confiaveis quanto a palavra de JOSE CHIRICO SERRA ao dizer que terminaria o governo de prefeito e depois de governador do então estado mais rico da federação que hoje perde lugar para outro.

P.S. O Osama desde 2000 era o maior traficante de heroina paquistanesa mais influente no Paquistão. Matar o Osama atrapalhou negocios de muita gente. O governo paquistanes tem muito medo dessa gente, contudo tem medo maior do IMPÉRIO DO MAL.

Responder

augusto

05 de maio de 2011 às 12h12

Gente, esta na hora de os eleitores colocarem na mesa de suas opçoes na hora das urnas um componente essencial dos candidatos futuros: o nacionalismo.
Quem nao o for, exclua. porque o imperio é só isso, nacionalista ao extremo. OU será que nesse quesito devemos ser cordeiros mansos?
Ernesto geisel era.
Eneas 56, era.
E Dilma , com tantas vantagens sobre os dois, vai ser apenas relativa?

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Andre Diniz

05 de maio de 2011 às 12h06

Isso eles ensinam desde a infância. No jogo de guerra-superprodução hollywoodiana "Modern Warfare 2: Call of Duty" (cuja arrecadação é maior que muito filme blockbuster, diga-se de passagem), uma força-tarefa anglo-americana entra em um país para capturar um traficante de armas e drogas que deu apoio logístico em um atentado terrorista. NO RIO DE JANEIRO. Os heróis (comandados pelo jovem) andam pela cidade, encontram o contato – e o torturam, claro – depois entram na favela, tiroteios, entram e saem do morro. Corta para a invasão dos EUA pela Rússia neonacionalista. Entretenimento com recheio de ideologia?

Não vai ser muito estranho pra Opinião Pública quando entrarem em, digamos, Foz do Iguaçu. Pode parecer coisa de neurótico de conspiração, mas a sensação que ficou com todos os americanos gritando "USA! USA! USA!", como disse um amigo meu, foi o de uma tribo gritando para o mundo "Nós podemos tudo".

Responder

    r godinho

    05 de maio de 2011 às 14h27

    Mas o slogan de campanha não foi justo esse: YES, WE CAN (dominar o mundo)

helena catin

05 de maio de 2011 às 11h17

A nossa vez vai chegar… e já recebemos a 'intimacão' na visita de Mubarack Obama quando nossas otoridades agacharam para a revista com a supervisão do chefe de seguranca dos EUA, o Mr Patriot.

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Paulo A

05 de maio de 2011 às 11h04

Primeiro levaram os comunistas, mas…

Responder

@ocachete

05 de maio de 2011 às 11h04

Falei disso aqui, Azenha: http://www.ocachete.com/2011/05/os-estados-unidos
Um abraço!

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marlon

05 de maio de 2011 às 10h10

É isso aí Azenha. A tal globalização foi desenhada com esse propósito. É por isso que as grandes potências, incluindo Rússia e China, pouco se importam com os abusos dos poderosos contra os fracos. Como vc disse, a nossa vez vai chegar.

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FrancoAtirador

05 de maio de 2011 às 08h52

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International Community

O CALIFADO FUNDAMENTALISTA DO OCIDENTE.
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