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Helena Martins: Como os barões da mídia ajudaram a construir o “mito” que ameaça a democracia
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Helena Martins: Como os barões da mídia ajudaram a construir o “mito” que ameaça a democracia


17/10/2018 - 10h19

Como a mídia ajudou a construir o “mito” que ameaça a democracia

Por Helena Martins*, do Intervozes, na CartaCapital

Nos últimos dez anos, o crescimento de candidatos de extrema-direita e, inclusive, fascistas marcou e transformou o cenário político em diversos países. Da França à Colômbia, dezenas sofreram com o avanço conservador.

Aqui, seguimos caminho semelhante, com o pêndulo da consciência social tendendo radicalmente à direita.

Um fenômeno tão profundo só pode ser explicado por múltiplos fatores. Entre eles, é inegável o papel da permanência da cultura machista, racista e homofóbica.

E do estímulo ao individualismo que, em contexto de aumento do desemprego e da desigualdade, transforma o outro – como o imigrante ou os setores atendidos por políticas sociais – em inimigo.

A permanente crise econômica é acompanhada pela busca de respostas fáceis, ainda que falsas. A esquerda também tem parcela de responsabilidade, seja pela adoção de políticas de austeridade ou por seu envolvimento em práticas de corrupção.

Mas aqui também é preciso chamar atenção para outra instituição, que contribuiu muito na construção desse pensamento conservador: a mídia.

Muito tem sido falado sobre o impacto de notícias falsas e do uso de dados pessoais para o direcionamento de mensagens moldadas na constituição da extrema-direita brasileira.

Mas é preciso lembrar: foram os chamados grandes meios que produziram o colchão sobre o qual hoje se deitam candidatos como Jair Bolsonaro.

A abordagem conferida à política, o direcionamento quase exclusivo da crítica ao Partido dos Trabalhadores (PT) e o posicionamento das empresas diante de questões como a crise econômica e a segurança pública foram os tecidos usados para a confecção desse cenário.

O problema tem raízes profundas.

Os meios de comunicação, em especial a televisão, dada sua abrangência, historicamente funcionam não como uma representação da realidade, mas como “a própria realidade”, como escreve o professor da UnB Venício Lima em seu livro “Mídia: teoria e política”.

No Brasil, o fato de haver um alto índice de concentração de meios faz com que a diversidade de ideias e opiniões seja pequena, o que reforça o poder de poucos grupos construírem determinados sentidos e visões de mundo.

Essa construção ocorre quando a mídia atua na definição dos temas relevantes para a discussão na esfera pública, na geração e transmissão de informações políticas, na fiscalização das administrações públicas, na crítica das políticas públicas e na canalização de demandas da população junto ao governo.

Trata-se, portanto, de uma construção paulatina, cotidiana, que agora encontra outros canais de disseminação, como a Internet.

Parte dos eleitores que votam em Jair Bolsonaro estão desencantados com a política, veem nele o candidato da mudança e da ética ou nele votam por considerá-lo uma expressão da antipolítica.

Tais percepções encontram pouca base de realidade, já que o candidato ocupa cargo parlamentar desde 1991, usou de sua influência para eleger também os filhos, e também está envolvido em diversos casos de corrupção e de favorecimento político.

O que explica em parte esse sentimento é a postura adotada pela mídia contra a política.

Foi assim antes do Golpe Militar de 1964, quando a chamada Rede da Democracia assumia a representação e a expressão da opinião pública e desqualificava instituições clássicas como partidos, sindicatos, o Congresso, etc.

A Rede era liderada por João Calmon, então deputado federal, presidente da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert).

Após o fim da Ditadura, a mídia novamente operou a construção de um discurso adversário em relação à democracia, expresso na crítica permanente à política e aos políticos.

O mesmo posicionamento tem sido visto nos últimos anos, com raras exceções – como durante o governo de Fernando Henrique, quando a imprensa adotou uma postura complacente com o poder central e seu projeto.

No início dos anos 2000, após a eleição de Lula, apesar da ausência de enfrentamento da concentração midiática por parte do governo federal, volta a regra da postura adversária aos políticos e à polícia, sobretudo após a Ação Penal 470, chamada de “mensalão”, na Operação Lava-Jato e no processo de impeachment da Presidenta Dilma.

De uma cobertura crítica ao governo a decisão editorial de apoiar o golpe, o impeachment de Dilma foi legitimado perante à opinião pública pela divulgação seletiva das acusações, especialmente das denúncias de corrupção; pela exaltação e convocação a  protestos favoráveis à destituição da Presidenta; e pela fixação de argumentos por meio da repetição e da eliminação do contraditório.

Neste blog, analisamos diversos momentos dessa construção. Em todos eles, verificamos a centralidade dada ao PT como causador de todos os problemas e mazelas sociais.

Não se trata aqui de redimir o partido de seus erros. Mas é fato que a corrupção, a crise econômica e outros problemas não nasceram nem são exclusivos dos petistas.

