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Mário Scheffer: A resposta da CPI ao luto exige mais do que um memorial no  espelho d’água do Congresso Nacional
Kátia Shirlene Castilho dos Santos, perdeu pai e mãe. Ela acompanhou a mãe em sua internação na Prevent Senior, em São Paulo, e o tratamento com base no "kit covid"; Marcio Antônio do Nascimento Silva, taxista que perdeu o filho para a covid-19. Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado
Blog da Saúde

Mário Scheffer: A resposta da CPI ao luto exige mais do que um memorial no espelho d’água do Congresso Nacional


18/10/2021 - 20h04

A resposta da CPI ao luto exige mais do que um memorial em espelho d’água

Por Mário Scheffer – Diário da CPI – Estadão

“Quando a gente vê um presidente da República imitando uma pessoa com falta de ar, isso, para nós, é muito doloroso. Se ele tivesse ideia do mal que ele já fez…”

Nesta segunda-feira, 18, na CPI, o depoimento pungente de Katia dos Santos, que perdeu pai e mãe para a covid, deu a dimensão humana do que pode vir a ser uma estocada nas pretensões eleitorais de Bolsonaro.

Mesmo se o relator, Renan Calheiros, após desavenças de senadores, voltar atrás e retirar do relatório a sugestão de indiciamento do presidente por homicídio qualificado, histórias singulares de fim de vida e de luto, como as narradas na CPI, vão ressoar longe, exigindo responsabilizações, nem que seja por meio do voto.

Como disse Rosane, outra convidada, que homenageou o esposo morto, “nós estamos falando daqueles que deveriam estar entre nós neste momento”, desabafo de quem se mantém lúcida para lembrar que pesares não podem ser enterrados sob um relatório investigativo sem consequências.

A proporção tomada pela pandemia no Brasil fez com que circunstâncias individuais, que afetam cada pessoa e família de maneira diferente, não parecessem únicas. O estressor coletivo, a perda cumulativa e mútua, na contagem diária de mortes, banalizaram o luto e a dor.

Por essa razão, foram tão representativas as lágrimas da depoente Mayra, em nome das famílias que, como a dela, estiveram mergulhadas em terrível sofrimento.

O isolamento que negou um último olhar, um último toque, a morte despojada de seus ritos sociais que afastou ombros reconfortantes de amigos, a descrição lancinante da procura pelo pai em sacos dispostos no necrotério lotado, e da gaze embebida em água, providenciada para aplacar a sede da mãe à beira da morte, tudo isso acrescenta ao desamparo íntimo altas doses de indignação e revolta coletiva.

No cotidiano, temos certas expectativas sobre rotinas e segurança, o que faz parte do nosso mundo presumido. Acordamos, tomamos café, trabalhamos, nos distraímos, descansamos.

Mesmo com imensa desconfiança sobre a qualidade do sistema de saúde que temos no Brasil, baseados em vivências anteriores, cidadãos contam com a garantia de que o Estado ofereça alguma rede de proteção contra doenças ou mesmo epidemias.

Antes de falecer por covid a mãe de Geovana, a jovem depoente agora órfã junto com a irmã de 11 anos, era transplantada, fazia hemodiálise no SUS e cuidava das filhas.

Bolsonaro, ao ser lembrado por zombar da doença, dos doentes e dos mortos, faz com que o nosso mundo presumido seja completamente destruído.

Para o taxista Márcio Antônio, que relatou o périplo do seu filho Hugo, de 25 anos, atendido em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) em Copacabana, no Rio de Janeiro, e só depois foi transferido para um hospital, onde morreu por covid, as vítimas merecem “um pedido de desculpas da maior autoridade do país”.

Marcio, assim como o jornalista Arquivaldo Leite, sequelado pela covid, e que perdeu seis parentes para a doença; e a enfermeira Mayra, de Manaus, que perdeu a irmã porque “todas as portas se fecharam”, e hoje acolhe quatro sobrinhos órfãos, talvez não se importem se o relatório da CPI vai tratar Bolsonaro de facínora, assassino ou genocida, se vai tipificá-lo em sete ou onze crimes.

O documento final da CPI trará todas as respostas de porquê no Brasil a covid matou muito mais do que em outros países: a pandemia minimizada, orientações cientificas desacreditadas, estratégias de bloqueio da disseminação do vírus que não foram adotadas, oportunidades para aquisição de vacinas menosprezadas, o SUS e os planos de saúde que não garantiram a todos o acesso a cuidados médicos oportunos e eficazes.

Dezenas de nomes irão figurar como culpados pela ausência ou incorreção de políticas de controle da transmissão, de atendimento aos pacientes e de vacinação. Serão indiciados ou não, a depender do interesse e agilidade dos órgãos destinatários do inquérito finalizado.

Mas o fato é que Bolsonaro e demais cúmplices de mortes que poderiam ter sido evitadas permanecem ainda hoje nos mesmos cargos e instituições. O contraste entre os vivaldinos e os que perderam a chance de passar mais dias, horas e minutos entre os seus, é perturbador.

Na conclusão da última sessão da CPI, o senador Randolfe Rodrigues anunciou um memorial às vítimas da covid, a ser inaugurado no espelho d’água do Congresso Nacional.

Uma resposta concertada ao luto da Nação exige bem mais do que isso.





5 comentários

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Zé Maria

19 de outubro de 2021 às 16h51

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A Resposta tem de ser dada pelo Ministério Público Federal,

pelo Poder Judiciário e pelo Tribunal Penal Internacional.
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Responder

Zé Maria

19 de outubro de 2021 às 14h26

Apenas por Curiosidade

Qual foi o Miliciano do Gabinete Paralelo
do Ministério da Eugenia que escreveu
os discursos do Girão e do Heinze, hoje?

Responder

Zé Maria

19 de outubro de 2021 às 14h10

O Vazamento (sic) do Relatório de Renan
serviu apenas para que a Mídia Tucana
e os Fascistas Bolsonaristas espalhassem
Fake News, isentando Jair Bolsonaro dos
Crimes [só 11?] que realmente praticou
durante todo o Período da Pandemia.

A Rede Globo e a Mídia FasciPaulista e satélites
estão querendo melar o Relatório da CPI COVID,
para tentar excluir do indiciamento do Genocida
os Crimes contra a Humanidade cometidos, que
são da Esfera de Competência do Tribunal Penal
Internacional, na Corte de Haia, Holanda, onde
não há como haver manipulação ou chantagem
dessa Mídia Venal, Corrupta, Fascista e Neoliberal
que não quer que o Bozo seja efetivamente julgado,
quer somente exercer pressão sobre o desgoverno,
colocando o Serial Killer do Planalto contra a parede.

Concomitantemente, a Imprensa Comercial tenta
retirar o Mérito do Relator, para transferi-lo aos
Senadores da tal 3ª via Antipetista – que aparecem
nas pesquisas eleitorais com no máximo 1% dos votos – pretendendo alavancá-los para uma eventual Coligação
com o Candidato Presidenciável do PSDB (leia-se Doria).

Também Senadores, inclusive o Aziz,
por Vaidade, Oportunismo ou Má-Fé,
se aproveitam da Manipulação Midiática
para tentar se projetar eleitoralmente
ou fazer Defesa do Miliciano Genocida,
disseminado Mentiras, como é de Praxe,
buscando desqualificar o Relatório que
indiciará uma Quadrilha com Dezenas
de Mafiosos Infiltrados no (des)Governo,
encabeçada pelo Presidente do braZil.

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