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Estrella: Sob ocupação estrangeira, Brasil é laboratório neoliberal de Guedes para fundos de investimento
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Estrella: Sob ocupação estrangeira, Brasil é laboratório neoliberal de Guedes para fundos de investimento


18/03/2021 - 19h41

A entrevista com Guilherme Estrella

Da Redação

Na parede de seu escritório no Rio de Janeiro, o botafoguense Guilherme Estrella exibe como troféu uma charge do ex-presidente Lula com a camisa I Love Pré-sal, uma foto ao lado da presidenta Dilma Rousseff e vários diplomas e prêmios.

O geólogo começou a trabalhar na Petrobras em 1965, foi gerente de exploração da estatal no Iraque e diretor de Exploração & Produção entre 2003 e 2012, período em que a empresa brasileira descobriu a maior reserva dos últimos 50 anos, o pré-sal.

Estrella concorda com a advogada Valkeska Teixeira Zanin Martins, que defende o ex-presidente Lula.

Ela sustenta que o Brasil se tornou um hub para golpes na América Latina através do lawfare, uma nova forma de soft power aplicada pelo Departamento de Estado e que foi adotada pela Força Tarefa da Operação Lava Jato em Curitiba.

O geólogo afirma que um Brasil hegemônico na América do Sul era uma ameaça muito grande para os Estados Unidos, por isso tratou-se de desmontar o projeto iniciado pelo ex-presidente Lula.

O pré-sal, na visão de Estrella, tornou-se uma reserva estratégica para garantir a hegemonia de Washington no século 21.

Lembramos a Estrella que é política de Estado americana reduzir a dependência de petróleo vindo do Oriente Médio, que custa muito defender com tropas e guerras.

Por isso dois anos depois da descoberta do pré-sal os Estados Unidos trouxeram de volta sua Quarta Frota Naval, além de criar o Africom, um departamento do Pentágono que cuida exclusivamente da África, onde as reservas de petróleo são abundantes na costa do Atlântico.

Para o geólogo, o passo inicial para a realidade de hoje foi dada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, quando resolveu diluir o poder do Estado brasileiro sobre a Petrobras e vendeu ações da empresa na bolsa de Nova York.

Mesmo sem posição majoritária nas ações com direito a voto, são os investidores estrangeiros quem passaram a mandar na Petrobras desde o golpe de 2016, assegura Estrella.

Organizados em fundos de investimento politicamente poderosos, eles estão participando do esquartejamento da mais importante empresa brasileira em busca de lucro rápido, sem risco e seguro.

A Petrobras vendeu 90% de seu mais importante gasoduto, o do Sudeste, por U$ 5,2 bilhões, para um consórcio liderado pela Brookfield, que tem como participantes os fundos CIC Capital Corp, da China, GIC Private, de Cingapura e o fundo de pensões de British Columbia, no Canadá.

O Fundo Mubadala, dos Emirados Árabes Unidos, comprou a refinaria Landulpho Alves-Mataripe, da Bahia, a Rlam, por U$ 1,65 bilhão.

Um estudo do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep) concluiu que a Rlam valia o dobro do preço.

A Petrobras quer vender oito de suas refinarias, sendo as próximas a Rnest, em Pernambuco, a Repar, no Paraná e a Refap, no Rio Grande do Sul.

Em entrevista ao Viomundo, o ex-presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, disse que as vendas devem desorganizar o mercado brasileiro, levando os novos donos a terem maiores custos para atuar regionalmente, com reflexo em preço mais alto dos combustíveis e derivados.

Em julho de 2019, a Petrobras começou a se desfazer de suas ações da BR Distribuidora, a maior do país, arrecadando R$ 8,5 bilhões com investidores dos bancos Merril Lynch, Citibank, Credit Suisse, JP Morgan, Santander; e, do Brasil, pelo Itaú e XP. A estatal vendeu um novo lote de ações posteriormente e hoje é o acionista minoritária, com 37,5%.

Para Estrella, a lógica dos dirigentes da Petrobras é fazer uma liquidação de tudo aquilo que represente os interesses por lucro rápido, sem risco e seguro de banqueiros e fundos de investimento.

O filé mignon, obviamente, são as reservas do pré-sal, onde a Petrobras deixou de ser operadora única. Nesta condição, a empresa brasileira tomava todas as decisões estratégicas, inclusive sobre conteúdo nacional.

Este é um processo que não começou hoje: em 2013, a Petrobras vendeu 60% do campo de Libra, com reservas de 12 a 15 bilhões de petróleo, para a francesa Total (20%), a anglo-britânica Shell (20%) e as chinesas CNPC e CNOOC (10% cada).

