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Obrigado, Cecília, que brevemente mostrou ao público a verdade
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Obrigado, Cecília, que brevemente mostrou ao público a verdade


16/01/2015 - 18h21

Captura de Tela 2015-01-16 às 16.28.23

por Luiz Carlos Azenha

Trabalhar ao vivo, na televisão, é sempre muito complicado. Os críticos de sofá não têm a mínima ideia do que o repórter já enfrentou antes de aparecer na telinha para dar as informações mais recentes.

Para complicar, quem está do lado de cá não imagina o que está sendo dito naquele fone no ouvido do repórter. “Acelera”, “corta”, “acabou”, “fala mais um pouco” — eu mesmo já ouvi de tudo enquanto tentava desenvolver um raciocínio ao vivo, com limite de tempo e “segurando” toda a emissora.

A experiência sempre ajuda. Tive a sorte de fazer 100 transmissões ao vivo de automobilismo, nos boxes, o que me deu certa capacidade de improvisação. Quando Fernandinho Beira-Mar foi preso na Colômbia, usando o celular fiz uma entrevista ao vivo  com o promotor do caso, traduzindo simultaneamente, direto das escadarias da Fiscalia, em Bogotá.

Mas nunca cheguei perto de gente como o Arnaldo Duran, que veio da escola do rádio. Se você colocar o Duran para falar ao vivo sobre qualquer assunto, em qualquer lugar do planeta, ele toma conta da situação de maneira formidável. É capaz de apurar uma informação logo ali na sua frente, sem perder o fio da meada.

Duran na verdade integra um grupo de veteranos que resiste em todas as emissoras, Globo inclusive. Antes de ser o repórter que aparece na TV, o “famoso”, Duran expõe sua humanidade no vídeo, sem nunca se imaginar celebridade.

No campo das transmissões ao vivo, a Globo é refém de seu próprio formato. É tudo tão certinho, tão quadrado, que quando alguém destoa chama a atenção.

No meu tempo, nem mesmo as entradas ao vivo eram improvisadas. O texto era escrito de antemão e pré-aprovado. Se alguém imaginava que aquilo estava sendo dito “no calor dos acontecimentos”, estava enganado.

Hoje, talvez mais que nunca, a Globo é um império editorialmente verticalizado. Isso exige repórteres bem adestrados ou amarrados.

Assim, a emissora será sempre pega de surpresa quando seus profissionais forem forçados a improvisar, por conta de acontecimentos ao vivo, em situações que fujam ao controle dos chefes.

A repórter Cecília Malan foi criticada nas redes sociais por supostamente ter se assustado com tiros em Paris. Normal.

O que me surpreendeu é que, provavelmente sem querer, ela entregou um dos segredos dos correspondentes internacionais de hoje.

Foi quando disse que não tinha condições de contar as novidades por falta de internet.

Registro, antes de avançar, que minha carreira de correspondente internacional começou antes da era Google. Na Manchete, em Nova York, a gente furava as mensagens em fita antes de enviá-las por telex para a editora internacional Teresa Barros, no Rio de Janeiro. Nossas transmissões eram, de fato, via satélite. Dez minutos Nova York-Rio custavam 1.500 dólares.

Quando o correspondente viajava, às vezes contava com o apoio de uma agência internacional, como a Reuters. Mas, na maioria das vezes, tinha mesmo de dar duro: fazer entrevistas, apurar fatos, checar informações com as fontes originais.

Eu sempre preferi dar um tom pessoal às minhas reportagens para escapar da interferência de superiores hierárquicos que estavam muito mais distantes — e menos informados — do que eu sobre os acontecimentos.

Dei sorte. Em Moscou, em 1988, alijado por sorteio de uma entrevista coletiva que encerrava a cúpula Gorbatchev-Reagan, trombei por acaso com o líder soviético dentro do Kremlin. Saiu uma entrevista exclusiva, quando o objetivo original era apenas mostrar as lindíssimas igrejas então convertidas a museus no centro de poder da URSS.

Infelizmente para os correspondentes internacionais, esse tempo acabou.

Hoje eles se tornaram reféns de seus editores no Brasil.

Enquanto estes acompanham dezenas de fontes de informação em tempo real, os repórteres, quando muito, têm uma visão local do evento.

Em Paris, a repórter da Globo reclamava acesso à internet com razão: queria saber o que estava acontecendo longe de seu posto de observação.

