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Lula, o PT tem que esperar o fim do mandato para, nas ruas, derrotar Bolsonaro e Mourão ou não?
Lula na reunião da executiva nacional do PT, em Salvador, na quinta-feira,14/11. Foto: Ricardo Stuckert
Cartas para o Lula

Lula, o PT tem que esperar o fim do mandato para, nas ruas, derrotar Bolsonaro e Mourão ou não?


16/11/2019 - 21h42

Jorge Sanches: Está muito triste e difícil viver em Curitiba. Até para casar a moçada tem que pedir dinheiro nas esquinas. O Greca gosta de asfalto, odeia povo na rua. Fotos: arquivo pessoal

 Curitiba, 16 de novembro, de 2019.

Lula,

No “Crônica de uma morte anunciada”, Gabriel Garcia Marques anuncia já na primeira frase a morte do protagonista da história.

Pois eu, Lula, nesta primeira frase anuncio que deixarei de lhe escrever cartas.

Creio que consegui, nestes últimos três meses,  ser mais uma voz a denunciar as injustiças cometidas contra você.

Hoje é o segundo sábado de sua liberdade.

E, para não perder o costume, informo: há sol em Curitiba e a temperatura está amena.

Muitas pessoas têm perguntado pela minha identidade.

Respondo: sou de esquerda, mas não sou filiado a nenhum partido político.

Tenho bons amigos e o meu melhor amigo é filiado e militante do PT.

Moro (do verbo morar, por favor!!!) em Curitiba.

Sempre acreditei na sua inocência, por isso sempre defendi a sua liberdade.

E quando dava ia até a vigília gritar: “bom dia, boa tarde, boa noite e Lula Livre”.

Sei que você recebeu milhares de cartas e também quis escrever algumas.

Confesso que a decisão de escrevê-las não foi coisa simples, pensei mais ou menos uns seis meses.

Bem, aí, você já sabe o resultado: escrevi várias e pedi para o Viomundo enviá-las. Elas foram entregues?

Sabe Lula, algumas pessoas diziam e dizem que eu estava plagiando o Henfil. Lembra das “Cartas de mãe”, do Henfil?

Confesso, não plagiei, imitei.

Lula, como é a última carta peço um pouco mais de paciência porque quero abordar vários temas. Tudo bem, né?

Pois um deles é sobre Curitiba. Você ficou aqui 580 dias e nas cartas anteriores eu quase não falei nada desta cidade.

Sabe Lula, nós temos um prefeito, Rafael Greca, que acredita em contos de fadas, mas não gosta de artistas.

É bom dizer: o Greca não gosta é de gente, povo, principalmente pobre, isso ele mesmo já confessou.

Ele até proibiu apresentação de artistas de rua!

Acho que ele quer fazer de Curitiba uma cidade triste e está conseguindo.

Da rua tirou a música, a dança, o canto e os risos e colocou — claro que o Temer, Bolsonaro, Beto Richa, Sérgio Moro, Deltan Dallagnol e tantos outros ajudaram– milhares de pessoas a viverem nas ruas.

Lula, a cidade está muito triste, mesmo.

Há milhares de pessoas esperando consulta com especialistas, às vezes até um ano.

Faltam vagas nas creches e o pior, acabou de cortar vagas das creches conveniadas.

Isso sem falar que trata muito mal os funcionários públicos, tanto que quer congelar os salários por dois anos.

Aqui, está muito triste e difícil viver. Até para casar a moçada tem que pedir dinheiro nas esquinas.

O Greca odeia povo na rua. Dias antes de você chegar, ele pediu e um juiz concedeu um Interdito Proibitório, instrumento jurídico para impedir o povo de se manifestar em apoio a você.

O Greca gosta de asfalto. Gente ele quer longe e sem direitos.

Lula, agora, desculpe eu me meter onde não sou chamado.

Como te disse, tenho amigos no PT, inclusive meu melhor amigo.

Ele anda preocupado com o Congresso que vocês terão este mês — é o sétimo, não é?

Ele acha que o debate está muito aquém das necessidades do PT, assim como dos rumos que o partido vai dar à luta política.

O PT, segundo ele, tem que definir que tipo de regime nós, brasileiros, estamos vivendo atualmente: democracia, Estado de exceção ou ditadura.

Se não acertar na análise e tirar um bom programa de lutas, será difícil mobilizar o povo para derrotar o Bolsonaro.

Ele acha que não tem que esperar final de mandato.

Segundo ele também, tem que derrotar Bolsonaro e Mourão. Derrotar nas ruas e conquistar novas eleições.

Não sei o que acha, mas você terá um papel importante neste Congresso.

Agora, o último tema, é só um comentário sobre Nuestra América.

No Chile, já faz um mês que o povo na rua luta por direitos. Neste um mês, há dezenas de mortos, mulheres estupradas por policiais e membros das forças armadas. Há centenas de casos de tortura, milhares de pessoas feridas e presas.

