VIOMUNDO

Diário da Resistência


Gustavo Ferroni: Pelo fim do “auto de resistência”
Falatório

Gustavo Ferroni: Pelo fim do “auto de resistência”


02/08/2012 - 17h54

por Gustavo Ferroni, via e-mail

Olá Azenha,

Não sei se você chegou a ver essa história abaixo sobre o pai que investigou o assassinato do próprio filho por PMs. A situação do Estado de São Paulo é grave. Pela quantidade de pessoas que são mortas por PMs e a quantidade de casos que vem a tona onde eles foram executados, a situação já esta crítica demais. A PM não se dá nem ao trabalho de esconder seus crimes, de tão acostumada que esta com a impunidade.

Infelizmente não temos uma atuação séria das autoridades, nem digo governo do Estado, mas as autoridades que deveriam contrabalancear o poder do executivo, como legislativo e o judiciário.

Acho que deveríamos seriamente lutar pela extinção do chamado “auto de resistência” e que todas as mortes em confronto com a PM sejam investigadas pelo DHPP com acompanhamento do MP. Já seria um começo não?

Será que o MP não poderia entrar com um mega processo contra a secretaria estadual de segurança pública e propor um TAC com condições similares a essas?

Um abraço

Pai manda para a cadeia 5 PMs que mataram seu filho

Eletricista investigou por conta própria execução de rapaz pela polícia: ‘Ele nunca fez nada de errado, sempre evitou a violência’

01 de agosto de 2012 | 22h 30

Bruno Paes Manso – O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO – Na segunda-feira, cinco policiais militares do 14.º Batalhão (Osasco) tiveram prisão temporária decretada por suspeita de executar César Dias de Oliveira e Ricardo Tavares da Silva, ambos de 20 anos, na madrugada de 1.º de julho na zona oeste de São Paulo. O pai de César, Daniel Eustáquio de Oliveira, de 50, não acreditou na versão de “resistência seguida de morte”. Pediu licença no trabalho e passou a investigar o caso, dando subsídios para que o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) pedisse a prisão dos PMs. Oliveira contou sua história ao Estado.

“Trabalhei (na noite do crime) até a 1 hora. Sou eletricista da prefeitura de Vargem Grande Paulista. Havia uma festa junina. Pedi para ir embora porque estava com mau pressentimento. Cheguei em casa à 1h30. Naquele sábado, o César e o Ricardo tinham sessões de tatuagem na casa do primo dele. Precisava ser à noite, porque os dois trabalhavam. O César operava tear em uma indústria têxtil; o Ricardo era repositor em supermercado. Chegariam depois das 3h. Fui dormir.

Às 8h30, o vizinho chega desesperado. ‘Ligaram do Hospital Regional de Osasco, o César sofreu um acidente.’ Chego no hospital e me apresento. O atendente fala: ‘A notícia é a pior possível’. Eu falei: ‘Meu filho morreu’. E comecei a chorar.

Perguntei como. ‘Com cinco tiros.’ Além de tentarem roubar meu filho, deram cinco tiros neles. O atendente fala: ‘Peraí, não foi um bandido que matou seu filho, foi a polícia’. Olhei para ele, parei de chorar na hora. ‘Como assim a polícia matou?’ Ele disse: ‘Houve uma perseguição, ele resistiu à prisão, houve troca de tiro e seu filho morreu, chegou morto e o rapazinho está em coma’. Eu falei: ‘Não, houve um engano muito feio e grave. Vou provar que meu filho não fez isso’.

Confio no César. Tinha o coração bom, nunca gostou de violência. Saí do hospital indignado e fui para a cena do crime, analisando tudo. Como eu trabalhava com informática, tenho a mente muito analítica. Vi erros grotescos logo de cara. Cheguei perto do policial, na calma, sem acusar ninguém.

Perguntei: ‘O que houve aqui? Sou pai do dono da moto’. O PM responde: ‘Segundo os policiais, os dois meliantes viram a viatura e empreenderam fuga. O garoto pegou a arma e atirou. Seu filho caiu da moto e levantou atirando’. Eu olhei para o rapaz e para a cena e falei: ‘Não sou perito. Mas você não acha que tem coisa errada aqui?’

Indícios. Segundo os PMs, meu filho empreendeu fuga. Estranho: se ele estivesse fugido, numa CB 300, você acha que a viatura o alcançaria? Segundo: de acordo com a PM, meu filho estava fugindo com o garupa atirando na viatura. A viatura estaria atrás e a moto na frente. Por que meu filho está com dois tiros no peito, um na lateral do tórax, um na virilha e outro na perna esquerda? E por que o Ricardo estava com três tiros na perna pela lateral e não por trás?

Terceiro erro: se eles fugiam, estavam velozes ao perder o controle quando caíram da moto. Me mostra um arranhão nessa moto. Ela está intacta.

