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Diário da Resistência


“O Estado assassinou meu filho e não socorreu! Como sangue de inocente é sucesso de operação?!”; veja vídeo
Valter Campanato/Agência Brasil, Fernando Bola/CDHM e Fotos Públicas
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“O Estado assassinou meu filho e não socorreu! Como sangue de inocente é sucesso de operação?!”; veja vídeo


12/07/2018 - 13h41

Do luto à luta

O adolescente Marcus Vinícius da Silva, de 14 anos, morreu com um tiro nas costas quando voltava da escola.

No mesmo momento acontecia a Operação Vingança da Polícia Civil, no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro.

Outras seis pessoas foram mortas e duas crianças ficaram feridas.

A mãe dele, Bruna, carrega hoje a blusa do uniforme escolar, manchada de sangue, que o menino usava no dia do assassinato. Agora é o símbolo da luta dela por justiça. Essa história começa às 7 e meia da manhã do dia 20 de junho, uma quarta-feira.

Bruna

“No dia 20 de junho, meu filho acordou atrasado. Ele sempre me pedia para colocar pra despertar o telefone às 7 da manhã. Nesse dia coloquei às 7 e meia e até levei um esporro dele”.

Marcus

“Puxa, minha mãe, a senhora sabe que é meu horário é 7 horas.. e bota pra despertar 7 e meia?”

Bruna

“Ai, meu filho, desculpa. Aí ele foi se arrumar pra ir pra escola. Quando se arrumou foi lá no quarto, que eu ainda tava sonolenta…ele bateu… eu ia trabalhar também, só ele saía primeiro que eu”.

Marcus

“Mãe, tô indo embora, tô indo pra escola”.

Bruna

“Meu filho, que horas são aí no teu celular?”

Marcus

“Oito horas”.

Bruna

“Mas meu amor, não vai dar tempo. A tua escola é um pouco longe e até e você ir andando vai chegar atrasado”.

Marcus

“Não, mãe, vai dar tempo sim. Vou passar na casa do meu amigo, chamar ele e vamos juntos que nem todo dia”.

Bruna

“Não vai dar tempo”.

Marcus

“Vai dar tempo sim”.

Bruna

“Me pediu a benção, abençoei e ele foi. Chegando na casa do amigo dele, o amigo ainda estava dormindo.  A tolerância da escola é até 8 e quinze. Até o amigo botar o uniforme e eles caminharem para escola, já tinha estourado o horário, já tinha dado 8 e quinze. O que fizeram? O amigo voltou pra tirar a roupa e saíram”.

Amigo

“Marcus, agora vou te levar pra você tirar a sua roupa. Você tá sozinho em casa?”

Marcus

“Pô, eu acho que eu tô. A minha mãe já deve ter saído pra trabalhar”.

Bruna

“Só que não, eu estava me arrumando. Nesse caminho que eles vieram fazendo…viram o blindado e meu filho, o meu filho, pediu pra voltar, não passar pelo blindado.  Porque quando o blindado vai na nossa comunidade ele dá tiro na gente, sim. A gente é sobrevivente do Estado lá, sim. Meu filho morreu na rua que eu moro”.

Marcus

“Mãe, o blindado me deu um tiro. Eles não viram que eu estava de uniforme de escola? ”

Oh, pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar

Hoje, 11 de julho, Bruna

“Não estou destilando raiva ou ódio da polícia. Polícia tem que ser levada à sério. Mas tem que trabalhar com sucesso, com êxito. Foram na imprensa falar que a operação na Maré foi um sucesso. Não foi um sucesso. Sucesso que derrama o sangue de um inocente? Com material de escola dentro da mochila? Apostila é um fuzil? Às vezes me sinto culpada porque cobrava estudo do meu filho”.

“Fizeram fake news, colagem com fotos, que meu filho era do tráfico. Não pari traficante. Sou um tipo de mãe que olha as redes sociais dos meus filhos. Criei meu filho na comunidade até os 14 anos sem tomar um tiro. O Estado entra e mata? Nesse dia 20, o Estado entrou já dando tiro. O nome da operação era Operação Vingança. Foram vingar a morte de um delgado lá de Acari. Eu não sou do Acari, sou do Complexo da Maré”.

“É muito triste chegar em casa e não ter mais alegria. Meu filho era o que brincava, fazia piada. Ele estava estudando…ele estava no lugar certo, na hora certa”.

Oh, pedaço de mim
Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais

“Nessa mesma operação já tinham matado 6 pessoas dentro de uma quitinete. O Estado se vingou no sangue dos seis e na alma de um inocente com roupa de escola”.

“Quando tem operação na Maré, o primeiro tiro sempre vem da polícia, os traficantes revidam e a gente fica no meio. É uma chuva de bala. Fica todo mundo doido, e mãe correndo para pegar os filhos na escola”.

