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Professor da UFRJ: Sem ampla e rápida vacinação contra covid, é iminente a piora do quadro epidemiológico
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Professor da UFRJ: Sem ampla e rápida vacinação contra covid, é iminente a piora do quadro epidemiológico


24/05/2021 - 17h58

Por Conceição Lemes

17 de janeiro de 2021. Começa no País a vacinação contra a covid-19.

Da população total de 211 milhões de brasileiros, 160 milhões estão incluídos entre os grupos que devem se vacinar.

Logo, estamos falando da necessidade de 320 milhões de doses, considerando que cada pessoa tem que tomar duas para ser considerada imunizada.

18 de maio de 2021. Até essa data, cerca de 51,7 milhões de doses tinham sido, de fato, aplicadas e registradas no banco de dados de vacinação do Ministério da Saúde.

“Quatro meses depois do início da vacinação contra covid-19 no Brasil, a cobertura vacinal na maioria dos grupos prioritários ainda é insuficiente e preocupante. A vacinação segue lenta ou paralisada, demonstrando dificuldades de alcançar até mesmo as populações mais vulneráveis”, alertam pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade de São Paulo (USP), em boletim divulgado na última sexta-feira, 21 de maio (na íntegra, ao final).

Desde 12 de março, eles publicam semanalmente uma avaliação sobre o andamento da vacinação contra a covid-19 no Brasil.

Um dos pesquisadores é Guilherme Loureiro Werneck.

Com doutorado em Saúde Pública e Epidemiologia pela Harvard School of Public Health, nos EUA, ele é professor adjunto do Instituto de Estudos em Saúde Coletiva UFRJ e professor associado do Departamento de Epidemiologia do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

Nós o entrevistamos. Confira.

Blog da Saúde —  No boletim, vocês atentam para a lenta campanha de vacinação da covid-19. Ela deve-se a quê?

Guilherme Werneck — A lentidão é fruto da escassez de vacinas e gestão equivocada do plano de imunização pelo governo federal, levando à descoordenação das ações e a problemas da vacinação em nível local.

Sem cobertura vacinal ampla atingida de forma rápida, estamos sujeitos a uma piora iminente do quadro epidemiológico.

Blog da Saúde –  Até o momento, vocês já publicaram oito boletins. Eles visam aos gestores ou à população em geral também?

Guilherme Werneck  Ambos. Gestores podem fazer uso dos dados para repensar e readequar suas estratégias de vacinação.

O público precisa estar atento para exercer o seu direito ao controle social sobre políticas públicas e exigir ações apropriadas e efetivas dos gestores.

Blog da Saúde – Por que é fundamental divulgar periodicamente a cobertura vacinal?

Guilherme Werneck  A base para avaliação do progresso de uma campanha de vacinação é o alcance de metas de coberturas vacinais.

No caso da covid-19, como temos diferentes grupos prioritários que são convocados sequencialmente, é preciso saber se as metas de coberturas dos grupos inicialmente chamados foram atingidas.

É para que não se “deixe para trás” essas prioridades cujas metas ainda não foram alcançadas e, por exemplo, desenvolver alguma estratégia de busca ativa ou “repescagem” dessas populações.

Fazer isso semanalmente é o mínimo para que se possa ter um acompanhamento efetivo que permita agir prontamente para readequar o que for necessário.

Blog da Saúde – Por sua sugestão a divulgação do monitoramento passou a ser semanal. Faz diferença ser quinzenal, por exemplo?

Guilherme Werneck — Sim. Se vacinássemos 1,5 milhão de pessoas por dia, o que é factível, a cada semana seriam cerca de 10 milhões de vacinas aplicadas, o que permitiria mudanças visíveis e substanciais na cobertura vacinal.

Periodicidade quinzenal não permitiria ações adequadas para eventuais redirecionamentos das estratégias de vacinação.

Blog da Saúde – O último boletim traz vários alertas. Quais o senhor destacaria?