É isso o que as emissoras esperam dos correspondentes: que eles ajudem a mascarar o fato de que a maior parte do que transmitem é produzido por terceiros.

São dados e imagens de segunda mão vendidos como de primeira.

Foi-se o tempo de correspondentes como o Reali Júnior, que morou tanto tempo em Paris que era reconhecido inclusive por autoridades locais e tinha fontes, muitas fontes, francesas.

Ao longo dos últimos anos os salários despencaram e ser promovido a correspondente passou a ser, acima de tudo, uma questão de status.

Boa parte do trabalho é feito com “pacotes” de imagens e informações comprados de agências internacionais.

Nos grandes eventos, com transmissões ao vivo, a presença física do correspondente não significa necessariamente que esta equação se altere.

Para as empresas, o correspondente de autonomia limitada, além de mais barato, é mais fácil de controlar editorialmente.

Os veteranos foram sacrificados no altar da redução de custos.

Jovens repórteres aceitam com mais facilidade ler o que outros escrevem. Uma boa presença no vídeo é o que mais conta.

O público, sem acesso aos bastidores, fica fascinado ao se ver representado no centro dos acontecimentos.

Muitas vezes é isso mesmo: uma grande representação.

Neste sentido, o “pecado” de Cecília Malan deveria servir de crédito: ainda que inadvertidamente e por um breve momento, ela abriu a cortina da ilusão.

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27 comentários

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haroldo farias castro

24 de abril de 2015 às 13h56

Parabéns à correspondente da Globo Cecília Malan, além de competente e extraordinária dicção, faz juz a sua estr ondante beleza natural. Parabéns à ela e a Globo. Att Sociedadethule

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Maria Dilma

19 de janeiro de 2015 às 13h07

Caros,
Vi hoje um shoptour da pena de morte.
Fiquei gelada.

Um canal que não identifiquei pelo logo.
Nao era o logo dos “grandes”.
O telefone era 19 4141 3818 ou 3848
Fingiam receber telefonemas de uma enquete mas eram atores telefonando.
Alo Min.Publico.

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Brancaleone

18 de janeiro de 2015 às 20h26

Não dou lá muito valor para a maioria dos correspondentes estrangeiros. Quase todos estão (confortavelmente) em Londres, Paris ou N Iorque falando de guerras, crises e conflitos no Afeganistão, Ucrânia ou algum cafundó da África. Parecem mais modelos famosas num circuito de desfiles.
Lá no fuzuê mesmo, com raça e coragem quase nenhum vai. Assim até eu…

Responder

Sertão/PE

18 de janeiro de 2015 às 19h46

Enquanto isso, a globo comemora 50 anos de mentira, calúnia e difamação.

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Hans Bintje

17 de janeiro de 2015 às 15h39

Isso não é jornalismo. É suicídio!

“Tiro, porrada e bomba” acontece nos outros países também: França, Holanda, Alemanha…

E não avisaram a moça? Não deram treinamento para situações de conflito para a jornalista?

Adeus às ilusões — Farewell to Illusions — o mundo é um lugar perigoso!

Imagine se houvesse acontecido alguma coisa com a Cecilia Malan.

Ela iria virar o espetáculo… será que era isso que o editor queria?

Responder

Luiz

17 de janeiro de 2015 às 14h30

Plim Plim

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wendel

17 de janeiro de 2015 às 12h18

É como diz o grande personagem de Lampedusa em seu romance: “Acabou a época dos leões e leopardos, agora é a vez dos chacais e hienas” !!!!!!!!!!!!!

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Jair de Souza

17 de janeiro de 2015 às 11h51

Creio que este belo texto de nosso Azenha serve para deixar claro que, no mundo da globalização em que vivemos, são poucos os que realmente sabem o que de fato está ocorrendo.

Quase todo o fluxo de (des)informações que percorre o planeta está sob o controle de não mais de 10 grandes grupos midiáticos multinacionais, os quais, ainda que possam ser concorrentes do ponto de vista comercial, sabem muito bem que devem atuar de modo unificado para combater tudo o que possa ameaçar os interesses de classe que eles integram e representam.

Qualquer um que tenha a oportunidade de viajar pelo mundo se dá conta de que não faz a mínima diferença assistir aos noticiários televisivos da Alemanha, da França, do Canadá, do Japão, da Itália, do México, ou dos cambaus. Vai se deparar sempre com as mesmas notícias, divulgadas com os mesmos enfoques, tecendo loas ou massacrando as mesmas pessoas (conforme à funcionalidade que elas expressem para os conglomerados midiáticos (ou seja, para os interesses do grande capital).

