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Jabuticaba brasileira é pandemia sem testagem, que deixa gente na fila da UTI e morrendo em casa
Hélia Scheppa/SEI, via Fotos Públicas
Opinião do blog

Jabuticaba brasileira é pandemia sem testagem, que deixa gente na fila da UTI e morrendo em casa


06/05/2020 - 14h07

Mais de 28% das mortes são de pessoas de menos de 60 anos de idade
O sobe-desce se deve à compilação atrasada e irregular dos dados
Muitos casos aguardando resultados de testes

Da Redação

Num fracasso completo de autoridades de Saúde, capitaneadas por um presidente negacionista, o Brasil está no processo de construir mais uma de suas jabuticabas: uma pandemia que “numericamente” não parece assim tão grave, mas deixa gente esperando nas filas da UTI e morrendo em casa.

Como o Viomundo alertou desde a chegada do coronavírus, em nossa conta no twitter, o Brasil não quis, não teve organização, dinheiro ou simplesmente optou por não testar.

Envolvido nas fofocas entre o presidente da República, seus assessores malucos e oposicionistas — uma estratégia que faz sentido comercial, pois turbina a rentável caça de cliques –, o jornalismo investigativo brasileiro jamais explicou o motivo disso ter acontecido, além de constatar o óbvio.

O Brasil não testou. Não testou e, assim, não isolou os assintomáticos — desde os primórdios da pandemia já se sabia que pessoas poderiam transmitir o coronavírus mesmo sem os sintomas da doença.

O Brasil fez 296 testes por milhão de habitantes. Basicamente, testou profissionais de saúde e pessoas com sintomas mais graves. Por comparação, os Estados Unidos fizeram mais de 7 mil testes por milhão. O Irã, fez mais de 2.700 testes por milhão de habitantes.

Assim, a pandemia avançou de maneira descontrolada pelo Brasil.

Matou médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde, contaminados por não terem acesso a equipamento de proteção adequado.

Em cidades como Belém, unidades básicas de saúde juntaram pacientes comuns com infectados pelo coronavírus, sem a devida separação, ajudando a propagar o vírus.

Pacientes foram dispensados de internação por falta de vagas e filas se formaram para ter acesso a UTI, acarretando mortes em domicílio e falta de acesso a respiradores.

Medidas tomadas por governadores foram tardias, especialmente os de estados mais pobres, com o surgimento de “hospitais” fantasmas, inaugurados sem respiradores ou profissionais de saúde.

Faltam médicos para atender no Amapá, por exemplo: a oferta é de contratos de três meses, com pagamento bruto total de 6 mil reais.

Esculhambação

A presidir a esculhambação, um presidente da República que chamou o coronavírus de “gripezinha”, denunciou a “histeria” da mídia mundial, disse que a Itália era uma grande Copabacana — daí tantos mortos, por causa da idade — e assumiu para si, apesar de não ser médico, o receituário das drogas hidroxicloroquina e cloroquina, suspeitas de terem provocado mortes em cardíacos.

O presidente não só estimulou carreatas de apoiadores pela reabertura do comércio — em Manaus, apareceu em uma live do Facebook com participantes — como afastou o ministro da Saúde que seguia as orientações da Organização Mundial da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, um deputado obscuro que se converteu de forma oportunista em defensor do SUS.

Ainda assim a realidade tem uma forma terrível de alcançar a fantasia da jabuticaba brasileira e foi desfazendo uma a uma as teses bolsonaristas:

— que o coronavírus não se propagaria no calor, o que é desmentido pelos números de Manaus e Belém;

— que só mataria os mais velhos (o gráfico no topo mostra que, dos óbitos reconhecidos no Brasil, quase 30% são de pessoas de menos de 60 anos de idade);

— que hidroxicloroquina e cloroquina se mostrariam drogas “milagrosas”, uma besteira disseminada nos Estados Unidos pelo presidente Donald Trump e repetida aqui mimeticamente por Bolsonaro.

Há outras peculiaridades da jabuticaba brasileira, no entanto: por causa de um hiato entre a aplicação dos testes (quando eles existem)  e a divulgação dos resultados, o reconhecimento tardio de casos afeta as projeções.

