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Medicina da USP e Hospital das Clínicas alertam: Opiniões de Anthony Wong sobre Covid-19 não representam posição da instituição; vídeo
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Medicina da USP e Hospital das Clínicas alertam: Opiniões de Anthony Wong sobre Covid-19 não representam posição da instituição; vídeo


01/04/2020 - 17h21

por Conceição Lemes

O médico Anthony Wong é pediatra, focado principalmente em toxicologia.

Em seu currículo Lattes, atualizado pela última vez em 11 de dezembro de 2015,  informa que:

É médico assistente do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da FMUSP.

Tem experiência na área de Medicina, com ênfase em toxicologia.

É professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

É médico Chefe do Centro de Assistência Toxicológica (CEATOX) do Hospital das Clínicas.

(Ministra) Curso Anual de Toxicologia aos graduandos de áreas biológicas – CEATOX

Frequentemente ele aparece na mídia falando sobre toxicologia, mas dá pitacos sobre outros temas também.

Os da hora são sobre a pandemia do novo coronavírus (Covid-19).

Desde a semana passada circula nas redes sociais, blogs e sites bolsonaristas um vídeo que gravou sobre o coronavírus.

É a favor do isolamento vertical defendido pelo presidente Jair Bolsonaro, contra o isolamento social, horizontal, recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e o Ministério da Saúde.

O vídeo dura 15 minutos.

De cara, destaca a grife USP:

Olá, amigos do Brasil, eu sou médico formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo em 1972.

 Portanto, eu tenho quase 48 de medicina ativa. Enfrentei outras epidemias. Você lembra da epidemia de meningite, da década de 70. Eu era o jovem médico então. E muitos outros (sic) depois disso.

Mas agora vamos falar de coronavírus.

Atentem ao avental que utiliza.

Na manga do braço direito, aparece a logomarca do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP)

Na manga do braço esquerdo, a logomarca da própria FMUSP.

Na tentativa de dar mais credibilidade à sua fala, também cita vários autores e estudos.

Só que, uma leitura cuidadosa, mostra dados contraditórios, equivocados.

Por exemplo, aos 7min37, quando menciona o do navio que ficou atracado em Tóquio  com passageiros e tripulantes a bordo, ele diz que a doença pelo coronavírus é contagiosa, mas nem tanto (o negrito é nosso):

(…) 3.500 passageiros e tripulantes., apenas 712 testaram positivo para coronavírus.

Desses apenas 350 tiveram doença leve e 7 faleceram. Ora, se você pegar 7 falecidos, 712 testes positivos, nós temos então 1% de mortalidade.

Mas mais importantes são as outras. Metade das pessoas que testaram positivo tinham a doença e a outra metade assintomática.

Mas mais importante. E nos outros 3.500 tripulantes? Eles não tiveram doença nenhuma.

Ela é contagiosa? Sim, sem dúvida, mas nem tanto.

Só que, na sequência, ao mencionar um estudo de Harvard, ele se refere ao coronavírus, como doença de alta contagiosidade:

Um estudo feito pela Universidade de Harvard na semana passada, numa discussão acadêmica, um deles falava o seguinte: o isolamento, a quarentena, funciona em casos de epidemia, mas não para doenças de alta contagiosidade, como o coronavírus.

Porque com essa alta taxa de contágio quando se institui o fechamento, a quarentena, uma boa parte da população já foi exposta. Então faz sentido nenhum você fechar.

O público-alvo do vídeo são governadores e prefeitos, que estão adotando o isolamento social, horizontal, como estratégia para combater o coronavírus.

Aos 12min39, isso fique evidente quando Anthony Wong faz este apelo, minimizando o risco do coronavírus:

Peço, não, suplico aos governantes deste país que tomem pé da verdadeira dimensão dessa doença

Ele não é tão grave como vocês estão pensando.

