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Processado por delegados federais, Marcelo Auler prevê, sobre a Lava Jato: “Ainda vão surgir muitas histórias, eles não andaram sempre dentro da lei”
Auler entre Norma Kodama e Meire Poza: muitas histórias nebulosas.
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Processado por delegados federais, Marcelo Auler prevê, sobre a Lava Jato: “Ainda vão surgir muitas histórias, eles não andaram sempre dentro da lei”


17/03/2021 - 11h41

Da Redação

Quando o juiz federal Sergio Moro estava no auge, as manchetes de jornais destacavam os feitos da Lava Jato e o procurador Deltan Dallagnol, feito um deputado ou senador, fazia com dinheiro público uma campanha nacional pelas 10 Medidas contra a Corrupção, o jornalista Marcelo Auler nadava contra a corrente.

Com 46 anos de profissão e um blog muito acessado, ele fez denúncias que tiveram repercussão mínima na impresa corporativa, que então bajulava Moro e Dallagnol.

Uma das primeiras foi sobre a existência de um grampo ilegal, instalado por policiais federais para ouvir conversas de doleiros presos, inclusive Alberto Youssef.

O objetivo de quem colocou o grampo era puxar fios que pudessem acelerar as investigações.

Uma sindicância fajuta chegou à conclusão de que o grampo estava desativado e tinha sido instalado para ouvir Fernandinho Beira-Mar, quando o mega traficante esteva preso em Curitiba.

Posteriormente, revelou-se que o aparelho de escuta chegou a Curitiba oito meses depois de Beira Mar ter sido transferido da capital paranaense.

Essa e outras denúncias do jornalista levaram seu blog a ser judicialmente censurado duas vezes, primeiro pela delegada federal Erika Marena, depois pelo delegado Mauricio Moscardi Grillo, autor da sindicância que concluiu que o grampo estava inativo.

Em setembro de 2019, Grillo foi punido com 8 dias de afastamento — 8 dias! — depois de Processo Administrativo Disciplinar da Corregedoria Geral da PF.

Em novembro, quando Sergio Moro já servia como ministro da Justiça a Jair Bolsonaro, a punição foi anulada.

Juntos, Marena e Grillo conseguiram tirar do ar temporiamente 10 reportagens do blog de Marcelo Auler.

O caso de Grillo teve mais repercussão porque ele usou uma chicana para mover a ação. Quando tentou a ação no juizado de pequenas causas mais próximo do bairro em que morava, em Curitiba, o pedido de censura foi negado.

O delegado tentou, então, em outra jurisdição, que apontou que não poderia receber a ação por causa do endereço.

Finalmente, Grillo teve a ação aceita e a censura decretada, usando o endereço da Polícia Federal.

Depois que o caso repercutiu na imprensa nacional, foi arquivado. Descobriu-se que Grillo, apesar de usar o endereço da PF, apresentou como prova de residência na ação uma conta que tinha o endereço de sua casa.

Em seu blog, Marcelo Auler também denunciou o delegado federal Eduardo Mauat, que pediu transferência de Curitiba para Santa Cruz do Sul alegando querer ficar perto da família, foi chamado de volta para servir à Lava Jato em Curitiba e recebeu diárias por cerca de dois anos.

No total, o delegado embolsou R$ 98 mil em diárias.

Mauat processou Auler e perdeu.

O jornalista contou com a ajuda de amigos e leitores para financiar sua defesa e as viagens que teve de fazer para se defender.

O único caso pendente é a ação de Erika Marena contra Auler e a CartaCapital, que publicou reportagem dele sobre vazamentos da Lava Jato em fevereiro de 2016 (ver trecho que motivou o processo, abaixo).

A delegada pediu indenização de R$ 100 mil e que o texto fosse retirado do ar na internet.

Como se vê, a “censura judicial” a notícias negativas parecia fazer parte do menu da Lava Jato ao mesmo tempo em que “repórteres amigos” recebiam vazamentos para publicar nas revistas de grande circulação e difundir no Jornal Nacional.

Depois de servir à Lava Jato em Curitiba, Erika Marena foi transferida para Florianópolis, onde comandou a operação Ouvidos Moucos, contra o  reitor Luiz Carlos Cancellier e funcionários da Universidade Federal de Santa Catarina.

O reitor foi falsamente acusado de desviar R$ 80 milhões e preso em circunstâncias degradantes. Foi mantido nu por duas horas diante de outros presos de penitenciária de segurança máxima.

Além do afastamento do cargo, Cancellier foi proibido de se comunicar com colegas da UFSC. Dias depois de sair da cadeia, cometeu suicídio em um shopping de Florianópolis, em 2 de outubro de 2017.

A delegada Erika Marena foi posteriormente “premiada” com a superintendência da Polícia Federal em Alagoas.

Curiosamente, os dois delegados que tentaram censurar Auler foram chamados por Sergio Moro para servir em Brasília, quando ele se tornou ministro de Jair Bolsonaro.

Marena chefiando o DRCI, o Departamento de Recuperação de Ativos Internacional e Mauat, como coordenador-geral de Articulação Institucional.

Isso deixa claro como a Força Tarefa da Lava Jato de Curitiba desde cedo estava articulada entre o juiz Moro, procuradores e delegados federais.

Era, mesmo, a República de Curitiba.

Que, até agora, conseguiu ficar praticamente impune.

Independentemente disso, Auler acha que muitas revelações ainda virão sobre os métodos ilegais da Força Tarefa, que ele denunciou em uma série batizada de Crimes da Lava Jato.

