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Wilson Gomes: Diagnosticando o “médico bolsonarista”
O bolsonarismo na classe médica, além de patologia moral, virou doença intelectual e moléstia profissional Foto: Felix Zucco/Cult
Blog da Saúde

Wilson Gomes: Diagnosticando o “médico bolsonarista”


11/04/2021 - 13h35

Diagnosticando o “médico bolsonarista”

Por Wilson Gomes, na Cult, sugestão Mário Lobato 

Dos tipos políticos mais extravagantes encontrados no fundo desse abismo em que nos encontramos, o “médico bolsonarista” é um dos mais intrigantes.

O enigma começa com as duas palavras que o designam: ele é médico por substantivo, quer dizer que exerce um ofício considerado nobre em qualquer sociedade, que consiste em curar e salvar vidas; mas é também bolsonarista, por adjetivo, portanto filiado a uma atitude política que, como sobejamente demonstrado a este ponto da nossa odisseia pandêmica, coloca a identidade tribal e o fanatismo em um lugar infinitamente superior ao apreço por vidas humanas e à missão de cuidar e curar.

A tensão entre o substantivo e o adjetivo parece indicar um paradoxo.

Na verdade, trata-se de um oxímoro, como em “claro enigma”, “som do silêncio” ou “instante eterno”.

Também neste caso, o adjetivo devora, anula ou contradiz o substantivo.

O “médico bolsonarista” é, portanto, uma contradição ambulante, que só a singularidade da fauna dos abismos poderia comportar.

Não se enganem supondo a superioridade do substantivo sobre o adjetivo.

O “médico bolsonarista” não é um médico que também é bolsonarista, mas um bolsonarista que ganha a vida exercendo a medicina.

O bolsonarismo é que o define, posto que a ele se subordina tudo o mais o que a pessoa é, como pai, amigo, vizinho e, naturalmente, profissional da área de saúde.

Não terá escrúpulos de usar, por exemplo, o prestígio, a distinção e a autoridade que a sociedade lhe concede por ser médico para fazer propaganda para a sua facção política mesmo em matérias e posições que violem francamente o seu juramento e ponham em risco a saúde dos seus pacientes, pois ele é primeiro um missionário de uma crença e o soldado de uma causa.

A medicina vem depois disso, para ser usada como argumento de autoridade e facilitar a inoculação desta subespécie de bolsonarismo que surgiu na pandemia, o bolsonarismo clínico.

Chegou-se ao ponto que as mídias sociais estão cheias de exemplos de médicos autoconcedendo-se um upgrade ao status de cientista, mas não para ajudar as pessoas e as autoridades neste momento em que mais se precisaria deles, e sim para neutralizar o que prescreve e recomendam as autoridades de saúde mundo afora e para desqualificar os poucos consensos que a comunidade científica internacional tem conseguido sobre os modos corretos de se enfrentar o vírus.

Ele não descobre nem cria conhecimento, ele os sabota, exorbitando da sua autoridade.

Médicos não são cientistas, são graduados e, eventualmente, pós-graduados em medicina, e não pesquisadores com anos de laboratório, publicações científicas e um título de PhD para início de conversa.

O “médico bolsonarista”, contudo, não reconhece a distinção e pontifica em vídeos no WhatsApp, no Instagram ou no YouTube “desmascarando” a ciência e “revelando” a verdade sobre a Covid-19 que, por coincidência, é a mesma do bolsonarismo e dos negacionistas e e dos militantes antivacinas pelo mundo.

Baseados em quê?

Em ciência não é, porque o campo científico da saúde, nos dias que correm, publica diariamente centenas de estudos clínicos sobre Covid-19, que o profissional médico que está atendendo não tem a mínima condição de revisar.

Mas o “médico bolsonarista” não se baseia na ponta de lança da ciência nem nas deontologias básicas da sua área, e sim nos embustes tribais da extrema-direita sobre o comunismo e o globalismo, mas, também, sobre epidemiologia, virologia e farmacologia e medicina.

Médicos não são cidadãos e, portanto, não podem ter sua própria ideologia política?

