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Luís Carlos Bolzan: Pazuello optou pela lealdade absoluta ao chefe em prejuízo dos brasileiros
Foto: Jefferson Rudy/ Agência Senado
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Luís Carlos Bolzan: Pazuello optou pela lealdade absoluta ao chefe em prejuízo dos brasileiros


21/05/2021 - 09h04

QUANDO O COMPROMISSO COM POPULAÇÃO É MENOR QUE A LEALDADE AO CHEFE OU A BANALIDADE DO MAL EM 2021

Por Luís Carlos Bolzan*

O general Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde, depôs na CPI da covid-19 por dois dias, 19 e 20 de maio.

Ao longo do questionamento, optou por desacreditar a si próprio, jogando-se no pântano da desonra, com total desprezo pela realidade e a dor dos mais de 440 mil brasileiros que morreram e seus familiares.

Pazuello é alto oficial do exército. Logo, para ele, a verdade deveria ser princípio pétreo, conforme estatuto militar.

Mas, não foi. A verdade se provou mera tinta em papel sem valor.

Não escrevo esse texto para descrever todas as vezes em que Pazuello recorreu a mentiras, tergiversações ou qualquer outro artifício para negar os fatos.

Seria chover no molhado, em exercício enfadonho e repetitivo, visto que inúmeros senadores e jornalistas já o fizeram.

Acho mais profícuo demonstrar como Pazuello, o general, optou pela lealdade absoluta ao chefe Bolsonaro em detrimento do compromisso com a população brasileira.

Escolha que manchará em definitivo e profundamente a sua trajetória militar.

Prestei serviço militar obrigatório na Polícia do Exército de Porto Alegre (3º BPE), em 1986.

Tive como comandante no 3 º pelotão da Companhia de Escolta e Guarda o então primeiro tenente Dolvin.

Diferente de outros militares, tenente Dolvin nos comandava pelo exemplo e o muito tempo dedicado aos seus comandados. Era bem mais do que apenas os exercícios militares exigiam.

Estava sempre à disposição de seus recrutas, todos adolescentes de 19 anos, com os mais diferentes problemas em suas vidas.

Recordo quando ele foi ao encontro de colega recruta detido repetidamente, para conversar com ele.

Impossível esquecer quando ele me procurou para me ajudar no TAF (Teste de Aptidão Física), pois tinha dificuldades no exercício da barra, apesar de ir muito bem nas demais provas.

Mas o exemplo mais impactante de sua liderança foi quando em exercício de campo, terreno absolutamente embarrado, tivemos que rastejar por cerca de 100 metros.

O sargento instrutor fez a demonstração do rastejo em pé.

Tenente Dolvin, com a farda impecável, cravou os joelhos no solo embarrado e rastejou por 100 metros.

Ao se levantar, tenente Dolvin olhou para a tropa, com a farda toda suja, e deu o comando com apitos.

No ato, todos nós cravamos os joelhos no terreno embarrado e rastejamos diante do humilhado sargento, sem compromisso nem liderança com os comandados.

A voz de comando é seguida não pelo simples poder hierárquico, mas pela confiança e respeito dos comandados.

Um líder a ser seguido pelo exemplo, confiabilidade e compromisso com coletivo liderado por ele.

Pazuello não é Dolvin.

Não optou por rastejar com a tropa, mas seguir com sua farda engomada, bajulando o chefe.

Dolvin optou pela tropa e o coletivo. Pazuello escolheu dar as costas aos liderados para ficar bem com o chefe.

Enquanto Dolvin — talvez hoje general da reserva — procurava recruta detido na cela para conversar, Pazuello, que aceitou função para a qual não estava tecnicamente habilitado, não assegurou kits de intubação, oxigênio, vacinas, testes, leitos de UTI, etc.

Fez o contrário. Espalhou cloroquina e ivermectina, sem serventia alguma para tratamento de covid-19, aos desorientados brasileiros induzidos ao risco pelo presidente, que diz não ter crédito quando fala pelas redes sociais ou em entrevistas. Alega ser  “só” um “personagem político”, como se o presidente da República não fosse um ente político e suas declarações, todas elas, não tivessem impacto social, político e econômico.

Militares devem saber comandar. E mais do que tudo, liderar pelo exemplo.

Pazuello não soube comandar o Ministério da Saúde e menos ainda liderar o SUS durante a pandemia.

Mas, apesar disso, ele disse três coisas que devem ser observadas com atenção.

A primeira de caráter organizativo, que deve ter passado despercebido para quem desconhece o Ministério da Saúde.