Curvas irregulares podem sugerir ao público que o pior já passou, até que os casos voltam a disparar.

Com dados ruins, os administradores da crise são tentados a chutar ou a atender pressões políticas.

O descontrole a que nos referimos está expresso em breve fala do doutor em microbiologia Atila Iamarino, da Universidade de São Paulo, que aparece abaixo.

Depois de ter tido a impressão de que controlara a curva, o Brasil tem hoje índice de 2 a 3 contaminados por pessoa — altíssimo — e, de acordo com o Imperial College de Londres, pode ter mais de 1 milhão de infectados, muitos dos quais assintomáticos, andando por aí e espalhando o vírus.



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4 comentários

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marcio gaúcho

08 de maio de 2020 às 18h29

Atendemos, aqui em casa, ligação robótica do Ministério da Saúde, perguntando se alguém da casa estava com sintomas do Covid-19. Esse é o teste que está sendo aplicado pelo governo no controle da pandemia. Coisa de louco…

Responder

Ibsen

07 de maio de 2020 às 03h55

No Brasil, mais do que no n restante do mundo os dados virão por aproximação entre a média anual de mortos nós últimos anos e as mortes desse ano porque aí se incluirá também as mortes por outras doenças em que faltou o atendimento básico emergencial em virtude da sobrecarga do SUS.
Dizem que o vírus é democrático, mas sabemos que não é. Ele circula mais onde não se pode parar para sobreviver, dado a falta de respaldo mínimo dos governos federal, estaduais e municipais. Dele mata mais por falta de assistência em Saúde e colapso do sistema público de saúde preterido pelos governantes desde sempre.
Mas a negligência foi bem maior e fez com que, mesmo seguindo um mínimo de orientações da OMS, não conseguíssemos oferecer EPIs e proteção adequada aos profissionais que lidam diretamente e frequentemente com os doentes, daí o maior número de mortes entre os profissionais de saúde quando comparados com o resto do mundo. Muito provavelmente teremos também um percentual maior de mortes entre os contaminados que adquirem a forma mais grave da firma já que também não conseguimos adquirir equipamentos e medicamentos básicos para o suporte da vida. O Brasil, como sempre, trata seus pobres, idosos e indígenas com o desprezo de sempre.
Há uma propaganda odiosa circulando na tv aberta conclamando os jovens a fazer o Enem quando ele deveria ser adiado. Quem se beneficiará disso serão os filhos da elite que frequentam escolas privadas om uma estrutura muito melhor para suportar um ensino à distância de qualidade. Esses possuem em casa todas as condições para que seus filhos permaneçam em casa e estudando.
Ninguém, nem mesmo a mídia alternativa, ou quase toda ela, não disse palavra sobre esse descalabro.

Responder

Zé Maria

07 de maio de 2020 às 03h15

Zemavírus crava estupendos
91.618 Casos Suspeitos*
Sintomáticos de COVID-19
em Minas Gerais.

*Suspeitos = Com Sintomas mas Sem Teste,
portanto, Sem Confirmação.

Responder

Edgar Rocha

06 de maio de 2020 às 15h39

Hoje perdi uma pessoa querida. Minha irmã recebeu de manhã um zap avisando que minha vizinha – Dona Efigênia – teve sintomas cardíacos em casa, foi levada às pressas ao hospital e faleceu, sem direito a funeral ou um último olhar do e esposo, filhos e netos, sendo cremada às pressas. Não há diagnóstico de coronavírus, pelo que disse a filha. Foi tudo tão rápido e alucinado que estamos todos em choque. A simples desconfiança de que poderia ter sido o Covid-19 a causa da morte justificou atitudes atabalhoadas e insensíveis. A família se conforma diante dos riscos iminentes. Só é difícil controlar a dor. Ficamos sem sorriso da mineira típica que trabalhou a vida toda fazendo seus bolos e quitandas. Um beijo pra ela e pra toda a família.
Eu duvido que este caso vá se somar às outras mortes por Covid. Não há prova alguma. Quantos estão morrendo e sendo cremados nestas mesmas circunstâncias?

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