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Embrapa: pública para quem?
Falatório

Embrapa: pública para quem?


14/05/2012 - 19h36

DEBATE ABERTO

Embrapa: pública para quem?

Quem o governo está ouvindo sobre os rumos da Embrapa? Que voz(es) o governo vai considerar? Entristece os trabalhadores da Embrapa que o Ministro da Agricultura Mendes Ribeiro Filho se ausente desse debate com a sociedade e, principalmente, com os trabalhadores da empresa que há quase 40 anos a sustentamos com suor e dedicação.

Vicente Almeida, na Carta Maior, sugerido pela leitora Maria Mello

É inegável a mobilização social quando se trata de discutir os rumos estratégicos de umas das maiores empresas de pesquisa e desenvolvimento agropecuário do mundo, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

Em pouco mais de 60 dias, vários editoriais e artigos de autoridades e articulistas políticos de grandes jornais no país se manifestaram sobre o tema. A abertura de seu capital para a iniciativa privada, transformando-a em Embrapa S/A, tem sido o mote para animar esse debate a esmo.

De uma maneira geral, as opiniões se dividem entre os que defendem uma Embrapa mais incorporada à lógica de mercado capitalista, de inspiração mais atrelada aos princípios neoliberais, e aqueles que apregoam uma Embrapa totalmente pública. É preciso, porém, ir além das aparências expressas nos discursos hegemônicos desses dois grupos.

Os primeiros reafirmam que a produção de conhecimento e tecnologia deve estar voltada à produção de mercadorias e que o Estado deve se abrir cada vez a esse setor, possibilitando aos interesses privados uma ingerência mais efetiva nos rumos da Embrapa. Para isso, sua estrutura e “cultura” organizativa devem se adequar aos valores apregoados e praticados nas relações de trabalho da iniciativa privada. O alimento e todo o conhecimento dali gerados serão mediados pelo interesse particular, agora no seu DNA jurídico-administrativo.

Ao defender uma Embrapa 100% pública, o segundo grupo apresenta uma aparente contradição a essa ideia. No entanto, logo nas primeiras linhas de sua argumentação, com raras exceções, querem dizer, na verdade, que a Embrapa tem de ter dinheiro 100% público voltado a interesses 100% privados.

É neste ponto que as elites econômicas e setores do governo se encontram em relação aos rumos da Embrapa: uma empresa pública para atender o privado. Até aqui, nenhuma novidade histórica, pois sabe-se publicamente que o Estado militar golpista de 1964 tinha muito pouco de nacionalismo, mas tudo de autoritarismo e entreguismo aos interesses norte americanos.

Contraditoriamente, é justamente nesse item que os trabalhadores e a sociedade se diferenciam. Entender a importância da Embrapa como uma empresa estratégica para a soberania alimentar e tecnológica do país e como ferramenta imprescindível à formulação e implantação de um novo ciclo de desenvolvimento agrário e agrícola no país é o grande “x” da questão.

Uma grande questão paira no ar: quem o governo está ouvindo sobre os rumos da Embrapa? Que voz(es) o governo vai considerar? Entristece os trabalhadores da Embrapa que o Sr. Ministro da Agricultura Mendes Ribeiro Filho se ausente desse debate com a sociedade e, principalmente, com os trabalhadores da empresa que há quase 40 anos a sustentamos com suor e dedicação.

A pergunta que deve ser feita é: o que a sociedade brasileira deseja da Embrapa para consolidar um projeto de país soberano, justo e sadio do ponto de vista alimentar e tecnológico? Respondido isso, cabe ao governo e ao Estado brasileiro fazer as políticas públicas fluirem e determinar à Embrapa o cumprimento das metas ali estabelecidas.

(*) Pesquisador da Embrapa e presidente do Sindicato Nacional dos Trabalhadores de Pesquisa e Desenvolvimento Agropecuário (SINPAF)



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3 comentários

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Mardones Ferreira

17 de maio de 2012 às 10h48

Não é possível que em pleno governo de um partido que sempre defendeu o interesse público – ainda que muitos dos seus membros há muito tempo tenham debandado politicamente para a direita – deixe que uma empresa tão estratégica seja destruída em seu papel essencial de pesquisa voltado ao interesse público e não ao famigerado e poderoso mercado privado.

No entanto, depois das privatizações dos aeroportos mais rentáveis, tudo pode acontecer sob o manto do partido dos trabalhadores. O lobby das multinacionais produtoras de sementes modificadas e de defensivos agrícolas é muito forte entre os parlamentares. E isso influi no financiamento das campanhas. O interesse público fica para o debate.

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Jamilton

15 de maio de 2012 às 12h09

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) sumiu a muito tempo de suas responsabilidades enquanto empresa pública. Já tem algum tempo que não se publica notícias sobre uma instituição pública muito respeitada num passado recente. A Embrapa precisa retomar as rédeas e assumir de vez o seu compromisso com a pesquisa agropecuária brasileira. Por que a Presidente Dilma não nomeia algum nome que volte os interesses dessa empresa pública para a agricultura familiar? Seria muito melhor do que privatiza-la. Ou talvez destinasse pelo menos 30% de sua capacidade produtiva para a agricultura familiar. Bom, não sei o real motivo que fez com que a Embrapa se ausentasse do debate da agricultura brasileira. Mas, como empresa pública é dever dela se responsabilizar pelo rumo que a agricultura brasileira deve tomar.

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