Hoje, a anglo-britânica Shell é a segunda maior operadora do pré-sal, além de atuar no Brasil e na Argentina através da Raízen, empresa em que fez parceria com o grupo brasileiro Cosan, inclusive nas áreas em que a Petrobras recuou, como a bionergia.

A Cosan, do grupo Ometto, é grande produtora de etanol e açúcar.

Diferentemente da Petrobras, que deixou de ser uma empresa integrada e se concentra em furar poços o mais rapidamente possível, além de se desfazer do patrimônio dos brasileiros  — é o que, afinal, garante o pagamento de dividendos anuais aos acionistas — a Shell está fazendo a transição para o futuro.

É uma empresa de energia, enquanto a Petrobras foi transformada, desde o governo Temer, numa empresa de petróleo.

Brasil x EUA

Esta excelente comparação foi publicada no site da própria Shell, sobre o potencial de produção de energia no Brasil e nos Estados Unidos.

EJ é Exajaule, uma medida de energia que equivale a 10 Jaules, para combustíveis fósseis ainda disponíveis no planeta.

PJ/Y é Patajoule por ano, também com unidade equivalente a 10 joules. Mede produção potencial de recursos renováveis.

Notem que o Brasil tem potencial muito maior que os Estados Unidos na produção de biomassa e em energia geotérmica, proveniente do calor que vem do interior do planeta.

A Petrobras deixou este campo aberto para empresas estrangeiras.

Agora, comparem o Brasil com o Reino Unido, uma das sedes da Shell:

Brasil x Reino Unido

O potencial brasileiro de produzir energia só é menor que o do Reino Unido em carvão e energia eólica no mar. No restante, é um massacre — e a Shell, não a Petrobras, está bem melhor preparada para tirar proveito disso, graças ao desmonte promovido pelos governos Temer e Bolsonaro.

Como a população brasileira é de 220 milhões de habitantes e a do Reino Unido é de cerca de 70 milhões, é apenas natural que os britânicos venham até aqui buscar seus lucros e empregos de qualidade, de olho num mercado que pode enriquecê-los imensamente, uma riqueza que poderia ser dos brasileiros.

Como diz Guilherme Estrella na entrevista, o potencial de consumo de energia brasileiro é imenso. Os dados abaixo, de 2020, do Banco Mundial, mostram o consumo de energia/per capita nos últimos anos nos Estados Unidos (verde), Reino Unido (azul), China (laranja) e Brasil (vermelho).

Para a Shell, a captura de ao menos parte do mercado brasileiro é essencial, já que o consumo per capita dos britânicos está em queda.

Uma Petrobras integrada e capaz de atuar além das fronteiras brasileiras seria uma competidora formidável para Exxon Mobil, Chevron, Shell, Total e tantas outras.

Mesmo para os chineses, os negócios com a Petrobras são uma barganha, já que o consumo de energia/per capita do país disparou e o país não tem reservas; depois de abocanhar o minério de Carajás, a prioridade número um de Beijing é garantir matéria prima barata, agora para o segundo salto econômico: a produção não mais de quinquilharias, mas de produtos de alto valor agregado, como trens de alta velocidade, turbinas eólicas e painéis de energia solar.

A Petrobras, ao ser desintegrada, simplesmente foi tirada do jogo internacional.

A lógica da Shell serve também para outras empresas estrangeiras, cujas reservas brasileiras caíram do céu para seus portfólios: a americana ExxonMobil, a espanhola Repsol/Sinopec e a norueguesa Statoil, todas, diferentemente da “nova” Petrobras, empresas integradas do poço ao poste.

O ex-diretor da Petrobras lembra que, apesar de formalmente privadas, empresas de petróleo obedecem aos interesses estratégicos de seus países de origem.

A BP, que surgiu como Anglo-Persian Oil Company, foi criada com incentivo de Winston Churchill para garantir o abastecimento de petróleo à frota do Reino Unido que lutou na Segunda Guerra Mundial, antes movida a carvão.

Hoje, a BP controla oito blocos de exploração de petróleo no Brasil, sendo um em Barreirinhas, quatro em Campos e três em Santos. Em outros 17, atua sob o comando de parceiros.

Em parceria com a Bunge, empresa originariamente da Argentina, a BP é sócia da Bunge Energia, uma das líderes no Brasil na produção de etanol, açúcar e bioeletricidade.

