VIOMUNDO

Diário da Resistência


Financial Times: Bolt não nasceu do nada
Falatório

Financial Times: Bolt não nasceu do nada


13/08/2012 - 19h21

August 6, 2012 8:07 pm

Bolt is not out of the blue

por Roger Blitz, no Financial Times

sugestão do Marcelo de Matos

Quando se trata de sucesso olímpico em Londres, a Jamaica tem a receita. Muito antes de Usain Bolt detonar seus oponentes para reter o título dos 100 metros, inclusive o medalhista de prata e compatriota Yohan Blake, no domingo, outro corredor já tinha fixado no chão a marca da ilha caribenha.

Arthur Wint ganhou o ouro nos 400 metros nos Jogos Olímpicos de Londres em 1948, com tempo de 46,2 segundos, numa pista pesada do estádio de Wembley. Outro jamaicano, Herbert McKenley ficou com a prata. Outros jogos, mesmo resultado: 1-2 da Jamaica no atletismo.

Esta é a semana da Jamaica. Na segunda-feira, a ilha marcou o aniversário de 50 anos da independência do controle britânico. “Eu queria dar à Jamaica um grande presente de aniversário e penso que foi um bom começo”, disse Bolt depois da vitória.

Bolt e Blake vão repetir suas brincadeiras pré-corrida de novo, na classificação dos 200 metros, na terça-feira, um evento que, se espera, eles também vão dominar.

[Nota do Viomundo: De fato, dominaram, repetindo o 1-2, ouro e prata]

Os jamaicanos são favoritos para os revezamentos 4 x 100 masculino e feminino. Shelly-Ann Frase-Pryce e Veronica Campbell-Brown ganharam o ouro e o bronze nos 100 metros femininos de sábado.

“Existe um domínio garantido das provas por um longo tempo”, disse Albert Francis, da Associação de Atletismo Amador da Jamaica.

A base de tal confiança é a longa história do atletismo na Jamaica. O atletismo bate mesmo o cricket, que domina a cultura esportiva da maioria das outras ilhas caribenhas.

As medalhas de Wint e Bolt cobrem um espaço de seis décadas, mas ambos foram competidores nos campeonatos nacionais de atletismo da Jamaica que os britânicos estabeleceram na ilha um século atrás.

“Você não pode de repente plantar um esporte num cenário lunar”, diz Lord Coe, presidente do comitê organizador de Londres e presidente honorário do clube de corrida de Bolt e Blake na Jamaica, o Racers.

“O sucesso jamaicano não é um fenômeno repentino. As competições escolares anuais são disputadas diante de multidões de 50 mil pessoas. É um esporte que está arraigado na psique da nação”.

A Jamaica já acumulou 59 medalhas olímpicas desde a pioneira corrida de Wint. Por direito, deveria ter muito mais. Corredores nascidos na Jamaica dominam os 100 metros nas Olimpíadas. Mas, por uma variedade de razões, inclusive ofertas de treinamento em universidades dos Estados Unidos, jamaicanos competiram sob diferentes bandeiras.

Linford Christie ganhou o título em Barcelona, em 1992, como britânico. Quatro anos depois, Donovan Bailey ganhou o ouro em Atlanta pelo Canadá. Ben Johnson, o infame canadense que se dopou em Seul, em 1988, também nasceu na Jamaica.

O mesmo vale para outros eventos. E a lista cresce se incluirmos atletas com pais jamaicanos. Nela pode ser somada a garota propaganda britânica destes Jogos: a heptatleta de ouro Jessica Ennis.

Mas a taxa de imigração da equipe de atletismo da Jamaica agora está se reduzindo, diz o sr. Francis. O governo, o setor privado, patrocinadores e indivíduos investiram em instalações esportivas no país. A Jamaica tem cinco pistas sintéticas de atletismo. Crianças cujos pais agora poupam para comprar sapatilhas antes corriam descalças na grama.

Quanto mais o esporte se tornar comercial, mais fácil será para a Jamaica reter a próxima colheita de Bolts e Blakes.

Outros países tem tentado reivindicar o talento das equipes de atletismo da Jamaica desde o início. Uma reportagem sobre a vitória de Wint no estádio de Wembley, no [diário britânico] Western Morning News, dizia: “Como uma colônia da Coroa, a Jamaica tinha como seu hino God Save the King, mas o público de 67 mil pessoas tinha uma justificada reivindicação sobre o atleta, já que Wint fez boa parte de sua carreira neste país”.