Bem, para começar, é certamente superestimar o estágio atual do bolsonarismo considerá-lo uma ideologia. Seria supor algum sistema, um conjunto de valores coerentes, uma visão de mundo e de país.

Como ouvi esta semana do embaixador Marcos Azambuja, pensar o bolsonarismo como ideologia é tentar encontrar algum método nessa loucura.

A posição antivacina, a insistência em pseudomedicamentos, a negação e minimização da doença tem qualquer coisa a ver com ser de esquerda ou direita, conservador ou liberal? Nada.

Não há um por quê nem para quê nesse comportamento e nessa convicção, como é claro neste momento para qualquer pessoa lúcida.

Não se trata, portanto, de ideologia, de uma perspectiva minimamente coerente, mas de uma atitude e de umas concepções avulsas e avessas à racionalidade que, per se, são claramente incompatíveis com a visão de mundo da própria medicina.

Além disso, embora muitos médicos tenham se recuperado da patologia bolsonarista com o choque de realidade que tomaram com a pandemia, ainda há mais médicos no bolsonarismo do que qualquer outra classe profissional, exceto talvez policiais, milicianos e profissionais da área de segurança em geral.

O que é de causar perplexidade, pois os médicos e os profissionais da área de saúde estão dentre os que pagaram o preço mais alto em vida e sacrifícios pessoais pela pandemia que nos assola há um ano.

E são estes mesmo médicos os que sabem por experiência pessoal, nos plantões excruciantes, na experiência da morte e da doença do pessoal da linha de frente bem como de seus colegas e amigos, o quanto a mais completa falta de atuação produtiva do governo levou a este morticínio.

Por que insistem em ficar do lado da peste em vez de lutar contra ela?

Infelizmente, o bolsonarismo não infectou a classe médica com tal intensidade e velocidade por acaso.

Lastimavelmente, há uma cultura da classe médica brasileira – quer dizer, um conjunto de significados, mentalidades e valores compartilhados coletivamente – que é majoritariamente conservadora e elitista.

E não me venham com corporativismos, pois disso sabem muito melhor que eu os médicos e profissionais de saúde que, por sorte, são dissidentes e reativos a esses valores dominantes.

Foi esse elemento conservador e elitista do DNA da classe médica que serviu como porta de entrada do vírus do bolsonarismo no organismo da corporação e dos seus profissionais. E é o que tanto dificulta a recuperação dos pacientes.

A história da simbiose entre médicos e a extrema-direita pode ser registrada em vários momentos dos oitos anos que nos trouxeram ao abismo.

Assim, em 2013, vimos o médico protobolsonarista assediando médicos cubanos nos aeroportos, enquanto, em 2015, assistimos ao médico antipetista em manifestações, com seus jalecos brancos, gritando “Dilma Vaca” e denunciando a infiltração comunista por meio do Programa Mais Médicos.

Em 2018, fomos finalmente apresentados ao médico bolsonarista declarando não atender filhos de petistas, desejando malignamente que petistas importantes viessem parar no seu plantão, e compartilhando fake news (“até cair o dedo”) sobre kit gay, a grana de Lulinha e o perigo comunista em seus grupos de WhatsApp.

Sim, as nossas pesquisas constataram que os grupos de médicos são das mais importantes correias de transmissão de fake news bolsonaristas no Brasil.

Durante todo o ano de 2020 vimos o médico bolsonarista, sob o olhar silente ou cúmplice do Conselho Federal de Medicina, sabotando as medidas da OMS, promovendo e prescrevendo falsos medicamentos, negando a pandemia e minimizando as mortes dela decorrentes.

Muitos o fazem até hoje. Não temos mais, em 2021, contudo, o benefício da ignorância com respeito a de que lado está o bolsonarismo no morticínio a que assistimos, estarrecidos, todos os dias.

Os médicos e outros agentes da área de saúde não podem mais honestamente alegar desconhecimento ou dúvida.

