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Mário Scheffer: Com arrogância e deboche, Ricardo Barros exibe na CPI sua habitual falta de apreço pela saúde pública
Ricardo Barros, líder do governo Bolsonaro na Câmara dos Deputados, na CPI da Covid. Foto: Pedro França/Agência Senado
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Mário Scheffer: Com arrogância e deboche, Ricardo Barros exibe na CPI sua habitual falta de apreço pela saúde pública


12/08/2021 - 22h14

Ricardo Barros na CPI: só João Coragem nos ajuda a compreender

Por Mário Scheffer, Diário da CPI – Estadão

“Os intolerantes, os que não sabem compreender, nem pensar, nem entender, vão festejar comigo”, protestou João Coragem contra a ganância, antes de destruir a golpes de martelo o diamante da discórdia.

O soberbo Tarcísio Meira, de quem o Brasil acaba de se despedir, deixou a cena antológica, criação de Janete Clair, exibida em 1970.

Na CPI da covid o passado irrompe no interior do presente, e a realidade insiste em parodiar a ficção.

Na novela, o rival dos Irmãos Coragem era Pedro Barros, o chefe político arrogante, latifundiário e dono do comércio de diamantes local.

Outro Barros, um arcaísmo político da vida real, Ricardo arrepiou a audiência no seu depoimento, um dos mais aguardados da comissão de inquérito, que chega à sua 43ª reunião pública.

“Luis Miranda faz teatro”, debochou do deputado que relatara ter ouvido Bolsonaro aproximar o nome do líder do governo na Câmara às irregularidades no caso da Covaxin.

O suposto envolvimento de Ricardo Barros seria, nas suas palavras, um “mal entendido”.

Para a platéia, bem entendidas restaram suas posições em defesa da permanência do general Pazzuelo no Ministério da Saúde, da atuação de intermediadores nas compras de vacinas, e do pagamento antecipado do governo a fornecedores.

“Se vocês não querem entender como funciona, isso é um mercado selvagem”, arrogou, sem sustentar com provas as acusações que fez à Anvisa e à multinacional farmacêutica Sanofi.

No mercado civilizado de Barros, ele é amigo dos donos da Belcher, de Maringá, sua cidade natal, mas contrapôs a suspeita de ter auxiliado a empresa, que flertou com o governo de olho nas vacinas da chinesa CanSino.

Ele foi também o autor da emenda parlamentar que facilitava importação de vacinas da Índia, mas negou favorecimento à Precisa Medicamentos, representante da indiana Covaxin.

Mais complexa foi a justificativa para sua autorização, na condição de ministro da Saúde, do pagamento antecipado de R$ 20 milhões para medicamentos contra doenças raras. A beneficiada, a empresa Global, é do mesmo grupo da Precisa.

Após tumultos, escalados para arruinar os planos da cúpula da comissão, a sessão foi suspensa, assim que o conflito se tornou mais ácido.

Barros imputou à CPI a subtração de vacinas da população, pois as investigações teriam afastado empresas interessadas em vender imunizantes ao Brasil.

Na sua exposição inicial, em ritmo um tanto nervoso, Ricardo Barros ensinou que “há dois tipos de políticos, os que querem servir a comunidade, e os que querem se servir da comunidade”. Embora tenha se colocado na primeira tipologia, é preciso advertir sobre sua fama de frasista , seu hábito de criar expressões de efeito contrário ao que pretende.

À frente da pasta da Saúde, de 2016 a 2018, sua principal realização foi, por meio de frases controversas, unir contra si qualquer grupo entendedor dos temas alvos de seus despautérios, como esses: “homens trabalham mais, por isso não acham tempo para cuidar da saúde”; “a maioria das pessoas chega ao posto de saúde com efeitos psicossomáticos”; “vamos parar de fingir que pagamos os médicos, e os médicos parar de fingir que trabalham”.

Um ex-ministro da Saúde foi à CPI da Covid sem ter nada a dizer sobre a pandemia.

Com quase nenhum conhecimento técnico sobre o SUS, sua falta de apreço pela saúde pública é coisa antiga.

Um dos lances mais ousados do então Ministro foi o afago às empresas de planos de saúde, que já compareceram em suas campanhas eleitorais.

Não fosse a forte repercussão negativa, confabulado com a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), Barros quase entregou às operadoras a liberação da venda de planos com drásticas restrições de cobertura e atendimento, que ele chamava de “acessíveis” ou “populares”.

Ricardo Barros é de uma categoria de políticos essencial para a compreensão do baixo compromisso do País com políticas públicas universais, com a saúde e a vida.

João Coragem estava certo. Só os que não sabem compreender, vão festejar





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