Wint foi o primeiro campeão olímpico da Jamaica. Embora alguns tenham escapado da rede, muitos outros virão.

PS do Viomundo: Uma forma educada de o Financial Times dizer que tudo se deve à sabedoria do colonialismo britânico.





4 comentários

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Marcelo de Matos

16 de agosto de 2012 às 11h29

(parte 2) Diz publicidade o Pão de Açúcar: “Há 20 anos investindo de diversas maneiras no desenvolvimento do esporte brasileiro, o Grupo Pão de Açúcar mantém desde o final de 2011, um centro de excelência em avaliação e prescrição do treinamento focado em equipes e atletas de alto rendimento”. Fica claro que o Estado não investe na massificação dos esportes olímpicos e a iniciativa privada o faz de maneira seletiva e imprópria. Não adianta ficar insistindo só com um determinado atleta, como Fabiana Muller: é preciso criar o esporte de massa, com competições regionais, estádios populares. O vôlei é mais um exemplo? Será que só temos um técnico competente e um levantador confiável? Precisamos de atletas altos e fortes para renovar nossa equipe. Não importa que eles não tenham olhos azuis, nem tenham nascido na Califórnia brasileira Ribeirão Preto. Enquanto não massificarmos o esporte o Brasil continuará fazendo fiasco e perdendo da Rússia na final do vôlei.

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Marcelo de Matos

16 de agosto de 2012 às 11h28

(parte 1) Estamos às portas de uma nova olimpíada e nosso país no limiar de um novo fiasco. Por quê? Porque não cuidamos da renovação das equipes que já temos e, principalmente, porque não criamos novos times de competidores, buscando o biótipo ideal para cada esporte. Somos um país continente com múltiplas etnias: é só buscar o indivíduo certo para cada esporte. Os afrodescendentes, mundo afora, destacam-se sobremaneira no atletismo. Aqui insistimos com atletas brancos (Mauren Maggi, Fabiana Murer), sem renovação. O COB não trabalha para conquistarmos mais medalhas – parece só fazer política e apadrinhamentos. Temos uma imensa população de afrodescendentes, grande parte dela ainda excluída da vida social. O Estado, em parceria com a iniciativa privada, deve oferecer condições para que venham a praticar esportes.

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Mardones Ferreira

16 de agosto de 2012 às 10h15

Ou, uma forma do FT lembrar que foram os britânicos que plantaram as sementes que geraram frutos como Wint, Bolt, Shelly-Ann e Yohan, dentre outros.

Sem esquecer que a Jamaica cuidou tão bem da semente que a árvore cresceu e seus frutos são valiosos.

É a mesma relação com os corredores do Quênia, que foram incentivados por religiosos europeus.

Reconhecer a contribuição de outros no nosso sucesso é uma atitude salutar. E em nada diminui nosso mérito.

Nietzsche afirmou que somos resultado daqueles que vieram antes de nós. E também disse que somos como uma pedra bruta que precisa ser lapidada.

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    Marcelo de Matos

    16 de agosto de 2012 às 10h57

    “Nietzsche afirmou que somos resultado daqueles que vieram antes de nós. E também disse que somos como uma pedra bruta que precisa ser lapidada”. Será que dá para estender uma ponte entre a filosofia e os esportes olímpicos? Para Sartre, o substrato cultural “daqueles que vieram antes de nós” não tem o menor valor. O homem só começa a existir a partir de suas escolhas pessoais. Dizer que o homem é uma pedra que precisa ser lapidada causa espanto. Fico perplexo quando ouço dizer que três partidos políticos vão se fundir, ou que certa pessoa, católica, vai se converter ao judaísmo, ou ao islamismo, para se casar. A meu ver fusão e conversão é só para coisas – pessoas não se convertem. O atleta precisa ser treinado – apenas isso. Claro que deveríamos buscar o biótipo ideal para a prática de atletismo. Temos aqui indivíduos de várias etnias que poderiam se tornar Usain Bolt e David Lekuta. O COB, porém, não os procura. Não há renovação: o vôlei, por exemplo, continuará com Bernardinho e Bruno ad eternum.


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