Quarto: se meu filho estava fugindo, para ele perder o controle, tem de ter marca da frenagem da moto e da polícia. Não tem.

Quinto: Se os meninos tivessem caído com a moto, eles estariam machucados. Os meninos não tinham hematomas.

Sexto: os meninos foram supostamente socorridos na hora. Não foram. Pela quantidade de sangue, eles ficaram muito tempo no chão.

Sétimo: se ele estivesse fugindo, as marcas de tiros na moto seriam em paralelo ou diagonal. Foram transversais. O PM começou a analisar a cena. Olhou para mim e falou: ‘Os policiais fizeram m…’.

Chegando ao DHPP, peguei o BO, com várias divergências. A cena do crime era incompatível. Os policiais foram burros, nem montar uma cena eles conseguiram. Eu fui mostrando as divergências. Um investigador veio gritar comigo. ‘P…, você está tirando a polícia? Tem uma testemunha. Um rapaz que mora em Carapicuíba, na Cohab I’. Eu questionei. O que esse morador de Carapicuíba estava fazendo às 3h no Rio Pequeno?

Nos dias seguintes, fui ao DHPP prestar depoimento. Falei que meu filho é inocente e os policiais me olharam daquele jeito, pensando ‘todos falam a mesma coisa’. Fui mostrando para eles, na calma, na paciência. Passei cinco dias indo todo dia no DHPP, levando testemunhas. Uma assistiu a cena do começo ao fim. Com 12 anos, a moça havia perdido um irmão assassinado por um policial. Por isso me ajudou.

Descobri mais quatro testemunhas, mas elas não foram de jeito nenhum. No quinto dia, um investigador falou: ‘Pelo seu depoimento, a gente passou a olhar a perícia e informações com outros olhos’. Na segunda-feira, meu advogado me telefona:

‘Foram executadas cinco ordens de prisão dos policiais que mataram seu filho’.

Sigo com medo de retaliações. Ouço uma moto, já me preparo. Sei que corro risco. Tatuei o rosto do meu filho no braço. Embaixo, escrevi ‘herói’. Aos 20 anos, ele já era homem. Nunca fez nada de errado, sempre evitou a violência. Quero olhar para o rosto dele todo dia, até o fim da minha vida.”





5 comentários

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do VIOMUNDO. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie. Leia o nosso termo de uso.

Milson Luiz

17 de dezembro de 2012 às 22h58

QUEM JÁ FOI VÍTIMA DA POLÍCIA, SABE MUITO BEM O QUE SENTE ESSE PAI.

Responder

damastor dagobé

03 de agosto de 2012 às 14h01

se o filho dele era tão honesto e trabalhador pq ele saiu mais cedo do serviço pq “estava com mau pressentimento”????????

Responder

    Mateus Beatle

    03 de agosto de 2012 às 19h34

    Leia aqui o artigo do professor Vladimir Safatle, amigão:
    http://www.conversaafiada.com.br/brasil/2012/07/24/safatle-sugere-a-extincao-da-pm/
    Principalmente o último parágrafo, no qual o professor Safatle escreve:
    “Tais pessoas continuarão a aplaudir todas as vezes em que a polícia brandir histericamente seu porrete. Até o dia em que o porrete acertar seus filhos.”

    Se for pouco, leia este outro artigo do Leonardo Sakamoto:
    http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2012/07/21/todos-sao-suspeitos-ate-que-se-prove-o-contrario/
    Aqui, talvez você consiga pensar um pouco nesta sua mentalidade de que “se a polícia fez alguma coisa é porque o sujeito agredido tinha alguma culpa”.

    No mais, apenas lamento por ter coragem de pensar esse tipo de coisa.

    Um abraço.

smilinguido

03 de agosto de 2012 às 14h00

“Como podemos mobilizar a população para ir às ruas e protestar?”… fácil..passa na sede do PCC que com o maior prazer eles te dão dinheiro para os panfletos, colocam seu pessoal como segurança, e se aparecer alguém pra perturbar já sabe né? vai pra vala na hora…

Responder

Flavio Moreira

02 de agosto de 2012 às 18h17

Azenha e Ferroni:
Que esperanças podemos ter de mudar esse quadro desesperador da segurança pública em São Paulo? Como podemos mobilizar a população para ir às ruas e protestar? Aliás, não corremos o risco de sermos alvo exatamente por protestarmos? Parece-me um impasse e me pergunto se realmente conseguiremos dar os primeiros passos da mudança já na próxima eleição (ganhar a Prefeitura seria um bom começo, mas e depois?).
Quanto mais leio sobre/vejo os desmandos do governo estadual e municipal em relação a esse e tantos outros temas essenciais (educação/saúde etc), mais desesperançado fico.

Responder

Deixe uma resposta

Apoie o VIOMUNDO - Crowdfunding