Guilherme Werneck — Já se vão 4 meses de campanha e ainda é baixa a cobertura vacinal com primeira dose em indígenas e povos tradicionais. É, ainda, insuficiente a cobertura com segunda dose para as pessoas acima de 80 anos.

Todas essas populações são relativamente pequenas e foram chamadas a se vacinar desde o início, há 4 meses. Já deveriam estar com cobertura da segunda dose acima de 90%.

Além disso, há grande variações entre as Unidades da Federação, refletindo falta de coordenação nacional e dificuldades locais. Obviamente que a falta crônica de vacinas é elemento que se sobrepõe a isso tudo.

Blog da Saúde – Em quanto está a vacinação entre indígenas e as pessoas acima de 80 anos de idade?

Guilherme Werneck — Entre os que vivem em aldeias [representam 60% da população indígena nacional], apenas 73% receberam a primeira dose, o que é preocupante, pois vivem em áreas delimitadas.  Já entre os idosos com mais de 80 anos, 45% ainda não completaram a segunda dose.

Blog da Saúde – Por que é importante a cobertura da segunda dose acima de 90%?

Guilherme Werneck – As vacinas contra covid-19 disponíveis no Brasil até abril de 2021 têm eficácias que variam de 50 a 70% para prevenção de formas clínicas e graves da doença.

Assim, considerando esse perfil de eficácia e o alto potencial de transmissão do vírus, a cobertura vacinal dos grupos prioritários deve ser preferencialmente acima de 90%.

Somente assim será possível proteger parcela substancial de indivíduos e gerar algum impacto na redução da transmissão na população.

A cobertura com duas doses em cada população prioritária é um parâmetro fundamental, pois o esquema completo indicado é aquele que fornece a melhor proteção, de acordo com os dados disponíveis no momento.

Blog da Saúde – Todos os idosos que estão na faixa de 70 a 79 anos também já deveriam estar vacinados com as duas doses. Só que apenas 30% completaram a segunda dose. Por quê?

Guilherme Werneck  O principal fator é a escassez de vacinas, o que foi agravado mais recentemente com a interrupção de fornecimento da Coronavac, deixando milhares de pessoas com a segunda dose atrasada.

Um fator adicional é a gestão equivocada. Em alguns locais, não reservaram as doses para a segunda aplicação.

Blog da Saúde – Quais estados estão em pior condição?

Guilherme Werneck – Para quem tem mais de 80 anos, Acre, Pernambuco e Sergipe apresentam os piores índices para a segunda dose. Já para a faixa etária de 70-79 anos, Acre e Pará.

Blog da Saúde – Levei um susto ao ler no boletim que apenas 6,5% da população com comorbidades abaixo de 60 anos recebeu a primeira dose. Por quê?

Guilherme Werneck  Eu acho que esse dado deve ser lido com cautela, porque na medida em que pessoas mais jovens (com menos de 60 anos) são chamadas para serem vacinadas , elas não precisam comprovar a existência de doenças crônicas que justifiquem prioridade na vacinação — as chamadas comorbidades — e podem “entrar” no sistema apenas pela idade.

De qualquer forma, a própria definição do que seria uma doença crônica que devesse ser considerada prioritária para vacinação é questionável, de modo que a estimativa da população com comorbidade é muito incerta e o sistema de comprovação pode gerar confusão.

Assim mesmo, considerando os critérios atuais de priorização, a cobertura é baixa até o momento, ainda mais se considerarmos as estimativas da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD).

Acho que essa variação na definição e na estimativa da população com comorbidade só adiciona confusão a um sistema difícil de operacionalizar na prática.

Blog da Saúde – Tenho ouvido reclamação sobre a exigência do atestado médico para esse grupo de pessoas. A exigência privilegia quem tem melhores financeiras e pode pagar consulta privada em detrimento das pessoas mais vulneráveis, que dependem do SUS para conseguir um atestado. Não é um paradoxo essa exigência num momento de pandemia ?

Guilherme Werneck –Pois é, concordo plenamente. Essa exigência pode não só aumentar a desigualdade, mas também estimular a fraude, o fura-fila.