Não é à toa que toda e qualquer tentativa de furar o bloqueio informacional controlado por essa verdadeira máfia midiática planetária sofre um rigoroso boicote de sua parte. Como exemplo mais que esclarecedor disto está o caso da Telesur. Quais são as empresas distribuidoras que se dispõem a colocar em sua relação de canais o sinal da Telesur? Pergunto: Aqui no Brasil, em São Paulo, Rio de Janeiro e outras capitais, é fácil ter acesso às transmissões da Telesur?

Portanto, em grande medida, o mundo que se encontra alojado na mente de boa parte de nós, simples mortais, é o mundo virtual, construído ao capricho do grande capital por meio de seus controles midiáticos. O caso citado da repórter Cecilia Malán nada mais é que uma confirmação deste fenômeno.

Responder

    Elias

    17 de janeiro de 2015 às 13h40

    Peço licença, Jair de Souza, para aplaudir todas as suas observações que além de realistas sugeriram-me algo que até agora não me passara pela cabeça. Fala-se muito em Lei de Meios sempre em relação aos donos das empresas de comunicação. Pois bem. Percebi, não sei se me equivoco, mas me parece que deve mexer também com quem está dentro dessas empresas. Ou seja, os jornalistas. Eles deveriam ser os mais interessados em proteger a profissão. A partir deles pode acontecer uma revolução nos meios de comunicação todos. Seja jornal, revista, rádio, TV e internet. Algo que eles se sobrepusessem ao Congresso Nacional. Que se mobilizassem de tal maneira a ponto de colocar todas as cartas na mesa. Uma Lei de Meios criada por jornalistas em conjunto com todas as agremiações populares, sindicais e a sociedade como um todo. Os metalúrgicos, os bancários, os metroviários são exemplos de como é possível mudar a cabeça dos patrões. Os jornalistas e todos os envolvidos com a imprensa escrita, falada e televisada, do foca ao colunista, do cabo-man ao âncora, enfim, a Lei de Meios pode sair rapidamente se surgir um verdadeiro líder no meio dos trabalhadores da Comunicação.

Gerson Carneiro

17 de janeiro de 2015 às 11h46

Por falar em “mostrar a verdade”, as melhores notas do ENEM (notas máximas, inclusive) vieram daquele “povo bovino que vota no PT”. Oremos.

Responder

Elias

17 de janeiro de 2015 às 11h30

Uma entrevista exclusiva com o líder soviético Mikhil Gorbachev (feita “por acaso”), só acontece com jornalistas que estão no olho do furacão, correspondentes que não medem esforços para se enfronharem nas entranhas da notícia. Azenha cita Arnaldo Duran e Reali Júnior. Quem já leu o Baú do Azenha, sem fazer comparação, sabe que ele está não só à altura dos dois, como de muitos admiráveis homens de imprensa que fizeram e ainda fazem o bom jornalismo. E essa pequena amostra dos bastidores da mídia, serve como aula não só para quem deseja abraçar a profissão, como para leitores (como eu) que apreciam ver a forma de fabricação de um produto. E a notícia é a mais “insustentável leveza” de todos os produtos. Só craques da palavra e da imagem sabem lidar bem com ela.

Responder

Jose Mario HRP

17 de janeiro de 2015 às 09h52

Cecilia Malan é reporter,,é filha de quem é,,ninguém pode ser culpado por ser filho de guem é , e é mãe.
Qem tem filhos e não se importa de morrer?
Ela é mãe e que crie seus filhos….em paz.

Responder

Romanelli

17 de janeiro de 2015 às 08h16

Azenha, Azenha ??!!

Quando o público senta pra assistir a um noticiário, é pq ele quer se informar sobre os fatos.

Vc já se perguntou se tinham, do-la-de-cá, pais, amigos e parentes de pessoas que estavam por aquelas bandas ? Se eles estavam aflitos e queriam se sentir mais confortados.

Convenhamos, embora lhes suba à cabeça, ser jornalista não é só um exercício de vaidade e poder.

Medo de tiro, não saber dos fatos, se mostrar em pânico, DESPREPARADA..

intoncis ..sinceramente ?! ..xá pra lá

Responder

    Seu Zé

    17 de janeiro de 2015 às 13h43

    Leia o texto novamente.

paul moura

17 de janeiro de 2015 às 01h17

Tudinho pré-fabricado. Caso contrário, expõe a fragilidade costumeira dos submissos.

