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No dia em que Mancha Verde e Gaviões da Fiel concordaram, palmeirenses especulam nos bastidores se tudo não passou de uma cilada
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No dia em que Mancha Verde e Gaviões da Fiel concordaram, palmeirenses especulam nos bastidores se tudo não passou de uma cilada


06/04/2016 - 18h59

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por Luiz Carlos Azenha

É uma rixa antiga a que envolve as duas maiores torcidas organizadas de São Paulo, a Gaviões da Fiel e a Mancha Verde.

Uma sequência de emboscadas, mortes e retaliações que vem de longe, espanta as pessoas e tira a credibilidade das duas associações.

Mas, no início desta semana, ainda que elas nem soubessem disso, concordaram.

Depois dos confrontos de domingo entre torcedores dos dois clubes, a Mancha Verde divulgou um documento demonstrando que as autoridades de São Paulo sabiam exatamente onde estariam e como se deslocariam os integrantes da organizada até o estádio do Pacaembu, para a partida contra o Corinthians.

Nos locais aconteceram três enfrentamentos que resultaram em um morto, dezenas de presos e feridos.

Nos bastidores, integrantes da torcida do Palmeiras começaram a se perguntar: por que o policiamento não foi reforçado especificamente nestes locais? Por que na estação do Brás, trajeto definido dos palmeirenses, havia apenas quatro seguranças do próprio Metrô e nenhum PM?

Um dos dirigentes da torcida, em off, fez o que antes seria inimaginável. Disse mais ou menos o seguinte: “A Gaviões mexeu com os poderosos. E eles não aceitam isso”. A teoria dele, para a qual não tem provas, é de que o documento da Mancha Verde, entregue a diversas autoridades do governo paulista, foi vazado para corinthianos.

Deste ponto-de-vista, os confrontos teriam sido estimulados para justificar a repressão contra as organizadas, com o objetivo específico de deixá-las sem as faixas que tem sido usadas para protestar contra a corrupção em São Paulo, o impeachment de Dilma Rousseff ou a TV Globo.

Um pouco antes de minha visita à Mancha Verde, na sede da Gaviões da Fiel, ouvi o mesmo de um dirigente. “Vinte anos atrás fizeram um jogo no Pacaembu em reforma. Teve briga e culparam o álcool. Agora o bode expiatório somos nós”, afirmou.

Ele não tinha nenhuma dúvida: as recentes decisões do governo Alckmin em relação ao futebol visam desmoralizar a Gaviões e, com isso, interditar os protestos pela CPI da Merenda que a organizada do Corínthians vem promovendo, fora e dentro do estádio.

A TV Globo e a FPF são coniventes, uma vez que ambas também têm sido alvos das faixas dos torcedores corinthianos, junto com a CBF. Dada a origem de classe dos integrantes das torcidas, as manifestações tem o potencial de repercutir muito junto ao povão, que parece alheio à grande institucional que o Brasil vive.

A selvageria de torcedores contra torcedores tem apoio zero. Porém, a mídia tem isolado o problema do contexto geral de matança nas periferias e da atuação violenta da PM de Alckmin.

É importante lembrar, também, que o hoje presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, o tucano Fernando Capez, foi promotor de Justiça e ganhou notoriedade e votos propondo a criminalização das torcidas. Deixou um legado e uma lição ao Ministério Público: medidas espetaculosas rendem mídia, notoriedade e votos.

A Polícia Militar afirmou que a “teoria” da Mancha Verde não tem respaldo na realidade. Argumenta que havia contingente policial não só no estádio, mas em vários outros pontos da cidade. Porém, a especulação dos dirigentes da Mancha procede: por que não havia um esquema especialíssimo de segurança nos lugares onde sabidamente estariam os palmeirenses?

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18 comentários

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Dan

09 de abril de 2016 às 00h51

Primeiro, as faixas de protesto da Gaviões e repressão policial nos estádios. Depois, dois dirigentes da torcida são agredidos e têm os braços quebrados. Na quinta-feira, protestos contra a máfia da merenda. No dia seguinte, busca e apreensão na sede da Gaviões. No domingo, relaxamento do aparato de prevenção policial e confronto entre as torcidas. Na segunda-feira, o ministério público pede o fim das torcidas organizadas e medidas são tomadas: torcida única até o fim do ano e proibição de faixas e cartazes de protestos. Teoria da conspiração? Eu, que não sou bobo nem nada, sempre quando vejo alguém querendo desqualificar algum argumento com a pecha de teoria da conspiração é exatamente aí que eu desconfio que está a verdade.

