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Toma lá, dá cá: Pazuello nomeia assessor de deputado do Centrão para coordenar Saúde Bucal; entidades repudiam
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Toma lá, dá cá: Pazuello nomeia assessor de deputado do Centrão para coordenar Saúde Bucal; entidades repudiam


20/06/2020 - 22h58

por Conceição Lemes

Eu era criança e um dente meu lá do fundo, no maxilar inferior, tinha cárie.

Naquele tempo — década de 1960 —  se você tivesse cárie, não passava no exame médico para entrar na piscina do clube.

Pelo menos na Penha, bairro da Zona Leste da cidade de São Paulo, era assim.

Meu pai me levou então ao dentista para avaliação.

Era a primeira vez que eu ia a um.

O dentista descobriu uma “cárie grande” e sugeriu, “para aproveitar que eu já estava lá”, extração do dente.

Naquele tempo,  tirava-se dente a torto e a direito, tal como se fazia com as amígdalas.

Resultado: saí de lá sem um dente lá do fundo.

Dentista era “coisa de rico”, algo inacessível  a boa parte da população.

Não é à toa que o Brasil se tornou um país de desdentados.

Foi no primeiro governo do ex-presidente Lula (PT), com a criação do Brasil Sorridente, em 2003, que essa realidade começou a mudar.

“Melhoramos muito entre crianças, muito mesmo, graças ao Brasil Sorridente“,  observa o dentista Paulo Capel,  professor titular sênior de Saúde Pública da USP e membro do GT de Saúde Bucal Coletiva da Asssociação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).

Apesar dos avanços nos governos Lula e Dilma, nem tudo foi resolvido. Seguimos com a mutilação dentária como importante problema de saúde pública.

Porém, agora com o governo Jair Bolsonaro (sem partido), o Brasil deve voltar a ser um país de desdentados.

A nomeação de Vivaldo Pinheiro Guimarães Júnior para coordenador do Departamento de Saúde Bucal do Ministério da Saúde é mais indício disso.

Ela foi publicada nessa quarta-feira, 17/06, no Diário Oficial da União.

A “expertise”  do nomeado pelo ministro pelo ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello: ser assessor parlamentar do deputado federal Zé Vitor, do PL (MG), que integra o Centrão.

Os profissionais de saúde bucal do País estão indignados, perplexos, com a nomeação.

Afinal, a área de saúde bucal do Ministério da Saúde é responsável por coordenar, em nível nacional, o trabalho realizado diariamente, por profissionais das aproximadamente 27 mil Equipes de Saúde Bucal em mais de 1.150 Centros de Especialidades Odontológicas e cerca de 2.000 Laboratórios Regionais de Prótese Dentária.

“Amadores ou curiosos não podem estar à frente do planejamento e coordenação dessa estrutura e dessas atividades. Mas é disso que se trata”, afirma Capel.

Não é um fato isolado.

“A política do governo Bolsonaro é destruir o Brasil Sorridente, asfixiando essa política pública com desfinanciamento e ocultando-a ao máximo”,denuncia Capel.

“A  expressão ‘saúde bucal’ desapareceu do site do Ministério da Saúde e o padrão de financiamento da área recuou a patamaresde 30 anos atrás, quando o SUS dava seus primeiros passos e a estrutura da saúde bucal em nível nacional não correspondia nem a 3% do que temos hoje”, prossegue.

Capel completa:

A decisão é mais um ataque aos direitos de cidadania na saúde e se insere no processo mais geral de destruição do SUS e privatização da saúde, aprofundando a desproteção social e buscando transformar direitos sociais em mercadorias a serem compradas de prestadores privados.

Seguem abaixo as notas de repúdio da Federação Interestadual de Odontologistas (FIO) e da Associação Brasileira de Saúde Bucal Coletiva (Abrasbuco)

NOTA DE REPÚDIO DA FEDERAÇÃO INTERESTADUAL DE ODONTOLOGISTAS

A Federação Interestadual dos Odontologistas – FIO, vem a público manifestar o seu repúdio ao Governo Federal pela falta de compromisso com o SUS, especialmente com a saúde bucal pública.

Desde o início do atual governo a saúde bucal tem sido relegada a segundo plano, tanto que o Brasil Sorridente desapareceu das prioridades das políticas de saúde do Ministério.

Reflexo desse descaso é a maneira como vem sendo tratada a Coordenação Geral de Saúde Bucal, troca-se a coordenação sem a mínima observância dos critérios técnicos para ocupar essa função, tal situação, promove a descontinuidade da política de saúde bucal em curso, o que denota a falta de compromisso político do Governo.

Como se já não bastassem  a escassez de recursos financeiros pelo sub-financiamento do SUS e a nefasta  Emenda Constitucional 95/2016 que congela os gastos públicos por 20 anos, além das mudanças na forma de repasse dos recursos financeiros determinadas por portarias Ministeriais ( 2436/17-PNAB e 2979/19 – PREVINE BRASIL).

No atual contexto de pandemia, em que quase 50 mil vidas foram ceifadas, a Coordenação Geral de Saúde Bucal é utilizada como moeda de troca política, quando deveria   estar sendo reforçada para contribuir no combate a Covid 19.

A indiferença e a insensibilidade social parecem ser a mola propulsora do atual governo.

A vida, pouco importa, é só um detalhe!

Preocupa-se, prioritariamente, com “a vida” da economia!

Tis atitudes, distancia o Estado do seu papel constitucional de promoção a saúde e o bem estar social.

Lembramos que o Estado Brasileiro ainda tem um gigantesco passivo na área de saúde bucal junto à população brasileira, principalmente para os 76% da população que depende, exclusivamente, do Sistema Único de Saúde.

