Uma só medicina, uma só patologia, uma só saúde?! A quem querem iludir?, perguntam pesquisadores

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O passado e o presente da One Health. À esquerda, Sir William Osler citado por Cardiff et al (2008) como fundador da patologia veterinária e do termo “Uma Medicina”. A foto mostra Osler autopsiando uma espécie, em sua mesa de trabalho. Ela faz parte do acervo da Biblioteca Osler de História da Medicina, Universidade McGill, Montreal, QC, Canadá. À direita, a imagem que ilustra artigo sobre a One Health no site da AVMA (AVMA (American Veterinary Medical Association). Fotos: Universidade McGill e AVMA

Por Conceição Lemes

Nesta quarta-feira, 4 de fevereiro, o Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes) publicou em seu site o artigo Uma só medicina, uma só patologia, uma só saúde, a quem querem iludir?

Lia Giraldo da Silva Augusto e Heleno Corrêa Filho são os autores.

Lia, professora titular aposentada da Fiocruz. Heleno, professor associado aposentado da Unicamp. Ambos integrantes do Cebes. 

Em rede social,  o Cebes escreveu:

A abordagem da chamada Saúde Única tem sido apresentada como solução integrada para os desafios da saúde contemporânea. No entanto, como analisam Lia Giraldo e Heleno Corrêa Filho, essa perspectiva pode ocultar desigualdades estruturais, simplificar processos complexos e despolitizar o debate sobre a determinação social, ambiental e econômica do adoecimento.

Saúde não é abstração nem neutralidade técnica. É resultado de condições de vida, trabalho, território, políticas públicas e relações de poder. Defender a saúde coletiva é enfrentar interesses econômicos, denunciar injustiças e reafirmar o direito à vida com dignidade.

Segue a íntegra do artigo. 

Primeira página do artigo sobre One Health no site da AVMA (Associação Americana de Medicina Veterinária. Foto: Reprodução do site

Uma só medicina, uma só patologia, uma só saúde, a quem querem iludir?

Por Lia Giraldo da Silva Augusto e Heleno R Corrêa Filho*, no site do Cebes

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Os profissionais de saúde do Brasil discutem potencialidades e limites do conceito de Saúde Única (‘One Health’), o qual foi introduzido sorrateiramente na pauta institucional, a partir de janeiro de 2024.

Um decreto presidencial e portarias ministeriais foram estabelecidos contrariando os princípios e as diretrizes do Sistema Único de Saúde, e também desconsiderando a pactuação ocorrida no governo de transição, em dezembro de 2022. A Saúde Única não foi posta em debate na 17ª Conferência Nacional de Saúde realizada em 2023.

Esta análise aborda aspectos da validade conceitual da construção do conhecimento no campo da saúde para os aspectos denominados epistemológicos. Além destes, existem os processos éticos e complexos da vida, da política, da economia e das relações internacionais.

A AVMA (American Veterinary Medical Association) foi uma das primeiras entidades a dar visibilidade e corpo a ‘One Health’ (Saúde Única/Uma Só Saúde) a partir da ideia de se ter Uma Só Medicina, conforme aquela publicação (Nolen, 2006; Enserink, 2007).

No escopo do conceito de ‘One Health’ apresentado pela AVMA em seu site (2026), há um conjunto de conselhos para um mundo bom para todos os viventes, no qual parece não haver conflitos de interesse.

Nele, é como se as doenças animais e humanas se equivalessem biologicamente. É como se isso bastasse para conduzir a unificação pretendida (Cardiff et al., 2008).

A palavra recorrente “saúde ideal” para os animais, seres humanos e ecossistemas é utilizada para justificar o esforço colaborativo da One Health.

Mas o que é uma “saúde ideal”? 

Isso a AVMA não diz em seu site.  É como se o senso comum já desse conta desse entendimento.

Em 1948, a Organização Mundial da Saúde  (OMS) definiu saúde como “um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não consiste apenas na ausência de doença ou de enfermidade”. 

Vemos que em ambas as formulações (da AVMA e da OMS) há uma idealização do que seja saúde.

Na descrição da One Health, as duas entidades omitem o fato de que a saúde humana, em particular, é regida pelas condições existenciais da vida em um mundo socialmente desigual.

A descrição dos compromissos sinalizados não menciona que as condições de vida estão sob relações de biopoder profundamente assimétricas, tais como iniquidade de renda, condições de habitação, segurança alimentar, trabalho, educação, qualidade do ar, água, solo, clima, acesso às políticas de seguridade social e de direitos humanos. 