As medidas que vocês tomaram de quarentena, de confinamento tão drástica, tão draconiana, trará prejuízo muito maior (sic)  não apenas na economia – isso talvez será recuperado –mas (??) à saúde das pessoas e principalmente saúde dos idosos…nós não podemos ter acesso às coisas básicas (sic).

Fechar as lojas, fechar as escolas, não faz sentido.

Fazer isolamento social, mantenha as pessoas, ensine as pessoas a conviver a uma distância segura – 2 metros.

Tendo restaurante, coloca mesa, sim, mesa, não.

Está na escola, aumenta a distância.

E assim por diante.

As filas, peçam para as pessoas ficarem um pouquinho distantes.

Educação e não medidas draconianas, policialescas, que prejudicam todos: financeiramente. mentalmente e principalmente na aquisição de doenças.

(…)

Senhores dirigentes, a dose do remédio aqui está excessiva. Você poderá matar a população.

Então, solicito as vocês a ter (sic) a posição de não levar ainda mais pânico à população

Você lembra que pânico e medo mata (sic) até   dez mais que o agente causal.

Ou seja:

1) A opinião externada por Wong no vídeo vai contra o que recomenda a Organização Mundial de Saúde (OMS) e o Ministério da Saúde, como já dissemos acima.

2) Ele é médico do complexo HC/FMUSP.

3) Gravou o vídeo usando avental com logomarcas do Instituto da Criança e da FMUSP.

Diante disso, via whatsapp, consultei o diretor da Faculdade de Medicina da FMUSP, professor Tarcisio Eloy Pessoa de Barros Filho, e por e-mail, a diretora-clínica do Hospital das Clínicas, a dra. Heloisa Bonfá, para saber se a posição do dr. Anthony é da instituição.

Falando em nome de toda a instituição, o assessor de imprensa me contatou e disse textualmente: as opiniões do dr. Wong  não representam a posição institucional do complexo HC e da Faculdade de Medicina da USP.

A propósito 1. Em seu currículo, o médico Anthony Wong diz que é professor da FMUSP.

Pesquisando no quadro de docentes de toda a Faculdade, o nome de Wong não aparece como docente.

A propósito 2. O que leva Anthony Wong a ir contra as evidências científicas? Oportunismo? Alinhamento ideológico a Bolsonaro? Irresponsabilidade ou o quê?

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16 comentários

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Ana

27 de abril de 2020 às 22h09

Que texto patético! Que vergonha! Um idiota que se acha um super intelectual colocando em check um profissional extremamente gabaritado com quase 50 anos de experiência como o Dr Wong! Vá trabalhar seu vagabundo! PARE DE DIFAMAR PESSOAS E PROFISSIONAIS DE BEM!

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Izilda

23 de abril de 2020 às 00h14

O dr. Anthony Wong é um dos maiores cientistas brasileiros , inclusive chefe do Ceatox ( Centro de assistência toxicológica ) do Hospital das Clínicas, médico pesquisador muito respeitado na comunidade científica. Sobre os comentários da escritora, precisa mostrar as evidências da resposta do Hospital, até porque, em nenhum momento o Dr . Anthony falou em nome da instituição. Ele também afirma que os cuidados de prevenção devem ser tomados. Ao que parece, o médico não falou o que a autora da reportagem queria ouvir .

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André

19 de abril de 2020 às 19h58

Ola! Ele coloca o nome completo. Todos os que o apoiaram também. Eu sou leigo, mas os que entendem do assunto, coloquem seu nome e currículo também.
Ele morou fora do país, por isso tem português meio diferente. Para ser o que ele é, primeiro precisa entrar na Medicina USP como ele. Parabéns, Doutor por sua coragem! Que critica, por favor mostre currículo e argumentos não políticos.

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Samuel Reis

08 de abril de 2020 às 11h50

Cadê o link para o pronunciamento da USP????