No primeiro dia de depoimento, Pazuello disse que, quando assumiu o Ministério da Saúde, Conass (Conselho de Secretários de Saúde) e Conasems (Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde) não eram ouvidos, e ele chamou ambos para discutir permanentemente.

A afirmativa de Pazuello nos remete à gestão de Mandetta, que extinguiu a SEGEP (Secretaria de Gestão Estratégica e Participativa), eliminando departamentos que priorizavam gestão participativa e estratégica, de articulação interfederativa, inclusive de forma direta com Conass e Conasems.

Afinal de contas, por que Mandetta extinguiu a SEGEP?

Porque gestão participativa não é importante num governo autoritário, que despreza a democracia.

Com o fim da SEGEP, os cargos de confiança (DASs) foram usados para criar uma secretaria voltada exclusivamente para atenção básica.

Ela seria a gestora da terceirização da atenção básica, conforme evidenciado por documentos oficiais como a resolução 95 de 19/11/2019 e o decreto 10.530 de 26 de outubro de 2020, posteriormente sustado.

Pazuello chamou atenção para iniciativa de Mandetta de destruir a SEGEP e sua missão de gestão participativa e articulação interfederativa, escanteando Conass e Conasems, com vistas à privatização da atenção primária, que não é atribuição executiva do ente federal do SUS.

A atenção básica, porém, representa multibilionário orçamento público das três esferas de gestão do SUS.

Uma rede extremamente vascularizada em todo o território nacional. E, mais do que isto, estratégica e estruturante para todo o funcionamento e organização do SUS.

O segundo elemento a ser destacado é a inversão de valores feita pelo general em sua argumentação.

Ao optar pela suposta moralidade no trato da coisa pública e enfatizar que não negociara com empresas de vacinas, o general fez exatamente o contrário do exigido numa pandemia de alta letalidade, sem tratamento medicamentoso.

O então ministro deveria pessoalmente ter liderado as iniciativas e tratativas para aquisição de vacinas.

Até porque, a legislação existente prevê a excepcionalidade da situação.  Possibilita, inclusive, a compra sem licitação, pois a prioridade das vidas se sobrepõe ao trato burocrático de procedimentos licitatórios.

Pazuello tentou se escudar em princípios constitucionais da moralidade, legalidade e impessoalidade, em detrimento de valor máximo da Constituição brasileira: o direito à vida, além do direito à saúde como dever do Estado.

O terceiro elemento a observar é que a mentira se apresenta como método.

Numa avalanche de recursos discursivos diferentes, a mentira emerge como método recorrente, usada não por um indivíduo, mas por um governo, que faz da mentira seu princípio e método.

O senador Alessandro Vieira (Cidadania/SE) fez alusão à banalidade do mal referida por Hannah Harendt quando do julgamento do nazista Adolf Eichmann, num comparativo com Pazuello.

A frieza e o olhar burocrático de Eichmann responsável pela execução de milhares de seres humanos, como se fosse um exercício de trabalho banal, encontraria reflexo nas respostas de Pazuello?

A resposta tem que vir dos familiares das centenas de milhares de vítimas da condução de Pazuello na pandemia, justamente um grupo populacional desprezado e silenciado pelo governo Bolsonaro.

Mas encontramos uma pista. Há aproximação entre respostas de Eichmann e Pazuello.

Refiro-me à responsabilidade de Pazuello e Bolsonaro pelos atos praticados que resultaram em parte expressiva das já mais de 440 mil mortes pela covid-19.

A pista vem da advertência da insuspeita senadora governista Soraya Tronick (PSL/MS), ao final do segundo dia.

Na condição de advogada, Soraya Tronick advertiu Pazuello.

Ao não declinar nomes de pessoas que seriam responsáveis pelos resultados da mortandade, Pazuello se colocou irremediavelmente na condição de indiciado e, diferentemente, do que ele imaginava, fez o mesmo com o presidente Bolsonaro.

A senadora governista e advogada sabe que a lealdade de Pazuello não resultará na blindagem de Bolsonaro, mas na responsabilização do general e do seu presidente.

De resto, sobrevivemos até aqui ao massacre promovido pela dispersão deliberada do vírus para presenciar “o dia D, a hora H” de Pazuello e Bolsonaro. Afinal, “um manda, outro obedece. Simples assim”.

Pazuello ficará como nome marcado na história brasileira, mas a nada associado à verdade, liderança, confiança e compromisso com a população brasileira.

*Luís Carlos Bolzan é  psicólogo.





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