Lula, que tristeza a Bolívia. Faz uma semana que um golpe derrubou Evo (teu amigo, né?) e Álvaro. Lá, em pouco tempo também já tem mais de uma dezena de mortos e centenas de presos e feridos.

O Equador, depois de grandes manifestações populares contra as politicas neoliberais de Lenin Moreno, parece que voltou a paz da repressão: perseguições e prisões políticas e o povo silenciado por cassetetes, bombas, balas e coturnos.

Na Colômbia, a repressão é tanta e tão longa que parece esquecida. São centenas de assassinatos políticos todos os anos.

Até qualquer dia.

Certamente nos encontraremos nas batalhas pela democracia e pela reconquista dos direitos roubados do povo brasileiro nos governos Michel Temer e Jair Bolsonaro.

Forte abraço

Jorge Sanches

PS. Obrigadíssimo a todos vocês do Viomundo por terem me ajudado a levar adiante essa empreitada. Com certeza também nos encontraremos nas ruas em defesa do Estado democrático de direito contra o autoritarismo crescente

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3 comentários

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Zé Maria

13 de dezembro de 2019 às 20h27

Dilma Rousseff sobre a aliança do PT-SP com Marta em 2020

“Entre a desonra e a guerra, escolheram a desonra … e terão guerra”
(Winston Churchill)

Por Joaquim de Carvalho, no DCM: https://t.co/6TzYpXOwi2
https://twitter.com/DCM_online/status/1205514416453824512

A ex-presidente Dilma Rousseff tem uma frase que sintetiza como vê os acenos que são feitos por petistas em direção à ex-prefeita Marta, que teve papel de destaque no golpe que a tirou do poder.

A frase é de Winston Churchill, dita depois que o então primeiro-ministro da Inglaterra, Neville Chamberlain, voltou de um encontro com Hitler em Munique, onde foi assinado um acordo.

A Inglaterra aceitou a anexação pela Alemanha de um território onde hoje fica a República Tcheca, chamada Sudetos. Era, segundo Hitler, a última reivindicação territorial da Alemanha.

Churchill sabia que não seria assim, e criticou Chamberlein:

“Entre a desonra e a guerra, escolheram a desonra e terão a guerra”, afirmou Churchill.

Batata.

Um ano depois, Hitler comandou a anexação da Polônia e teve início a Segunda Guerra.

Quando perguntada sobre como via os acenos à Marta, Dilma responde: “Podem fazer, mas eu lembro do que disse Churchill a Chamberlein.”

Marta aceita ser vice de Fernando Haddad, em coligação com o PDT, partido a que ela se filiaria.

Há outro problema para que essa aliança se concretize.

“O Ciro Gomes não quer conversa com o PT”, disse um dirigente do PDT.

Dilma tem razões absolutamente compreensíveis para se posicionar contra qualquer aproximação com Marta, mas Ciro Gomes, ao agir assim, mostra que age com o fígado.

Não é o caso de Dilma. A razão dela é política. Ela não usou essas palavras, mas o sentido da frase foi: Marta não se mostrou digna de confiança e vai trair de novo.

A ex-prefeita de São Paulo talvez tenha ultrapassado aquela linha que define o adversário de hoje como o aliado de amanhã.

Foi Tancredo Neves, ministro de Getúlio Vargas, quem afirmou:

“Em política, não se deve estar tão distante do adversário que não se possa vir a tê-lo como aliado, nem tão próximo do aliado que não se possa vir a tê-lo como adversário.”

Marta era do PT e deixou o partido depois de divergências com Dilma. Ajudou a articular o golpe.

Em setembro de 2015, ela propôs a Gabriel Chalita, então secretário de Educação de Fernando Haddad, que traísse o compromisso assumido com o então prefeito e com Lula.

Chalita estava no MDB e seria candidato a vice na tentativa de Haddad de se reeleger. Marta estava entrando no MDB, e pediu que Chalita apoiasse a candidatura dela à prefeitura de São Paulo, na disputa com Haddad.

“Você será ministro da Educação do Michel Temer”, disse.

Como ela sabia que haveria governo Temer se nem a denuncia do impeachment tinha ainda sido aceita?

Obviamente, conspirava, e quis levar Chalita para seu barco.

Ele se manteve leal ao acordo, desonrado por Michel Temer. Com a entrada de Marta no MDB na condição de que seria candidata a prefeita, Chalita foi para o PDT e perdeu a eleição com Haddad.

https://www.diariodocentrodomundo.com.br/dilma-rousseff-e-os-acenos-a-alianca-do-pt-com-marta-entre-a-desonra-e-a-guerra-escolheram-a-desonra-e-terao-guerra/

Responder

ana s.

18 de novembro de 2019 às 23h04

Lula eu não sei, mas eu li suas cartas. Até mais ver, companheiro.

Responder

niveo campos e souza

17 de novembro de 2019 às 07h17

Sem o povo nas ruas, tudo vai ser mais demorado e difícil

Responder

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