Não basta estar no mundo. A história revela como se deram e se dão as guerras, o racismo, entre outros processos de exclusão, de desigualdades sociais, de privação aos bens essenciais e direitos, a exploração do trabalho, da escravidão, a opressão ideológica política e ou religiosa.

A equivalência proposta entre saúde animal, humana e dos ecossistemas falseia a complexidade dos problemas da determinação socioambiental em cada um desses sistemas. 

O escopo citado não entra no tema do direito da natureza. É comum, por exemplo, os defensores das commodities transgênicas (também defensores da ‘One Health’) utilizarem o conceito de equivalência com base na crença de que o todo é a soma das partes.

Isso não é verdadeiro. Não é porque a planta transgênica tem porcentagens iguais de proteína, gordura e carboidratos, equivalentes ao da planta nativa, que ela tem a mesma vitalidade nutricional.

Esses conceitos funcionalistas, de fácil adesão, tendem a excluir a complexidade existente nos processos biossociais, deixando de reconhecer que o todo é diferente da soma das partes. 

Há diferenciais em todos os níveis da complexa construção do biológico ao social, do político e dos ecossistemas na história socioambiental do planeta Terra.

Outra observação que vale a pena debater nas informações do site da AVMA é a de que o conceito por trás da One Health (Saúde Única) existe há séculos, mas que mesmo assim há uma fragmentação de saberes que deixa despercebida certas conexões entre a saúde animal, humana e dos ecossistemas”.

Por conta dessas frases, os defensores de Uma Só Saúde, aqui no Brasil, referem que a Saúde Única já é praticada pelos povos ancestrais e que agora ela está sendo reconhecida e apropriada para orientar as políticas públicas e o modo acadêmico de produzir conhecimento. 

Todos sabemos que no campo da saúde, desde Hipócrates, a Medicina Ocidental reconhecia que o ambiente era uma condição importante no processo saúde-doença e dela se desenvolveu a teoria miasmática para explicar o adoecimento.

Esta permaneceu hegemônica nos espaços institucionais até o século XIX, apoiada pelas igrejas cristãs, pelo Estado e pelo pensamento laico ocidental.

Isto não tem nada a ver com o xamanismo indígena ou as práticas tradicionais de fitoterapia que as mulheres e os alquimistas praticavam para dar conta daquilo que a medicina de cada época e cada lugar não conseguia resolver para a maioria da população. Isto sem contar com outros conhecimentos tanto do mundo oriental como dos indígenas em cada continente.

Unificar tudo isso como Saúde Única é, no mínimo, uma impropriedade que serve para retirar do conceito os conflitos advindos dos interesses do agronegócio, da Big Pharma’ na produção de medicamentos, vacinas, da indústria química e de biotecnologia na produção de agrotóxicos e transgênicos (Campos Silva e Da Silva, 2023).

Fazer essas unificações é, inclusive, desrespeito às culturas originárias e uma forma de retirar o pensamento crítico de porque a biologia está sobredeterminada pelo social.

Entre os itens prescritos no site da AVMA, há um geral, que serve para exemplificar o que vamos destacar a seguir.

É o compromisso de “proteger o meio ambiente por meio de programas que gerenciam resíduos agrícolas de origem animal, descarte seguro de produtos farmacêuticos e utilizam práticas ambientalmente conscientes no local de trabalho.

Em nenhuma das prescrições, a AVMA cita os agrotóxicos e os micronutrientes, que são os insumos utilizados na produção agrícola, inclusive na ração animal.

Os resíduos de agrotóxicos e micronutrientes contaminam o ambiente e os alimentos, afetando a saúde animal e humana. Vários são desreguladores endócrinos, mutagênicos, causam resistência aos antibióticos, são cancerígenos, imunotóxicos, teratogênicos e neurotóxicos.

Nesse item, provavelmente a questão do gerenciamento de resíduos de origem animal está se referindo a fezes, sangue e carcaças, que são problemas sanitários nas áreas de produção animal e de matadouros. 

Quanto ao descarte seguro de produtos farmacêuticos, a menção não especifica o que mais preocupa: os antibióticos e hormônios.

Mistura na mesma frase práticas ambientalmente conscientes nos locais de trabalho, dirigindo estas obviamente para a responsabilidade única do trabalhador que o executa.