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Tony Costa

05 de abril de 2020 às 14h34

OK, ele é um bobão e não sabe nada. Mas gostaria de ver a opinião de alguns sabichões a respeito da LÓGICA da argumentação apresentada. Para mim está claro: dados oriundos de um cenário, utilizados p/ projeções em cenário diferente, levarão a conclusões equivocadas.

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Carlos Modesto

03 de abril de 2020 às 17h27

Sobre esse pronunciamento da USP, cadê o link?

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Fábio Valfré Prado

03 de abril de 2020 às 03h13

Luiz,

No exemplo que você transcreveu do navio, fica claro que ele se equivoca: em vez de dizer “é letal, mas nem tanto”, ele diz, “é contagiosa, mas nem tanto”. Isso fica evidente quando ele conclui com percentuais.

Sobre a eventual evocação de credibilidade por meio de avental, é uma suposição tua, pois ele não fala em nome da USP em momento algum. Aliás, eu só fui reparar o avental porque você escreveu isso aqui.

Outra coisa (e a mais lamentável)! Você diz que o nome dele não aparece entre os docentes atuais da Faculdade de Medicina da USP, mas não informa que ele já foi professor da Universidade citada (e que o seu currículo estaria desatualizado).

Veja um link da Folha de São Paulo (UOL):
https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1994/6/19/cotidiano/8.html

Nele é feita a menção de Anthony Wong como professor da faculdade de Medicina da USP.

Sem citar isso, parece que está falando de um charlatão, e não o médico que participou da implantação das primeiras UTI’s no Brasil e início de administração de medicamentos.

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    Myrian Mello

    10 de abril de 2020 às 00h25

    Parabéns Fábio por suas observações. Importantíssimas. Lança por terra as narrativas que tentam destruir as alegações criteriosas de um profissional gabaritado como o Dr. Antony Wong

Zé Maria

02 de abril de 2020 às 22h53

Notícias STF

Ministro suspende veiculação de campanha contra medidas de distanciamento social

O ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF), deferiu medida cautelar para vedar a produção e circulação, por qualquer meio, de campanhas que sugiram que a população deve retornar às suas atividades plenas ou que minimizem a gravidade da pandemia do coronavírus. O ministro determinou ainda a sustação da contratação de qualquer campanha publicitária destinada ao mesmo fim.

A decisão foi proferida nas Arguições de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPFs) 668 e 669, ajuizadas pela Confederação Nacional dos Trabalhadores Metalúrgicos (CNTM) e pelo partido Rede Sustentabilidade contra o anúncio da contratação pelo governo federal da campanha publicitária “O Brasil não pode parar”, cujo vídeo preliminar teria sido veiculado no Instagram do governo e disseminado por meio do aplicativo WhatsApp. Segundo a entidade sindical e o partido, o material veiculado promove ideias correspondentes a informação falsa, ao sugerir que a Covid-19 não oferece risco real e grave para a população, gerando desinformação e incitando os brasileiros a um comportamento que poderá gerar grave contágio e comprometimento da saúde pública e da vida.

Comunidade científica

Ao deferir o pedido, o ministro Barroso destacou que, no caso da pandemia, a necessidade das medidas que reduzam a velocidade de contágio (fechamento de escolas e comércio, proibição de aglomerações, redução da movimentação de pessoas e distanciamento social) constitui opinião unânime da comunidade científica. Segundo manifestações da Organização Mundial de Saúde, do Ministério da Saúde, do Conselho Federal de Medicina e da Sociedade Brasileira de Infectologia citadas na decisão, nada recomenda que essas medidas sejam flexibilizadas em países em desenvolvimento.

Interesse público

Barroso assinalou ainda que, de acordo com a Constituição Federal (artigo 37, parágrafo 1º), as campanhas publicitárias dos órgãos públicos devem ter caráter “informativo, educativo ou de orientação social”. Na sua avaliação, a campanha em discussão não se enquadra nessa finalidade. “O uso de recursos públicos para tais fins, claramente desassociados do interesse público consistente em salvar vidas, proteger a saúde e preservar a ordem e o funcionamento do sistema de saúde, traduz uma aplicação de recursos públicos que não observa os princípios da legalidade, da moralidade e da eficiência”, afirmou. “A supressão das medidas de distanciamento social, como informa a ciência, não produzirá resultado favorável à proteção da vida e da saúde da população“.