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Carlos Salgado

08 de abril de 2016 às 21h28

Faz muito sentido.
É preciso que a classe média pare de demonizar as torcidas organizadas.
Ao contrário elas tem de fazer parte das soluções dos problemas, são pessoas comuns organizadas, e isso sempre assusta.
O pecado original delas é o fato de serem organizações populares.

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jacinto c.

07 de abril de 2016 às 15h36

O fato é que apesar de torcer para o Santos, Dr. Socrates e a torcida do corinthians por mais despolitizada que seja, foi a primeira a estampar uma faixa em 1984 contra a ditadura militar.
“Anistia ampla geral e irrestrita”, estamos no começo.

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Bruno

07 de abril de 2016 às 15h24

Alguma coisa vai surgir de tudo isso. Ou melhor, alguma coisa TEM que surgir de tudo isso. O que a polícia, federação, governo e globo não se dão conta é que essas supostas presepadas criadas por eles para jogar a opinião pública contra as torcidas pode fazer emergir algo muito maior, fazer o feitiço virar contra o feiticeiro.

Estou vendo o dia que as torcidas de diversos times irão misturar suas baterias e uniformes e irão juntas à ALESP, Globo, sede do FPF e vão fazer o protesto subir de tom. O resultado disso, lá na frente, pode ser uma inimaginável politização e pacificação das torcidas. Basta as lideranças terem o mínimo de vontade e dialogarem.

Podem anotar: este fenômeno não surgiu ao acaso e também não vai terminar ao acaso.

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FrancoAtirador

07 de abril de 2016 às 04h29

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RESISTIR! SEMPRE!
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(http://www.peticaopublica.com.br/pview.aspx?pi=BR89872)
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Responder

Ale Nogueira

06 de abril de 2016 às 23h56

Querem ser maduros com seus apelos políticos, no entanto seguem com o infantilismo da rixa de torcida.

Responder

    bonobo de oliveira, severino

    07 de abril de 2016 às 08h22

    O fato de terem acordado para uma realidade, além do pão e circo que interessa às organizações patronais, já é uma grande evolução. Se foram jogados na arena, como nos tempos do império romano, foram tanto vítimas do conflito quanto atores. Que continuem na luta pelos seus direitos.

luiz

06 de abril de 2016 às 22h42

já q estamos em guerra contra os golpistas, nunca é demais lembrar Sun Tsu e sua “a arte da guerra”: O INIMIGO DO MEU INIMIGO, É MEU AMIGO”.

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FrancoAtirador

06 de abril de 2016 às 22h19

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É Conveniente às Corporações Patronais
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o Permanente Conflito entre Trabalhadores.
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Responder

    bonobo de oliveira, severino

    07 de abril de 2016 às 08h24

    Como nos ensinam os antigos grandes mestres.

Ninguém

06 de abril de 2016 às 22h04

Acho extremamente lamentável que, se por um lado, a Gaviões parece ter “acordado” para os problemas políticos, por outro, ainda haja elementos que só saibam encarar adversários como inimigos. É uma barbaridade. Ainda que tenha havido a participação da PM (não é possível descartar essa possibilidade, tendo em vista o que está em jogo na arena política), é inaceitável que membros da torcida tenham usado dessa informação (locais de concentração dos palmeirenses) apenas para emboscar os rivais. Isso não é ser torcedor. Isso é agir de modo criminoso. Neste momento, as torcidas adversárias deveriam se irmanar contra a Globo, a CBF e o golpe.

Em tempo: sou corinthiano com TH.

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    jeeh

    07 de abril de 2016 às 10h08

    ” Os Gaviões” e não ” a gaviões” quando se referir a nós pronuncie corretamente, vlw !

    J Fernando

    07 de abril de 2016 às 10h44

    Está correto: é “a” Gaviões. Ele se refere à Torcida Organizada Gaviões da Fiel.

Antonio

06 de abril de 2016 às 21h41

Alguém tem dúvida sobre a culpa do Alckmin neste episódio?

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Lukas

06 de abril de 2016 às 21h32

Po, Viomundo,,será que vale a pena ficar do lado destes assassinos só para combater seus inimigos?

Contra a Globo vale a pena SE aliar a qualquer um?

Responder

    bonobo de oliveira, severino

    07 de abril de 2016 às 08h28

    Até os mais apaixonados estão conseguindo enxergar a realidade sob outros pontos de vista e vc vem descer o debate para o nível do bipartidarismo.

    Sidnei Brito

    07 de abril de 2016 às 10h54

    Pô, Lukas, será que para combater supostos criminosos vale a pena qualquer coisa, até botar em risco a vida de cidadãos que não têm nada a ver com o assunto?

Danilo

06 de abril de 2016 às 21h25

Acho que não tem nada a ver, ou muito pouco a ver.

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