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Reinaldo Canto: Para salvar as que restam, o onçafari
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Reinaldo Canto: Para salvar as que restam, o onçafari


29/08/2012 - 00h20

Os elefantes nadadores são grande atração no Parque Nacional do Chobe, em Botsuana. Os turistas seriam atraídos pelas pegadas das onças? (foto LCA)

22.08.2012 13:41
Onça-pintada: a hora da extinção ou da preservação

por Reinaldo Canto, na CartaCapital 

Um animal elegante, admirado pelo seu porte e beleza e ao mesmo tempo temido e odiado ao longo de muitas gerações de humanos que habitaram o continente americano. Povos originários e depois os colonizadores europeus conviveram com este que é o maior felino das Américas de maneira, no mínimo, pouco amistosa.

Essa difícil relação, de amor e ódio, trouxe consequências bastante danosas para a sobrevivência da onça-pintada que, em sua fase adulta, pode atingir 140 quilos de peso. Símbolo da riqueza de nossa biodiversidade, ela estampa a nota de 50 reais, nem por isso está livre de incontáveis perseguições.

Acusada de atacar o gado e outros animais de criação, fazendeiros não pensam duas vezes para abatê-la. É também cobiçada por caçadores ávidos em provar sua virilidade mesmo mantendo uma segura distância, portando uma conveniente arma de fogo. Esses, além da destruição de nossas floresta,s estão entre os principais obstáculos que tornaram a onça-pintada, de grande predador no topo da cadeia alimentar em animal acuado e indefeso diante do progresso e da ganância humana.

Agora duas notícias em direções opostas colocam novamente a onça-pintada em evidência.

A primeira refere-se a um estudo recentemente publicada na revista PLoS ONE pela Universidade inglesa East Anglia. O artigo constatou que, ao lado de outros 4 mamíferos, a onça está praticamente extinta da Mata Atlântica. Segundo as conclusões, a Onça como outros médios e grandes mamíferos possuem reduzida possibilidade de sobrevivência em pequenos fragmentos de floresta tropical, justamente o que ocorre com nossa Mata Atlântica, retalhada que está por aglomerados urbanos, propriedades particulares de terra e grandes estradas que cortam suas áreas.

Se a tudo isso somarmos os caçadores, madereiros e fazendeiros, podemos afirmar que nossas Onças tem muito pouco a esperar do futuro.  Mas na verdade, qual o problema que uma extinção total iria acarretar?

Em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, o biólogo Carlos Peres, da Universidade East Anglia, afirmou: “Não teremos florestas saudáveis em perpetuidade se não pudermos contar com os serviços de predação e dispersão de sementes”.  Para os desavisados, portanto, a onça desempenha papel fundamental para o equilíbrio ambiental de nossas florestas e, consequentemente, de todos os serviços ambientais usufruídos por nós seres humanos.

A outra notícia, mais alvissareira, vem de outro habitat da onça-pintada, o Pantanal. E se houver esperança para o animal e sua preservação ainda representar algo lucrativo para o ser humano?  Ao invés de elimina-lo para diminuir os prejuízos, preservar a onça para obter ganhos.

Para os criadores do Projeto Onçafari, isso é totalmente possível.  De que maneira? Colocando o Pantanal brasileiro na rota dos grandes safáris de observação do planeta.

Assim define otimista em poucas palavras, o idealizador dessa empreitada, o ex-piloto de Fórmula Renault, Fórmula 3 Inglesa e Indy, Mario Haberfeld. Como? Piloto de corrida? Pois é, Haberfeld mesmo antes de correr era um aventureiro e amante da natureza.  Chegou mesmo a pensar em montar um hotel na África. Mas depois de encerrar a carreira e avaliar possibilidades, pensou melhor: por que não no Brasil?

Sua amizade com Roberto Klabin, presidente das SOS Mata Atlântica e SOS Pantanal, além de proprietário do Refúgio Ecológico Cayman, no Pantanal, possibilitou a montagem do plano. A escolha da Cayman para o início do projeto foi simples.

Nessa área de 53 mil hectares, a caça é proibida e em grandes espaços totalmente preservados. Até mesmo a presença de cachorros foi vetada para não prejudicar a fauna local. E, claro, ali já haviam onças-pintadas. “Rodei o mundo conhecendo projetos de conservação e vi que era possível trazer essa ideia para o Pantanal e encontrei na Cayman o local certo para implantá-lo”.

