VIOMUNDO

Diário da Resistência


A repercussão da “cassação” de Paulo Freire
Falatório

A repercussão da “cassação” de Paulo Freire


21/05/2012 - 16h45

Este post nasceu de uma sugestão do leitor Cássio Muniz, que estuda Ciências Políticas em Wisconsin e pediu que acompanhassemos o assunto. Começamos com a tradução do editorial do New York Times publicado em janeiro deste ano:

Arizona, na sala de aula

16.01.2012

O serviço memorial da semana passada em Tucson [referência ao ataque que matou seis pessoas e feriu a deputada democrata Gabrielle Giffords], que começou com uma oração feita por um professor de ancestrais indígenas e mexicanos, demonstrou a rica diversidade do Arizona, bem como o amor e a tolerância de muitos dos cidadãos do estado.

Infelizmente existe outro Arizona, no qual o governo estadual frequentemente promove a discórdia e a intolerância. Isso ficou dolorosamente claro na lei estadual de imigração, que dá poder à polícia para exigir documentos de imigrantes suspeitos de viver ilegalmente nos Estados Unidos. E está dolorosamente claro na nova lei de educação, que injeta temores nativistas diretamente nas salas-de-aula públicas.

A lei, que entrou em vigor no dia 31 de dezembro, bane qualquer discurso ou aula que “promova ressentimento contra raça ou classe de pessoas” ou que “advogue solidariedade étnica em vez de tratar os pupilos como indivíduos”. O procurador-geral do Arizona, Tom Horne, usou a lei imediatamente para declarar ilegais os programas de estudos mexicano-americanos no distrito escolar unificado de Tucson.

O sr. Horne, que escreveu a lei quando era superintendente de instrução pública, acusou o programa de “lavagem cerebral” em estudantes latinos, ao ensinar “chauvinismo étnico” por usar os trabalhos de autores que são críticos da relação histórica dos Estados Unidos com a América Latina e do tratamento passado dos Estados Unidos aos latinos. O sr. Horne ainda não fez o mesmo em relação a programas similares para estudantes negros, asiáticos e indígenas.

É difícil discordar das porções da lei que desencorajam a derrubada do governo. Mas o sr. Horne vai muito além dos termos da lei ao tentar evitar que estudantes colegiais estudem trabalhos como “A Pedagogia do Oprimido”, de Paulo Freire, um texto educacional clássico, ou ao tentar evitar que os estudantes aprofundem seu conhecimento de História ou de seu lugar no mundo. Autoridades escolares de Tucson dizem que, longe de promover o ressentimento dos adolescentes, o programa ajudou estudantes latinos a manter boas notas e a continuar na escola.

O distrito foi colocado numa posição difícil: extinguir o programa ou perder o financiamento estadual. Onze professores foram à Justiça para bloquear a lei. O comitê que dirige as escolas, infelizmente, não se juntou a eles.

Educadores e pais de todo o estado deveriam resistir às tentativas de atacar a educação. A Justiça exige isso. E mesmo o texto de uma lei ruim demonstra que o sr. Horne foi além do permitido. Um trecho da lei diz: “Nada deste parágrafo pode ser interpretado como tentativa de restringir ou proibir instrução sobre o Holocausto ou qualquer outro caso de genocídio ou sobre a opressão histórica de um povo baseada em etnicidade, raça ou classe”.

Arizona foi criticada com justeza nos anos 80 e início dos anos 9o quando negou-se a aderir ao país na declaração da data de nascimento de Martin Luther King como feriado. O estado finalmente concordou em 1992 e o país desde então caminhou em direção a maior harmonia racial. Os líderes políticos do Arizona envergonham a si mesmos e aos cidadãos do estado quando pregam e promovem o contrário.





6 comentários

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Roberval

24 de maio de 2012 às 11h45

Infelizmente os sentimentos, pensamentos e atitudes de muitos líderes no mundo, e em particular nos EUA, são arvorados em princípios racistas, homofóbicos e preconceituosos típicos de regimes autoritários e degenerados como os se vê nas ações dos republicanos nos EUA e dos DEMocratas no Brasil. Nessas pessoas carece o verdadeiro sentimento de AMOR ao próximo que engendra em si o reconhecimento do outro como um ser igual a você. Tristes seres!!!

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augusto2

23 de maio de 2012 às 17h12

Estamos sabendo por sites de lá’ que neste momento na Pennsylvania, o governador Tom Corbett ja optou por cortar o orçamento em USD 1.0 bi.E para
o ano fiscal 12/13 de cara 40 escolas publicas serão ‘leiloadas’ ao setor privado e centenas de professores demitidos. Isso esta em andamento desde 2011.
E pelo que li por ai, ha VARIAS medidas de corte nos EUA , por ex. de verbas consideraveis de seguro desemprego, que estao sendo adiadas ate as (re)eleiçoes do democratissimo Obama em Novembro. Logo após serão anunciadas. Na lingua deles é cut, cut cut. quem viver verá.

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Celso

23 de maio de 2012 às 14h25

A 12ª Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto-SP faz uma justa homenagem na categoria – Autor-Educação – à Paulo Freire. Informações e programação – http://www.feiradolivroribeirao.com.br/2012/

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Elias

23 de maio de 2012 às 13h04

Tucson, uma um localidade do Arizona com pouco mais de 500 mil habitantes (menor que Sorocaba – SP), mas serve como referência para demonstrar a falsa democracia de um país que se arvora como defensor da liberdade. Quase a metade dos EUA pensa como Tucson, ou seja, é republicana, é contra Obama, é a favor da democracia para si e dane o resto do mundo.

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Flavio Wittlin

22 de maio de 2012 às 14h48

Em sentido antagônico, gostaria de informar que tenho o privilégio de coordenar Curso de Educação em Saúde na PUC-Rio em parceria com a Universidade de Cumbria (UK), que tem inspiração explicitamente freiriana. E dele participam estudante norte-americana graduada em Antropologia na Universidade de Oklahoma, assim como professora da mesma disciplina egressa de lá. A práxis, que implica teoria associada inexoravel e dialeticamente à prática, é o elo resgatado neste curso, cujo engajamento ocorre na Rocinha, de onde procedem bolsistas bancados pela própria universidade. Quem quiser saber mais a respeito acesse http://www.youtube.com/watch?v=n6HV-Jpc3I8

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Mardones Ferreira

22 de maio de 2012 às 11h48

Lições da democracia estadunidense para não ser seguida. Mais uma.

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