Observa-se, assim, que a One Health defendida pela AVMA repete o que sabemos e combatemos:

  • Retira a complexidade dos processos de determinação da saúde
  • Desconsidera a sobredeterminação da saúde
  • Desconsidera a subsunção dos fenômenos em saúde
  • Equivale a dimensão menos complexa ou uma parte do processo ao todo
  • Entende o todo a partir de um holismo funcionalista, destituído de história e de imanência de fenômenos de acordo com a complexidade correspondente
  • Inverte a complexidade, colocando o mais complexo subordinado ao menos complexo
  • Desconhece a história da medicina ocidental
  • Desconsidera a contribuição da Medicina Social, reduzindo o fenômeno da saúde humana à dimensão biológica

A leitura do site da AVMA e da literatura referenciada leva a questionar se a “genética é única e o tratamento é único” para todas as espécies, incluindo a humana, haverá uma instância que decidirá o que “tratar, suprimir, adicionar, modificar” para promover os genes “bons” e reprimir os “ruins”?

Cabe perguntar a qual poder, qual ‘Big Pharma’ será atribuída a tarefa de produzir os “medicamentos”? Quem aprovará patentes, licenciará, venderá e colherá os lucros dessa promoção da “boa” genética – a nova eugenia humana, animal, vegetal e alimentar?

Se todos somos um só, e tudo indica que somos no nível quântico, mineral, biológico e genético, qual complexo financeiro-industrial-militar controlará o fluxo migratório da ‘genética ruim’ pelos estreitos e mares interiores, para que não atravessem Málaga, Ormuz, Suez, Gibraltar, Sibéria, Criméia, Bósforo e Panamá?

Cabe perguntar a qual poder, qual ‘Big Pharma’ será atribuída a tarefa de produzir os “medicamentos”? Quem aprovará patentes, licenciará, venderá e colherá os lucros dessa promoção da “boa” genética – a nova eugenia humana, animal, vegetal e alimentar?

Se todos somos um só, e tudo indica que somos no nível quântico, mineral, biológico e genético, qual complexo financeiro-industrial-militar controlará o fluxo migratório da ‘genética ruim’ pelos estreitos e mares interiores, para que não atravessem Málaga, Ormuz, Suez, Gibraltar, Sibéria, Criméia, Bósforo e Panamá?

Quem destruirá as ilhas ruins cheias de organismos não geneticamente modificados? Quem organizará a “limpeza” da genética ruim na Cisjordânia e em Gaza? Quem aplacará o samba e a rumba para atender ao ódio? Será a genética “boa” de origem britânica, belga, francesa, alemã, japonesa, holandesa, neerlandesa?

Link site da AVMA e o conteúdo acima comentado: https://www.avma.org/; https://www.avma.org/resources-tools/one-health

Referências

A.V.M.A. – AMERICAN VETERINARY MEDICAL ASSOCIATION. One Health. 2026. Disponível em: < https://www.avma.org/; https://www.avma.org/resources-tools/one-health . >. Acesso em: 02/02/2026.

CARDIFF, R. D.; WARD, J. M.; BARTHOLD, S. W. ‘One medicine—one pathology’: are veterinary and human pathology prepared? Laboratory Investigation, v. 88, n. 1, p. 18-26, 2008/01/01/ 2008. ISSN 0023-6837. Disponível em: < https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S002368372203313X >.

CAMPOS SILVA, A. R.; DA SILVA, R. A. A guerra do agronegócio contra a saúde coletiva: entrevista com Allan Rodrigo de Campos Silva / The agribusiness war against public health: interview with Allan Rodrigo de Campos Silva / La guerra del agronegocio contra la salud pública: entrevista con Allan Rodrigo de Campos Silva. Interface – Comunicação, Saúde, Educação. Botucatu – SP – Brasil: https://www.interface.org.br: 15 p. 2023.

ENSERINK, M. Initiative Aims to Merge Animal and Human Health Science to Benefit Both. Science, v. 316, n. 5831, p. 1553-1553, 2007. Disponível em: < https://www.science.org/doi/abs/10.1126/science.316.5831.1553a >.

NOLEN, R. S. Mahr calls for ‘one health’ initiative. Journal of the American Veterinary Medical Association, v. 229, n. 5, p. 640, 2006/09// 2006. ISSN 0003-1488. Disponível em: < http://europepmc.org/abstract/MED/16972371 >.

* Lia Giraldo da Silva Augusto é professora titular aposentada da Fiocruz e integrante do Cebes.

*Heleno Corrêa Filho, professor titular aposentado da Unicamp e integrante do Cebes.

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