Dano irreparável

Ao deferir a liminar, o ministro entendeu que o caso apresenta os requisitos de perigo de dano irreparável ou de difícil reparação, em razão da dificuldade de controle da circulação do vídeo nas redes sociais e aplicativos de mensagens e dos indícios de preparação de campanha mais ampla com o mesmo viés. “A atual situação sanitária e o convencimento de que a população se mantenha em casa já demandava esforços consideráveis. A disseminação da campanha em sentido contrário pode comprometer a capacidade das instituições de explicar à população os desafios enfrentados e de promover seu engajamento com relação às duras medidas que precisam ser adotadas”, ressaltou.

O ministro considerou em sua decisão os princípios constitucionais do direito à vida, à saúde e à informação da população, bem como da prevenção e da precaução, que determinam, com base na jurisprudência do STF, que deve prevalecer a escolha que ofereça proteção mais ampla à saúde. A medida cautelar será submetida a referendo do Plenário.

Leia a íntegra da decisão:
http://www.stf.jus.br/arquivo/cms/noticiaNoticiaStf/anexo/ADPF669cautelar.pdf

http://www.stf.jus.br/portal/cms/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=440567

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Deronice Souza

02 de abril de 2020 às 13h19

A ditadura começa assim! Um profissional sério, como o Anthony Wong, mas que ousou falar o que a CNN não queria ouvir…Parece que todos temos que pensar igual. Nada de opiniões contrárias, senão sua reputação profissional será destruída. Ele não falou em nome da Medicina USP, falou como médico que acompanha várias epidemias ao longo das décadas. Fez análises importantíssimas que estão deixando de lado. Na verdade, agora estou em pânico o “cerco” imposto contra aqueles que pensam diferente. Daqui a pouco irão queimar na fogueira os que fazem análise. O pior é eu pensar como ele e me vir um “churrasco humano”. Mas, tenho um questionamento para os “catedráticos” da USP e HCSP: qual a razão de NUNCA se preocuparem COM A MORTANDADE que OCORRE EM SÃO PAULO por meio do SUCATEAMENTO da SAÚDE (câncer, tb, gripe, entre outras)…sempre ouvi pessoas simples terem relatos TRISTES de um parente ou conhecido que morreram SEM atendimento ou atendimento PRECÁRIO! O que fizeram para mudar a sorte OU o azar dos invisíveis?

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    Ricardo Freitas Castro

    02 de abril de 2020 às 21h59

    “Um profissional sério, como o Anthony Wong, mas que ousou falar o que a CNN não queria ouvir…” Amei sua observação! Parabéns a esse médico pelo comprometimento com a verdade, e pela sua coragem. Os “donos do mundo”, que controlam a mídia, estão faturando alto com a queda do valor das ações. Por aqui, as ações da Petrobras tiveram queda de 57%… Aí, eles compram a preço de banana! A Influenza matou no Brasil, em 2019, 2,3 vezes mais que o coronavírus matou na China, em 2020 (considerando a proporção das populações dos dois países).

    Fábio Valfré Prado

    03 de abril de 2020 às 02h24

    Nos vídeos que assisti, em momento algum ele fala pela instituição, mas agora surgiu uma ideia: porque não o convidam para contrapor os argumentos dele com estudos, números e fatos?

a.ali

01 de abril de 2020 às 23h28

por essas e outras que o bolsonero se sente à vontade de ca…gar pela boca…

Responder

Zé Maria

01 de abril de 2020 às 20h37

Nem dá prá comentar nada a respeito da atitude desse senhor nikkei em plena Pandemia,
para não pronunciar adjetivos em público que só devem ser ditos no particular.

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