De ameaça a lucros

Para concluir pela viabilidade do projeto, Haberfeld visitou diversos parques em que a preservação de leões e leopardos, animais historicamente muito mais temidos que a nossa onça, que hoje são uma realidade no continente africano e fonte de renda para muitas famílias. “Afinal, ao fazer um safári na África, qual o animal que mais se deseja ver, uma girafa ou um leão?”, pergunta o idealizador do Onçafari. Ele mesmo responde: “Claro que é o Leão e aqui não seria diferente. A onça-pintada estaria  no topo desses desejos”.

Se foi possível na África, nada impede que a experiência seja replicada no Brasil. Obviamente todo um trabalho que está apenas começando terá de vencer uma série de paradigmas, entre eles, a resistência dos pecuaristas. Sendo a principal atividade econômica do Pantanal,  a pecuária há muitos anos faz fazendeiros e onças viverem um conflito permanente. Será mesmo a onça uma grande ameaça ao gado pantaneiro?

Segundo pesquisa realizada pela ONG Instituto Onça-Pintada, a resposta é não! Os dados levantados pelo estudo apontam que, eventualmente, as onças atacam rebanhos para se alimentar, mas são poucos e muitas vezes mortes de animais são injustamente contabilizados como sendo responsabilidade do felino.

O Projeto Onçafari é ambicioso, pois ele se inicia no Refúgio Cayman e nas fazendas próximas para a avaliação dos hábitos e quantidade de onças existentes na área, mas também tem a pretensão de servir como modelo de preservação sustentável a ser replicado por todo o Pantanal, e quem sabe, ser replicado para outros ecossistemas brasileiros.  Assim como em outros projetos semelhantes ao Onçafari, a preservação do felin0 tem o mérito de servir como um mecanismo de preservação geral de toda a fauna pela via do ecoturismo.

Como explica Mario Haberfeld, assim como acontece na África, o turismo ecológico por meio da manutenção de uma Indústria de Observação de Animais gera empregos e desenvolvimento, preserva espécies e causa um impacto pequeno se comparados a outras atividades tradicionais.

O trabalho certamente é e continuará sendo bastante árduo. Convencer a população pantaneira e pecuaristas de que a onça é um bom negócio já não é tarefa fácil, mas o projeto quer também convencer as onças-pintadas de que o homem não é tão ameaçador assim. Os integrantes do Onçafari têm buscado se aproximar dos animais por meio de um monitoramento permanente. No futuro, assim como acontece em parques naturais ao redor do mundo, os grandes mamíferos, inclusive os mais ferozes e arredios, começam a enxergar o homem como uma presença natural.

O sucesso desse projeto está intrinsecamente ligado a importantes mudanças de visão e percepção, para quem sabe em algum dia não muito distante, sermos capazes de ao vislumbrar uma onça-pintada majestosa em seu habitat natural, enxergar muito mais que um animal, mas toda a verdadeira riqueza e patrimônio da biodiversidade brasileira.

Toda a força ao Onçafari!

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2 comentários

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Guilherme Bettamio Cerbella

02 de outubro de 2012 às 17h38

Há cerca de 2 anos pegadas de onça pintada, foram encontradas no Parque Nacional da Serra dos Órgãos, no Estado do Rio de Janeiro, não foi dada a devida importância a essa descoberta. A sensação que tenho é que os organismos gestores desse País, ainda não acordaram para a importância crucial de se proteger as onças pintadas que restam na Mata Atlântica e na Caatinga. Ficamos na dependência de ONGs, e de alguns ativistas como Mario Haberfeld, para que algo aconteça…;é muito pouco! Difícil de entender tamanho desprezo! Por que até hoje não temos educação ambiental como uma disciplina obrigatória? Toda a fauna será extinta se os homens continuarem com espírito “de papel moeda”. Temos o dever de salvar esse maravilhoso animal que é a onça pintada!

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Mardones Ferreira

29 de agosto de 2012 às 16h50

Interessante e preocupante ao mesmo tempo.

A mata atlântica é o bioma devastado desde a chegado dos invasores portugueses.

Difícil acreditar que ainda resta algo preservado.

Sei que no sul da Bahia e aqui no Paraná há remenescentes desse bioma.

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