“Eu trabalhei no lixão do Caju pra reciclar lixo e levar dinheiro pra casa. Isso nunca me fez mal. Eu suei e o pai suou. A gente ralou mas deu jeito. Nunca pensei na vida que o Estado ia matar meu filho. Só na rua que meu filho foi assassinado tinha um rastro de 51 tiros. O blindado dando tiro na terra, o helicóptero dando tiro de cima. Ficaram 200 marcas de tiros no Complexo, só do blindado aéreo”.

“Os nossos mortos têm voz e nossas filhos têm mães. Calaram meu filho, mas não calaram a mãe dele”.

Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu

“Quem socorreu meu filho foi o amigo dele. A ambulância demorou pra chegar e levar para a UPA. Ele tomou quatro bolsas de sangue em menos de duas horas. Perdeu baço, um rim e parte do estômago. A bala destruiu meu filho por dentro”.

“A pressão dele subia e descia. Eu falava no ouvido dele…reage…você não queria fazer reflexo no cabelo? Reage para fazer o reflexo. Meu filho está morto. A lógica da vida é os filhos enterrarem os pais e não o contrário”.

“Deus deve estar levando os bons pra junto dele. Os ruins estão ficando. E não foi só o Marcus. Teve a Maria Eduarda, com 4 tiros e o Geremias, também com tiro nas costas. Crianças mortas na comunidade em operações da polícia”.

“Marcus Vinicius hoje e sempre. Ele está com a Marielle. Ela toma conta dele lá em cima e eu toma conta da filha dela aqui”.

Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi

“Foi a intervenção militar que matou meu filho. E eu não vou parar. A operação policial não foi um sucesso, foi como o Rio de Janeiro, falida. Deram um tiro no próprio pé”.

“Não tive luto, eu fui pra luta. Meu kit de luta, é a mochila e a camiseta manchados de sangue. Se eu era o braço forte dele na criação, agora vou ser o braço forte em busca de justiça.

“Quero agilidade no processo. Aqui não é lugar de democracia? Então peço a ajuda de vocês. Meu filho já me levou pra São Paulo e hoje estou em Brasília”.

“Força eu tenho. Sou guerreira pra caramba. Sou ariana e meu nome é Bruna da Silva. Hoje, a irmã do Marcus olha para o céu e fala… olha a estrela Vini. O luto eu vivo em casa. Na rua eu vou à luta”

Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Lava os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus

Bruna da Silva deu esse depoimento hoje, quinta-feira (12), na Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados.

A Comissão é presidida pelo deputado Luiz Couto (PT/PB). Entre os trechos do depoimento está a letra da música “Pedaço de mim”, de Chico Buarque de Holanda, lançada em 1978.

Veja (no topo) o vídeo com o depoimento de Bruna da SIlva

Marcus Vinicius, presente!

Pedro Calvi / CDHM

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3 comentários

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Rogerio Faria

13 de julho de 2018 às 16h32

Estive no 4º CRE (SMERJ), um dia após o assassinato do aluno Marcus Vinícius. O prédio estava todo embandeirado com a bandeira do Brasil, inclusive uma grandona na recepção.
Enviei uma carta para a Coordenadoria protestando pelo descaso e a falta de respeito a memória do aluno, No texto escrevi que lugar de bandeira brasileira era nos mastros das escolas (onde não há) e não mostrando o quanto somos manifestoches.
O mais importante para esse gente é o hexa e não a qualidade na educação pública.

Responder

Rogério Bezerra

13 de julho de 2018 às 09h52

Depois da Ditadura de 1964 o Brasil saltou de 6 para 30 assassinatos para 100 mil habitantes. As polícias tornaram-se assassinas de pobres e/ou trabalhadores. E também lambem o rabo dos ricos que sabotam, violentam e traem o Brasil e toda a população.

“Estou conversando com os generais, comandantes militares. Está tudo tranquilo, os caras dizem que vão garantir. Estão monitorando o MST, não sei o quê, para não perturbar.” Romero Jucá.

Seremos um novo e grande Porto Rico, ou uma Cuba de Fulgêncio, ao sul do Atlântico a serviços dos Istaduszunidos.
Não há saída! “

Responder

Ubaldo Martins

12 de julho de 2018 às 15h25

” Só que não, eu estava me arrumando. Nesse caminho que eles vieram fazendo…viram o blindado e meu filho, o meu filho, pediu pra voltar, não passar pelo blindado. Porque quando o blindado vai na nossa comunidade ele dá tiro na gente, sim. A gente é sobrevivente do Estado lá, sim. Meu filho morreu na rua que eu moro”.

Onde está o Moro ? Onde estão os Moros ? Que não fazem nada nessa situação.
Estão preocupados em fazer política.
Pra que serve um juiz que não faz justiça ?

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