Pelo exposto, a Federação Interestadual dos Odontologistas reitera o seu repúdio e se coloca frontalmente contrária a essa prática mudancista desta Coordenação para atender a interesses que não contribuem para o fortalecimento da saúde bucal no SUS.

Conclamamos a todos os setores da odontologia brasileira compromissados, com os rumos deste segmento, a se posicionarem diante desse prenúncio de desmonte da Política Nacional de Saúde Bucal no Brasil.

Defender a saúde bucal pública e o SUS é defender, também, a Democracia!

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2 comentários

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abelardo

21 de junho de 2020 às 23h09

Ao mesmo tempo que a política rasteira degrada a saúde bucal da população carente, a farda e a moral do exército é atingida por erradas ações políticas adotadas por representantes graduados, que atuam sem rumo e sem preparo na linha de frente do governo, sem perceberem o enorme dano que causam ao nome e ao conceito das gloriosas forças do Exército Brasileiro.

Responder

Zé Maria

21 de junho de 2020 às 10h01

Esse tal Zé Vitor, que se elegeu deputado pelo extinto PMN em Minas Gerais,
só não é mais ‘Centrão’ que o Tiririca, o Romário, o Bob Jefferson e o Queiroz.

Por falar em Queiroz, olha só
o que o Alex Frota (PSDB-SP)
disse pra QuantoÉ, ontem (20):
(https://youtu.be/aBPzVUgO6d0)

“Conheci o Queiroz durante a campanha e na convenção no Rio de Janeiro,
o próprio Flávio Bolsonaro me apresentou-o como secretário particular”

“Queiroz se tornou uma testemunha muito importante
em todo esse processo em torno do Bolsonaro.
Minha preocupação é ele acabar
como acabou o amigo e sócio, Adriano:
morto numa operação da polícia.”

“É óbvio que mais cedo ou mais tarde essa corda iria arrebentar”

“O Queiroz estava escondido no sítio do advogado dele.
É uma vergonha, uma tiração com a cara do povo brasileiro”

“De maneira sorrateira, o Queiroz pagava as contas da família Bolsonaro”

“Ele [Queiroz] pagava as contas pessoais do senador,
as escolas das filhas, boletos da família e estava protegido
pelo advogado do Flávio – lá no sítio de Atibaia –
que é também o advogado do presidente”

“Bolsonaro, através das pessoas que andam em volta dele,
tentam criar uma maquiagem e, de alguma forma,
colocar o advogado da família [Fred Wassef]
como só dos filhos dele”

“Queiroz estava escondido ou quem sabe foi semi sequestrado”

“Os presidentes do PSL, por ordem de [Jair] Bolsonaro,
contrataram a Karina [Kufa, Advogada].

Ela [Karina Kufa] ficou ganhando R$ 40 mil por mês,
mas não atuando especificamente para o TSE,
e sim para o Eduardo e o [Jair] Bolsonaro.”

“Eu tenho um contrato dela [Karina Kufa],
que ganhou 500 mil do PSL para advogar
para o [Jair] Bolsonaro e para Eduardo Bolsonaro”

“O organograma criminoso envolve a família do Jair Bolsonaro”

“Hoje, Bolsonaro tem a caneta na mão para proteger os filhos.
Eu espero que a gente consiga chegar definitivamente ao final
dessa história com Flávio Bolsonaro preso”

“Uma das filhas do Queiroz, a Nathália, era funcionária fantasma
do próprio gabinete do [Jair] Bolsonaro até ele se eleger presidente.
Ela [Nathália Queiroz] não pode alegar que não sabia.
Esse esquema já tá confirmado, mais do que confirmado.
A própria Nathália já deu declarações sobre isso também,
já tá se sentindo ameaçada.
Enfim, o quadro está todo montado, está alinhado.
Agora é com a Justiça e a Polícia Federal”

“Acho que o Flávio Bolsonaro deveria renunciar ou perder o mandato”

“Vou pedir a CPI do Queiroz”

“Hoje, o Centrão é a base do governo do Bolsonaro”

“Ele tá no meio de um cerco jurídico, difícil de sair. [Jair] Bolsonaro criou isso”

“Ele abriu mão dos aliados, dos amigos para arriscar na velha política”

“ O governo já é interino, [Jair] Bolsonaro é interino
porque quem manda é Olavo de Carvalho”

“O Eduardo, bananinha, é um frouxo, covarde.
Ele não honra o que tem entre as pernas.
Ele é um sujeito mimado, um playboyzinho
que resolveu se dar bem na política.
Não pode ser levado a sério,
se julga acima de tudo e de todos.
O cara foi criado soltando pipa no ventilador,
jogando bolinha de gude no carpete.”

“Os ataques das fake news chegam a ser linchamentos medievais virtuais.
Eles não atacam só você, mas o seu entorno, o seu trabalho.
Tentam desconstruir você dentro do seu local de trabalho
e ainda ameaçam crianças, mães, esposas e as famílias.
É um negócio que você realmente tem que tá preparado.
Você não pode de ter medo”

“Bolsonaro teve que abrir o cofre e entregar 100 milhões para o Centrão,
entregar ministérios, distribuindo verbas para os deputados, para não cair”

“Temos um presidente mentiroso, incapaz,
que não atende aos anseios do povo brasileiro”

“Não me arrependo de ter rompido [com o presidente].
Vou fazer o que puder para ver o [Jair]
Bolsonaro descendo a rampa do palácio”

“O [Jair] Bolsonaro esqueceu a cultura e o esporte.
No governo, não existem”

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