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Diário da Resistência


O jornalista que apontou o dedo para o provincianismo brasileiro
Opinião do blog

O jornalista que apontou o dedo para o provincianismo brasileiro


11/07/2019 - 01h10

por Luiz Carlos Azenha

Um dia o Paulo Henrique Amorim me convidou para visitá-lo no hotel onde morava temporariamente, na mesma rua em que moro, no Higienópolis, em São Paulo.

Enquanto tratava do nó da gravata, como alguém permanentemente ligado em 220, ele pediu licença para fazer uma ligação. Era para o editor do Conversa Afiada.

PHA começou a narrar um post como se fosse um repentista, com recomendações para um revisor imaginário — é justissa com dois ‘esses’, mesmo — e lembrando ao editor que ele deveria fazer links desta ou daquela frase remetendo a textos anteriores publicados pelo blog.

Eu pensei comigo mesmo: este cara é um gênio da internet. Além da memória extraordinária, consegue juntar os bordões típicos do rádio (ou do lendário Edward Boa Noite Boa Sorte Murrow, da rede norte-americana CBS, do qual era fã) com o humor escrachado do Pasquim.

PHA encarnava uma escola do jornalismo carioca, mistura de ironia com sarcasmo, que em tempos de internet seria capaz de chocar a “justissa” conservadora, acostumada ao tom bacharelesco dos editoriais do Estadão.

Quando fui testemunha de defesa dele num processo, descobri que PHA queria estabelecer como jurisprudência que o deboche era traço inerente ao jornalismo na era das redes sociais.

Nada de “pairar” feito um beija-flor sobre a notícia.

Todos, inclusive os próprios jornalistas, dizia ele, não estavam acima de críticas.

Muitos anos antes, nosso primeiro contato profissional não tinha sido lá tão amigável.

Quando Paulo Henrique mudou-se para Nova York, para chefiar o escritório da TV Globo na cidade, uma de suas primeiras medidas foi encaminhar um contrato de exclusividade com a rede CNN.

Até então, a emissora de Atlanta tinha uma boa relação com a TV Manchete, para a qual eu trabalhava como correspondente.

Algumas de minhas reportagens eram traduzidas para o inglês e reproduzidas no CNN World Report, um programa vespertino.

Em outras ocasiões, eu era chamado para dar entrevistas ao vivo sobre temas estadunidenses que tivessem relação com o Brasil.

Com o contrato fechado pela Globo, Paulo Henrique assumiu o papel que eu desempenhara.

Não fiquei ressentido com isso. Era do jogo da competição.

Nós só nos conhecemos de verdade muitos anos mais tarde, por volta de 2010, quando aconteceu o primeiro Encontro Nacional de Blogueiros Progressistas.

Na convivência, descobri o que é óbvio aos leitores: bem formado, bem informado e com um faro extraordinário para antecipar tendencias, PHA era extremamente invejado pelos medíocres de sempre, dentro e fora do jornalismo.

Era odiado não pelos seus defeitos, mas por suas virtudes.

Embora muitos leitores nem desconfiem disso, jornalistas são seres extremamente vaidosos.

O “defeito” de PHA era apontar o dedo para o provincianismo da sociedade brasileira — jornalistas, inclusive — e gargalhar com isso.

O impacto era diretamente proporcional ao número de processos na Justiça.

É com aquela gargalhada impagável que quero associar a memória de Paulo Henrique Amorim.

Ou com a coleção de cachaças, estrelada pela Canarinha.

Obrigado, PHA, pelas risadas que você arrancou de mim em situações inusitadas, às vezes ao final de um cansativo dia de trabalho, ao ler sobre as peripécias do merválico pigal, do Big Ben de Propriá ou do Mau Dia Brasil.

Os navegantes vão sentir sua falta. Nós, também. Descanse em paz.

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Por Laurindo Lalo Leal Filho



3 comentários

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Cláudio

11 de julho de 2019 às 21h54

O ansioso blogueiro era um daqueles indispensáveis de que nos fala o poema de Brecht. Você também, Azenha. Por isso, cuide-se. Precisamos todos/as da sua boa saúde e da de tantos/as outros/as ótimos/as blogueiros/as progressistas.

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Magda Maria Magalhães

11 de julho de 2019 às 15h50

Prezado Azenha,
Já estou sentindo falta do PHA. Vc tem razão, gosto muito de política, e como o mar não está para peixe, quando queria dar uma refrescada, ia ao Conversa Afiada. Uma forma de saber as últimas e certeiras gargalhadas. Alguém terá que se apropriar do PIG, a quem o Latuff não desejou boa sorte. rs Boa sorte ao PHA no outro plano. Te amo também. Beijo!

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Herivelto Canales

11 de julho de 2019 às 09h15

Estou órfão. A primeira coisa que faço ao levantar é pegar o celular e entrar no Conversa Afiada para ler, assistir aos vídeos e ouvir os áudios onde ele dava seu parecer Afiado contra os canalhas. PHA é imortal.

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