Importante lembrar o pioneirismo do Brasil na produção de etanol, na mistura com a gasolina e nos motores flex. Só que agora o lucro do setor está sendo transferido em parte para player internacionais — a Shell e a BP são dois exemplos.

Enquanto todas estas empresas avançam sobre o mercado brasileiro, a Petrobras claramente recua em seus projetos de investimento. 

Para Guilherme Estrella, além de estar sob ocupação externa, o Brasil é hoje o maior laboratório econômico da História para o ultraneoliberalismo, em que grandes fundos internacionais de investimento, sem rosto, se unem a capitalistas locais para desmontar o Estado e os direitos trabalhistas.

Veja a entrevista com Estrella no topo deste post.





3 comentários

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Zé Maria

19 de março de 2021 às 18h03

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Governo do PSDB/RS quer passar o rodo
na Estatal de Tratamento de Água e Esgoto,
acabando com a obrigatoriedade de Plebiscito
previsto em Dispositivo da Constituição Estadual,
porque sabe que o Povo é contra a Privatização.

Como será encaminhada a privatização da Corsan
https://www.correiodopovo.com.br/not%C3%ADcias/pol%C3%ADtica/como-ser%C3%A1-encaminhada-a-privatiza%C3%A7%C3%A3o-da-corsan-1.588994
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Apenas os Deputados do PT, PDT e PSOL são contra a Privatização.
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Comissão de Constituição e Justiça (CCJ):

Presidente: Tiago Simon – MDB
Vice-Presidente: Vilmar Zanchin – MDB

Titulares
Elizandro Sabino – PTB
Elton Weber – PSB
Frederico Antunes – PP
Mateus Wesp – PSDB
Sergio Peres – REPUBLICANOS
Sérgio Turra – PP
Tenente Coronel Zucco – PSL
Juliana Brizola – PDT
Pepe Vargas – PT

Suplentes

Adolfo Brito – PP
Dalciso Oliveira – PSB
Dirceu Franciscon – PTB
Ernani Polo – PP
Fran Somensi – REPUBLICANOS
Luiz Henrique Viana – PSDB
Patrícia Alba – MDB
Silvana Covatti – PP
Zilá Breitenbach – PSDB
Vilmar Lourenço – PSL
Eduardo Loureiro – PDT
Jeferson Fernandes – PT
Valdeci Oliveira – PT

http://www.al.rs.gov.br/legislativo/comissoes/nominata.aspx

Acesse o link abaixo, clique na cadeirinha
e envie e-mails para todos os Deputados,
com mensagem contra a Privatização:
http://www.al.rs.gov.br/deputados/

Responder

    Nelson

    20 de março de 2021 às 23h01

    Tudo dentro do normal, pois, ainda que tenha negado com firmeza que iria privatizar – repetindo outro governador de triste memória para a gauchada, Antônio Brito -, Eduardo Leite foi eleito, teve sua vitória financiada por um grande capitalista, para isso.

    Um “é dando que se recebe” explícito. Assim, o queridinho da mídia hegemônica daqui do Rio Grande está a entregar o patrimônio do povo a uns poucos grandes grupos econômicos, porque recebeu do grande capital uma boa turbinada em sua campanha ao Palácio Piratini.

    Em outubro de 2019, Leite lançou um pacotaço para detonar ainda mais o serviço público do Estado. Poucos dias depois, se bandeou para os Estados Unidos para ministrar palestras sobre gestão pública (sic).

    Ele governa com o nítido objetivo de acabar com o Estado e o serviço público e posa de grande entendido em gestão pública. Paradoxo? Não. Apenas um comportamento corriqueiro nesse mundo capitalista em que o combate à corrupção não passa de um jogo de cena montado para engabelar incautos e inocentes.

    Detalhe. Leite voou para os EUA sob o patrocínio de Jorge Paulo Lehmann. Mas, a mídia hegemônica e seus comentaristas, que se postam como ferrenhos combatentes da corrupção e dos desvios de recursos públicos, não chegaram a ver pelo menos algum inconveniente nisso.

    Bem. Quem é financiado por Lehmann vai governar em benefício de todo o povo ou, “pego pelo saco”, em benefício apenas do ínfimo estrato que mora do topo da pirâmide?

Henrique Martins

18 de março de 2021 às 23h45

https://www.correiobraziliense.com.br/mundo/2021/03/4912706-sete-paises-que-tratam-bem-a-questao-da-covid-para-o-presidente-conhecer.html

Compartilhem por gentileza.
Lamentavelmente, nosso país tem o presidente mais ignorante do planeta.

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