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Covas e Doria deixam moradores da Cracolândia sem água: “O que era grave, piorou. Vai ser genocídio”
Torneiras no Atende 2, fechado no início de abril. Fotos: Reprodução de vídeos de Giulia Grillo
Holofote

Covas e Doria deixam moradores da Cracolândia sem água: “O que era grave, piorou. Vai ser genocídio”


22/04/2020 - 19h47

Coronavírus: Prefeitura de SP e Governo fecham locais onde população da Cracolândia podia lavar as mãos

por Lúcia Rodrigues*

Se a pandemia de coronavírus é assustadora em condições salubres, no fluxo da cracolândia é desesperadora.

Ali não adianta pedir para as pessoas manterem o distanciamento social. Elas vivem em grupo.

O que o poder público deve fazer para tentar desarmar o barril de pólvora que está prestes a explodir na região é manter as condições de higiene funcionando adequadamente.

Mas tanto a Prefeitura de São Paulo quanto o governo do Estado vêm atuando justamente na contramão.

Os dois locais onde os usuários podiam se higienizar, Atende 2 (Unidade Emergencial de Atendimento), da Prefeitura, e Recomeço, do governo estadual, foram fechados a essa população.

O Recomeço havia sido reaberto na semana passada, mas foi fechado novamente nesta quarta-feira, 22.

O alerta é feito pela produtora de eventos Giulia Grillo, que atua na Cracolândia há quase três anos.

Enquanto conversava com Viomundo, ela percorria a região do chamado fluxo, as ruas onde os usuários de drogas se aglomeram.

Giulia explica que tenta conscientizar aquela população sobre a importância da lavagem das mãos e a higiene pessoal.

“Mas a falta de água frustra. A gente fala sobre a importância de se lavar as mãos, dá os sabonetes, mas a narrativa perde o sentido se não tem água”, lamenta.

O caminhão pipa que ia para o local desapareceu nos últimos três dias. Voltou nesta quarta-feira pela manhã. Mas às 11h30, quando Giulia chegou ao local, já não estava lá.

“Estamos pedindo para a Prefeitura instalar duas pias no local. Antes o caminhão pipa ficava das 8h às 17h. O que já era grave, ficou pior. Vai ser um genocídio”, antecipa Alderon Pereira da Costa, articulador do Núcleo de Defesa de Direitos Humanos da População de Rua e membro da Rede Rua.

“Tem uma pia do outro lado na Duque Caxias. Mas eles (usuários) têm medo de atravessar a praça e serem agredidos pela polícia. Quando o caminhão pipa vem para cá, eles usam”, explica Giulia.

Tanto ela quanto Alderon ressaltam que a falta de água é a questão mais emergencial na Cracolândia.

“Alimentação têm muitos grupos doando. De fome o pessoal não morre. O mais sério é a falta de água”, adverte a produtora de eventos.

Essa população está sem água, inclusive, para beber.

“Chegaram uns freis e o pessoal da Casa da Oração (da Igreja Católica) para trazer comida e juntou muita gente pedindo água, água, água. O pessoal daqui está passando sede”, enfatiza Giulia.

“É uma situação dramática. Essas pessoas não têm nenhuma possibilidade de defesa. A insensibilidade (do poder público) é muito grande”, lamenta o padre Julio Lancellotti, a quem Giulia chama de aliado na ajuda a essas pessoas.

Padre Julio, que coordena a Pastoral do Povo de Rua, também denuncia a decisão do governo federal de exigir o CPF para a liberação de R$ 600 para a população sem abrigo.

A grande maioria dessas pessoas perdeu o documento e acaba não recebendo o benefício a que teria direito.

“Parece feito de propósito para deixar os mais pobres de fora”, critica o religioso.

O promotor de Justiça de Direitos Humanos Eduardo Valério é uma voz dentro do Ministério Público de São Paulo que atua em defesa dessa população mais vulnerável.

“Estamos tentando mitigar o impacto da pandemia de Covid 19 entre a população de rua e da chamada cracolândia”, diz.

Ele ressalta a vitória importante que a Defensoria Pública do Estado obteve na Justiça, com uma liminar que determina a reabertura do Atende 2 na região do fluxo.

A Prefeitura transferiu o atendimento que era feito no local para a região do Glicério, a aproximadamente uns três quilômetros de distância.

Valério explica que não é momento de transferências desse tipo.

“Essa discussão é importante, indispensável, mas não é oportuna. Neste momento de extrema gravidade, com o contágio crescente do coronavírus, altíssima letalidade e vulnerabilidade daquela população, não é o momento de discutirmos tecnicamente o projeto.”

Ele destaca ainda que aguarda que a juíza Celina Kiyomi Toyoshima, que concedeu a liminar à Defensoria no início do mês, se manifeste pela obrigatoriedade da Prefeitura de São Paulo em cumprir a decisão.

“Não só com a aplicação de multa diária, mas com a responsabilização civil, administrativa e criminal dos responsáveis”, cita Valério, como medidas de punição ao descumprimento da ordem judicial.

*Lúcia Rodrigues é jornalista e formada em Ciências Sociais pela USP.

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1 comentário

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Wladimir Evangelista

22 de abril de 2020 às 23h45

Alguém duvida que isso é feito com um determinado propósito? A ideia não é educar, recuperar, reinserir, a ideia é matar mesmo, se livrar para sempre do problema.

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