Ele próprio menciona o caso da doleira Nelma Kodama, que diz ter trocado sua delação falsa por “um prato de comida e um cobertor”.

A doleira, que ficou famosa por posar de tornozeleira para a revista Veja, apesar de condenada a 15 anos recebeu o benefício da prisão domiciliar do então juiz Moro e, no governo Temer, foi indultada.

Auler também lembra o caso da contadora do doleiro Alberto Yousseff, Meire Bonfim da Silva Poza, que foi “informante infiltrada” da Força Tarefa da Lava Jato.

A PF de Curitiba, já de posse de documentos que seriam usados pela Lava Jato, mas sem ter como justificar a origem deles, decidiu “esquentá-los” com uma busca e apreensão combinada com Meire, conforme fica claro nesta troca de mensagens, que Auler publicou em CartaCapital:

Mais tarde, foi Auler quem encaminhou Meire para fazer um depoimento em que ela relatou as ilegalidades que testemunhou enquanto colaborou com a Lava Jato (leia abaixo).

Auler também destaca o colaboracionismo da imprensa, pois ele, dono de um blog sem patrocinadores e mantido exclusivamente por leitores, trouxe à tona sozinho muito mais que toda a mídia corporativa somada — de notícias que não interessavam à Lava Jato.

O Viomundo pede a você, nosso leitor/a, colabore para manter Marcelo Auler trabalhando!

Veja no topo do post nossa entrevista com Auler.

Depoimento de Meire Poza ao procurador regional Osório Barbosa from Marcelo Auler





10 comentários

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Henrique Martins

17 de março de 2021 às 18h13

https://noticias.uol.com.br/colunas/leonardo-sakamoto/2021/03/17/com-30-de-aprovacao-bolsonaro-afasta-impeachment-mesmo-sabotando-a-saude.htm

Cerca de 30 por cento da população brasileira é evangélica. Somando os ignorantes de outras religiões ou que não professam nenhuma mais os egoístas nós chegamos facilmente na parcela da população que sustenta Bolsonaro no poder.

Responder

Henrique Martins

17 de março de 2021 às 17h59

Guardado pelas barreiras do fanatismo não tem como o coração não se transformar em gelo em determinadas situações.

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Jorge Gouveia.

17 de março de 2021 às 17h38

Bonat é uma marionete. Assim os diálogos mostraram. Não tem personalidade. O promotor ou procurador manda nele.
Os atos de Moro foram anulados pelo Fachin. Não tem razão para manter bloqueio financeiro a não ser afrontar o STF.
Nunca fizeram bloqueio com político da direita. De anos não. Bem temporário qdo houve.
O autoritarismo voltou com força total ao Brasil.
A liberdade de imprensa é só até onde a direita permite.
Geddel tá solto com seus 50 milhões. Teve bloqueio nos bens do Geddel ?
A lava jato é uma máfia. Estruturada e organizada como máfia. O tempo não mente.
Se o povo não vê isso, então, vai continuar sendo passado para trás.

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Henrique Martins

17 de março de 2021 às 17h07

https://noticias.uol.com.br/colunas/leonardo-sakamoto/2021/03/17/com-30-de-aprovacao-bolsonaro-afasta-impeachment-mesmo-sabotando-a-saude.htm

Se Hitler e Mussolini não tivessem o apoio de parte significativa da população nem o nazismo e nem o fascismo teriam existido.
O povo alemão simplesmente ficou inerte diante das atrocidades de Hitler e muitos compactuaram com ele.
Então não me surpreende que isso esteja acontecendo no Brasil, pois não é a primeira vez na história que uma parcela do povo apóia um genocida.

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Henrique Martins

17 de março de 2021 às 16h48

https://noticias.uol.com.br/colunas/leonardo-sakamoto/2021/03/17/com-30-de-aprovacao-bolsonaro-afasta-impeachment-mesmo-
sabotando-a-saude.htm

Não há dúvida que um povo tem o governo que merece. Mais também não há dúvida que os justos pagam pelos pecadores.

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Zé Maria

17 de março de 2021 às 16h34

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Documentário: (https://youtu.be/tBc6AnRZfjo)

“Sergio Moro: A Construção de um Juiz Acima da Lei”

Roteiro: Jornalistas Luis Nassif & Marcelo Auler
Produção: Jornalista Lourdes Nassif

https://www.conjur.com.br/2021-fev-09/documentario-mostra-sergio-moro-tornou-juiz-acima-lei

https://www.conjur.com.br/2021-fev-09/atuacao-moro-tambem-atingiu-pessoas-comuns-mostra-documentario
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Responder

André Álvaro Hinnah

17 de março de 2021 às 15h04

Qdo toda a sujeira vier à tona não ficará pedra sobre pedra.

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João Ferreira Bastos

17 de março de 2021 às 14h37

Hoje veio a noticia que o juiz Bonat, substituto do juiz ladrão na 13ª vara federal, manteve o bloqueio dos valores do Presidente LULA.

Quando apenas o Intercept divulgava os diálogos criminosos da quadrilha de curitiba, em um dos audios, o criminoso DD conversando com o Juiz-ladrão, fala que deveriam utilizar as verbas “esquecidas” da 13ª vara para fazerem out-doors em apoio a quadrilha.
Isso foi feito, um dos procuradores contratou um outdoor com essa verba da 13ª vara e depois de descoberto o crime, o assunto “morreu”.

Se fizerem uma auditória nas contas da 13ª vara, vão descobrir que o juiz-ladrão e esse juiz-ladrão-substituto se beneficiaram deste roubo, por isso ele precisa de tempo para cobrir o rombo criminoso nas contas

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