Responder

Milton Pereira Neves

17 de janeiro de 2015 às 00h22

Achei mesmo que ela foi massacrada injustamente. Mas da próxima vez é só pegar umas dicas com a Monica Puga ou com Carlos Nascimento. Ninguém nasce sabendo como querem o mundo e nossos patrões.

Responder

Tais Jacques

16 de janeiro de 2015 às 23h57

Concordo com o q vc escreveu, plenamente, contudo o publico de uma certa forma hoje em dia sabe q ate vcs jornalistas estao sendo engulidos pela velocidade da internet… Agora, cabe aquele q tem talento e queira se tornar um grande jornalista tirar proveito (e neste caso foi ao vivo) e de algo q saiu da pauta e principalmente por estar sem internet…Como vc bem falou, no seu tempo nao havia um decimo dessas modernidades… E mesmo assim, tinhamos as noticias, ou seja, todo e bom jornalista tem q dar a noticia (saber o q estah acontecendo ao seu lado) sem ser refem do q quer q seja…. Ou culpar a falta de internet ou q quer q seja…

Responder

FrancoAtirador

16 de janeiro de 2015 às 23h27

.
.
Tuitada do Millenium

“Cecilia Malan sem internet
a 300 metros da notícia
já virou um clássico
do jornalismo internacional”

@GardêniaMaciel
(https://twitter.com/GardeniaMaciel/status/553658165993410561)
.
.

Responder

Marat

16 de janeiro de 2015 às 22h13

Talvez as chaves principais do texto estejam nestes prontos:
“[…] Isso exige repórteres bem adestrados ou amarrados […]”
e
“Boa parte do trabalho é feito com “pacotes” de imagens e informações comprados de agências internacionais.”
Amestrados e com pacotes de agências internacionais.
Coloquemos Petrobrás e outras no olho do furação… Não passa disso.
E os tais “pacotes” não existem só no âmbito internacional. Em nossa semidestruída e semifalida SP, os pacotes tucanos têm sido eficientes no adestramento os animais de estimação dos donos dos meios de “comunicação”… Ah, Leni Riefenstahl e Joseph Göebbels fizeram escola. Estão mas vivos do que nunca!

Responder

    Joao Aurelio

    17 de janeiro de 2015 às 08h56

    RESUMO NISTO: “…trabalho é feito com “pacotes” de imagens e informações comprados de agências internacionais.”

    Marat

    17 de janeiro de 2015 às 21h45

    O mais trágico, João, é que sempre foi assim. Eu me recordo, já nos anos de 1980, quando lia a Folha da Tarde e assistia aos canais de TV do PIG, que as notícias eram as mesmas, ou seja, nós (Brasil) dávamos dinheiro a eles, para repetir as ideias deles. Muito parecido com essa proliferação de escolas de inglês: As pessoas pagam para receber a cultura do colonizador!!!

revenger

16 de janeiro de 2015 às 21h24

Que que eu estava fazendo em Paris nesse dia?

Responder

Edson J

16 de janeiro de 2015 às 20h41

Com o devido perdão dos que criticaram a moça, achei a sua atuação excelente, sobretudo porque foi real. Ficou claro para nós, espectadores, que ela estava ali, ao vivo, transmitindo a sua opinião sobre o que via e não o que alguém, de longe, queria que ela dissesse. E o melhor de tudo foi o susto com os tiros. Para saber mais on line, tínhamos, melhor que a Globo, o Le Monde, o Fígaro, a TV5 etc.

Responder

Francisco de Assis

16 de janeiro de 2015 às 20h30

Tadinha da Cecília.

O seu pavor só não foi maior do que o do seu pai, Pedro Malan, toda vez (não foram poucas) que o auditor do FMI chegava no seu gabinete, durante oito anos do governo Fegacê.

Responder

Fabio Hideki

16 de janeiro de 2015 às 20h11

Cade o Vídeo onde ela reclama da falta de internet ?

Responder

    FrancoAtirador

    16 de janeiro de 2015 às 23h33

    .
    .
    A Rede Globo de Televisão processa quem publica vídeo,

    alegando direitos autorais e comerciais exclusivos.
    .
    .

Ideraldo Souza

16 de janeiro de 2015 às 19h04

Acho que aquilo que o Chacrinha queria dizer com o “‘enviado’ especial”.

Responder

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