Os doutores que continuam desafiando a OMS e o senso comum mundial prescrevendo ivermectina e cloroquina como se tivesse cabimento fazer de uma prescrição a um paciente enfermo um statement político, os doutores que gravam e postam vídeos de WhatsApp negando a letalidade da pandemia ou atacando o isolamento social e o lockdown, esses doutores já não são mais apenas um constrangimento moral, como os que insultaram cubanos ou gritavam palavras de baixo calão contra a ex-presidente.

São a negação de tudo o que a medicina deve ser para as pessoas. Quando estamos morrendo à razão de mais de 4 mil brasileiros por dia, a quem recorreremos se o médico que nos atender pode estar mais interessado em defender sua facção política e suas crenças tribais do que em nos tratar?

O bolsonarismo na classe médica, além de uma patologia moral, virou uma doença intelectual e uma moléstia profissional que leva o acometido a sacrificar tudo – toda e cada uma das crenças da medicina e do seu sublime contrato com a humanidade – no altar do seu fanatismo ideológico.

Hoje, depois de tudo o que sabemos sobre a doença e a sua letalidade, quando os erros cometidos são cristalinos e ninguém pode alegar ignorância ou inocência, o “médico bolsonarista”, essa triste entidade, é basicamente um colaboracionista, um dócil e empenhado soldadinho de jaleco branco do bolsonarismo e da sua Solução Final.

*Wilson Gomes é doutor em Filosofia, professor titular da Faculdade de Comunicação da UFBA e autor de A democracia no mundo digital: história, problemas e temas (Edições Sesc SP)

 





4 comentários

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Delmir Vaz

12 de abril de 2021 às 16h15

Mito deve ser uma categoria abaixo de Deus.
Por isso se misturou a religião.
É um jeitinho de passar a perna no pessoal com muito estudo.
E o herói deve ser uma categoria abaixo do mito.
Isso aqui virou a terra do obscurantismo.
Eu vou é me mandar igual a Ford. O último apague a luz. Pra que luz (ciência) no mundo. Usa vela.
Infelizmente como o povo não é unido talvez sempre seja assim no Brasil.
Vira-lata deve ser a categoria abaixo do herói. rsrsrs. Mete uma capa no cachorro e põe ele pra voar NA TEVE. Nosso herói !

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Edvard Elias de Souza Filho

12 de abril de 2021 às 11h03

Eu concordo com o Zé Maria.
Conheci muita gente que escolheu a medicina porque “dá status” e/ou “dá dinheiro”.
Contudo, meu tempo de professor universitário me mostrou que as duas piores áreas de conhecimento são o Direito e a Medicina.
Nos dois casos, o esforço científico é realizado por apenas exceções.
Caso alguém duvide, basta verificar o envolvimento de médicos e advogados em projetos de pesquisa, em produção científica ou em Pós-Graduação. É claro que existe um conjunto de profissionais destas áreas que fazem um excelente trabalho. Mas como já disse, são minoria, não são a regra.

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Zé Maria

11 de abril de 2021 às 19h52

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Os ‘Médicos Bolsonaristas escolherão
quem deve morrer e quem deve viver”
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Associações Médicas lançam “Protocolo
para Triagem de Pacientes de UTI”

Associação Médica Brasileira (AMB) publicou Documento com “Recomendações de Alocação de Recursos em Esgotamento durante a Pandemia de COVID-19”
Protocolo “prioriza a oferta de vagas de UTI a pacientes com maior probabilidade de recuperação,
recomendando que pacientes com baixa expectativa
de recuperação e próximos da morte recebam, preferencialmente, cuidados paliativos”

Além da AMB, assinam o documento a
Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB);
a Associação Brasileira de Medicina de Emergência (ABRAMEDE);
a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) e a
Academia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP).

(https://amb.org.br/noticias/protocolo-para-triagem-de-pacientes-em-utis)
(https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2021-04/associacoes-medicas-lancam-protocolo-para-triagem-de-pacientes-de-uti)
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Responder

Zé Maria

11 de abril de 2021 às 19h13

Antes de incorporar o Adjetivo ‘Bolsonarista’
esse ‘Médico’ já era um ‘Mercenário Fascista’,
historicamente herdeiro do ‘Eugenista Integralista’
[uma Mistura de Osmar Terra com General Mourão].

(https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1807-55092012000200009)
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