Ao passo em que alimentava essa percepção ilusória, a mídia abria espaço para figuras do Movimento Brasil Livre (MBL) – eleitos nos dois últimos pleitos – e para expressões ultra-conservadoras, sem cobrar delas nada mais que frases fáceis, embora incapazes de solucionar problemas complexos.

Os discursos reiterados em torno da defesa das reformas trabalhista e previdenciária, apresentadas na Globo e demais como “necessárias” e “essenciais” para “sanar as contas públicas”, agora também legitimam as propostas de retirada de direitos e de privatização defendidas por Bolsonaro.

Nada se analisa das experiências de diversos países que, ao adotarem políticas de austeridade, não conseguiram sair da crise.

Assim, o país padece de debate sobre programa e de aprofundamento, ficando suscetível a discursos rasos que circulam pelas redes e ganharam a mente de milhões de brasileiros alicerçados no tripé anti-política, anti-PT e conservadorismo.

Por meio da forma enviesada de tratar questões como a segurança pública e a situação econômica do país, os meios de comunicação também ajudaram a construir o “mito” e seus asseclas.

Agora estamos todas e todos assustados com os discursos violentos proferidos por Bolsonaro, mas falas semelhantes ocupam, há anos, a TV.

Ou não ganharam popularidade, por meio dos programas policialescos, expressão como “bandido bom é bandido morto”, “direitos humanos para humanos direitos” e tantas mais? Tudo isso ocorreu sem que a sociedade e os órgãos públicos responsáveis pela proteção aos direitos humanos agissem contra tais violações de direitos, em emissoras que são, vale lembrar, concessionárias públicas.

O mesmo país que, por não ter feito o balanço do período militar, inclusive do apoio dos principais meios de comunicação a ele, não conhece o que de fato ocorreu durante a Ditadura e então se abre a falas que naturalizam sua volta.

É este o tamanho do risco que vivemos. Mesmo assim, Record e Band já definiram seu apoio a Bolsonaro, violando inclusive a lei eleitoral.

Articulistas e apresentadores da Globo seguem na linha de que não já mal maior ao país que o PT. Tudo indica que a democracia, se padecer ainda mais, o fará também por efeito do sistema midiático.

*Helena Martins e jornalista, doutora em Comunicação pela UnB, professora da Universidade Federal do Ceará e integrante da coordenação do Intervozes

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3 comentários

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Odilio Miranda

17 de outubro de 2018 às 13h18

Vejo quase todos os dias o Merval Pereira endossa os preconceitos do Bolsonaro a mando de seus patrões ou nao. Enaltece qualidades inexistentes no Bolsonaro, se cala sobre racismo, misoginia, homofobia e machismo desse ser repugnante e toda a midia faz a mesma coisa. Quem cala consente.
A globo tb defende o torturador Ustra se defende o Bolsonaro.
É o fim da picada defender um assassino do Estado que torturou e matou tanta gente inocente.
Ficam repetindo a cantilena que o PT quebrou o Brasil, mas nao dizem uma unica palavra sobre o machismo e racismo desse deputado verme que nao gosta de negros e muito menos de mulheres.
Mas nao dizem que o PT trouxe muitos empregos e prosperidade para o povo. Quem fez m. nao foi o PT, foi uma pessoa que nao sabia administrar e se metia muito na pasta da fazenda. O Bolsonaro NUNCA administrou nada. Ele nao sabe fazer isso, nao tem experiencia administrativa, nao tem formaçao nessa area, é um politico inabil, que so sabe usar a força bruta, ele nao ira negociar com ninguem , vai é descer o sarrafo em quem discordar dele – inclusive em jornalistas.
É apoiado pela KU KLUS KLAN. Precisa dizer mais.

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Eduardo

17 de outubro de 2018 às 12h10

Há um jeito de derrotar o fascismo e fortalecer a democracia! Haddad declarar em cartório que em 26/11/2018 se desfiliará do PT e fará um governo suprapartidario, sem militares reacionários, sem políticos ladrōes ou fichas duvidosas, sem Jucá, sem Temer, sem Ciro, sem STF, sem nada! Apenas governará para todos, trabalhando honestamente por reformas política, do ensino, tributária, previdenciária e pela soberania nacional! Este é o caminho!

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Bel

17 de outubro de 2018 às 10h57

Concordo. Faz tempo que comentaristas políticos e ¨formadores de opinião¨ da grande mídia espalhada pelos quatro cantos do Brasil, dão o tom contra o PT. Aliás, muitas expressões contra a esquerda, que hoje a direitona usa, foram repetidas e repetidas milhares de vezes na telinha, nas rádios e nos jornais da mídia monopolizada até tornarem-se um mantra para os golpistas. A mídia fez o caminho para chegarmos à beira do abismo. Resta saber se a mídia vai fazer a autocrítica que tanto cobra dos outros.

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