De fato, para os mais pobres é bem difícil comprovar a presença de muitas doenças crônicas, as chamadas  comorbidades, a menos que tenham cadastro de acompanhamento no programa saúde da família ou em unidade básica de saúde.

Mas muitos não possuem esse cadastro, exceto em situações crônicas mais graves, como transplantes, uso de medicação imunossupressora, tratamento de câncer e doença renal crônica, entre outras.

Blog da Saúde – A exigência do atestado médico parece uma forma de querer criar propositalmente uma dificuldade, para impedir o acesso à assistência adequada.  

Guilherme Werneck – Na prática, muitas prioridades significam ausência de prioridades.

Blog da Saúde — Na sexta-feira, conversei com uma vizinha de 51 anos, hipertensa e que toma medicação. Ela tem prontuário na UBS, mas exigiram que levasse comprovante de que é hipertensa, para tomar a vacina. Parece o famoso “já que” de perguntas em pesquisa. Foram acrescentando grupos prioritários, sem critério.

Guilherme Werneck — Pressão dos lobbies mais fortes, geralmente acoplados a interesses das classes mais abastadas.

Blog da Saúde — Além de mais vacinas, claro, o que recomenda neste momento?

Guilherme Werneck — A situação continua muito grave, a queda de casos e óbitos estacionou e está revertendo em alguns lugares. Ou seja, número de casos e mortes por covid-19 voltando a crescer.

Com coberturas baixas de imunização, entrada de novas variantes do vírus, faixas etárias mais jovens sendo acometidas, é preciso urgentemente controlar a transmissão com medidas não farmacológicas amplas.

Blog da Saúde – Isso significa?

Guilherme Werneck — Uso ampliado de máscaras de boa qualidade, preferencialmente a PFF2/N95, restrições das atividades sociais e econômicas, redução da mobilidade social e aumento do distanciamento físico.

Blog da Saúde – A PFF2/N95 é aquela mais cara, usada em UTI?

Guilherme Werneck – Embora prioritária para ambientes hospitalares e outros serviços de saúde, a PFF2 deve ser usada por todos que estejam em situações de maior risco, como locais aglomerados e pouca ventilação, inclusive transportes públicos e aeroportos.

Há empresas cobrando preços abusivos, mas mesmo no varejo é possível encontrar boas máscaras PFF2, certificadas pelo Inmetro, por valores entre R$2 e R$5.

Há sites na internet que ajudam a encontrá-las e trazem dicas de uso e reutilização, lembrando que o grau de proteção depende não só do tipo de máscara, mas do seu uso correto, bem ajustada ao rosto, cobrindo boca e nariz.

Blog da Saúde – E as de pano e aquelas mais simples também utilizadas em hospital?

Guilherme Werneck – As máscaras de pano e as cirúrgicas oferecem menos poder de filtragem. Portanto, são menos eficazes e devem ser reservadas para uso em locais de menor risco, com maior ventilação e pouco proximidade entre pessoas.

Uma opção para melhorar a proteção é usar uma máscara de pano sobreposta a uma cirúrgica.

Blog da Saúde – No ritmo atual de vacinação tem-se uma estimativa de quando toda a população estará vacinada?

Guilherme Werneck — Ainda estamos sob as dúvidas acerca da regularidade da distribuição das vacinas. Se normalizar a disponibilidade, ficamos à mercê de um plano organizado que permita vacinar, ao menos, 1,5 milhão de pessoas por dia.

Blog da Saúde – Acredita nesse milagre?!

Guilherme Werneck  Não me parece que vamos conseguir devido à total descoordenação. Mas, caso consigamos esse milagre, como você diz, acho viável cobrir todos os 160 milhões de brasileiros incluídos no programa de vacinação com uma dose até o fim do ano.  E talvez atingir 50% a 60% de cobertura com duas doses. Como você vê, estou até otimista…

Blog da Saúde — É desesperador o desprezo do governo pela vida da população.

Guilherme Werneck – Só espero que paguem pelo que estão fazendo. É preciso criar mecanismos sociais e legais de apoio às famílias para entrarem com pedidos de ressarcimento.

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