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Ex-ministro da Saúde alerta: Bolsonaro é hoje o maior obstáculo para o combate ao coronavírus no Brasil
Fotos: José Cruz/Agência Brasil e Ministério da Saúde
Blog da Saúde

Ex-ministro da Saúde alerta: Bolsonaro é hoje o maior obstáculo para o combate ao coronavírus no Brasil


25/03/2020 - 12h41

por Conceição Lemes

Hoje, 25 de março de 2020, já há no mundo 425.493 casos confirmados de infecção pelo novo coronavírus (Covid-19) e 18.963 óbitos.

A maioria ainda na China: 81.661 casos confirmados e 3.285 óbitos.

Seguem-se Itália (69.176 casos e 6.280 óbitos) e Estados Unidos (55.225 casos e 802 óbitos).

Nos próximos dias, os Estados Unidos devem superar a Itália.

No Brasil, onde a pandemia está só começando, já 2.247 casos confirmados de Covid-19 e 46 mortes.

Mesmo assim, nessa terça-feira, 24/03, em pronunciamento nacional o presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), reforçou o discurso da minimização  da pandemia pelo Covid-19.

Voltou a falar em “gripezinha” e “resfriadinho”  e  a criticar a mídia.

Contestou as medidas de isolamento social e a restrição de atividades econômicas diante do avanço do novo coronavírus.

Defendeu a volta à escola de crianças, adolescentes e jovens.

No domingo (22/03), em entrevista, ele afirmou textualmente:

“Brevemente o povo saberá que foi enganado por esses governadores e por grande parte da mídia nessa questão do coronavírus “.

Também, no final de semana, o guru da família Bolsonaro, o astrólogo e pseudo-filósofo Olavo de Carvalho, postou um vídeo onde diz que não há no mundo um caso de óbito pelo Covid-19.

“As ações do presidente  são irresponsáveis e até criminosas”, denuncia ao Blog da Saúde o médico sanitarista Arthur Chioro, que foi ministro da Saúde no governo Dilma Rousseff.

“Aqui, nós temos que enfrentar, ao mesmo tempo, o coronavírus, a crise econômica e social e a incapacidade do governo Bolsonaro em liderar e coordenar os esforços que o país precisa fazer”, observa.

“Bolsonaro é hoje o maior obstáculo para o  combate ao coronavírus no Brasil; vai provocar um genocídio”, alerta o ex-ministro da Saúde.

Segue a íntegra da nossa entrevista entrevista.

Blog da Saúde — Em 26 de fevereiro 2020, foi confirmado o primeiro caso de Covid-19 no Brasil. Hoje, 25 de março, já são 2.247 casos confirmados e 46 mortes. Já é possível prever como será o comportamento da epidemia aqui?

Arthur Chioro – Os dados confirmam a tendência explosiva da doença em outros países. A situação é extremamente grave e mesmo nós, especialistas em Saúde Pública, ainda não podemos afirmar, com precisão, qual será o comportamento da epidemia, quanto tempo irá durar, e nem sua extensão em número de casos e óbitos.

Blog da Saúde – Quando será possível saber isso?

Arthur Chioro — Os próximos dias e semanas poderão indicar mais claramente o que vai ocorrer. Não é improvável, como alertou o  Tedros Adhanom, diretor geral da Organização Mundial de Saúde (OMS, que aqui e em muitos países do hemisfério sul tenhamos duas ou mais ondas.

A primeira, que já estamos vivendo, com número imprevisto de casos, seguido de outra mais importante, a partir do outono/inverno, em particular nas localidades mais frias do país, como os estados das regiões Sul e Sudeste.

Blog da Saúde – Por que duas ou mais ondas?

Arthur Chioro – Até que tenhamos uma vacina ou que a maioria da população tenha sido exposta e produza anticorpos contra o Covid-19 continuaremos tendo casos.

Não é possível prever a extensão dessas ondas, mas é de se esperar, pelas características comuns às síndromes gripais, que elas continuem ocorram em localidades mais frias e em grupos populacionais que não foram expostos ao vírus. Ainda assim, parece-me muito importante e justificável as medidas de isolamento social que estamos fazendo em todo o país.

Blog da Saúde – Quem se infectou uma vez pode se contaminar de novo?

Arthur Chioro – Não. Os especialistas acreditam ser improvável que pessoas já infectadas tenham Covid-19 pela segunda vez.

Mas, é importante que a pessoa pode ter gripe por outros vírus, como o Influenza. Daí a importância da vacinação em curso.

Destaco, todavia, que há muitas coisas que precisam ainda ser investigadas pelos cientistas, até mesmo por que os vírus sofrem mutações.

Blog da Saúde – O Brasil está preparado para enfrentar o coronavírus?

Arthur Chioro – Infelizmente, não. No início de janeiro deste ano, quando a OMS confirmou a existência da epidemia do novo coronavírus, o Brasil deveria ter começado a preparar um conjunto de estratégias de prevenção e de organização da resposta para atendimento dos casos. Ou seja, preparar antecipadamente o país para uma longa e difícil batalha.

Infelizmente, isso não foi feito lá atrás. E o que está sendo feito agora está sendo feito de forma desorganizada.

Veja bem. O Ministério da Saúde conta com uma equipe técnica altamente qualificada para as ações de vigilância epidemiológica que tentou, sem sucesso, impedir a chegada do coronavírus, como  se buscou nos demais países.

Todavia, as medidas necessárias para mitigar o impacto a partir do surgimento dos casos não foram tomadas a tempo.

Blog da Saúde – De quem é a responsabilidade pelas medidas não terem sido tomadas a tempo? 

Arthur Chioro — A gravidade do quadro exige liderança e coordenação e este me parece ser o ponto mais crítico da resposta que o país vem dando ao covid-19

Blog da Saúde – Nessa terça-feira, 24/03, em pronunciamento nacional o presidente da República voltou a falar em “gripezinha”, contestou o isolamento social, o fechamento do comércio, defendeu a volta à escola de crianças, adolescentes e jovens. No domingo (22/03), em entrevista, ele afirmou textualmente: “Brevemente o povo saberá que foi enganado por esses governadores e por grande parte da mídia nessa questão do coronavírus “. Também, no final de semana, o guru da família Bolsonaro, Olavo de Carvalho, postou um vídeo onde diz que não há no mundo um caso de óbito pelo Covid-19.

O que acha dessas declarações?

Arthur Chioro – O presidente deveria ter a responsabilidade de conduzir os esforços de enfrentamento da pandemia em nosso país.

Porém, apenas os “terraplanistas epidemiológicos”, liderados por ele, ainda são capazes de desdenhar da sua gravidade e de seus trágicos efeitos econômicos e sociais, em especial aqueles devastadores que a epidemia poderá ter sobre os mais pobres, moradores de rua, pessoas privadas de liberdade, que vivem em cortiços, favelas, que são desnutridos ou que vivem em condições de vulnerabilidade.

Até o Trump, o guru do presidente, deu uma guinada violenta no discurso com receio de perder a próxima eleição.

Na verdade, Bolsonaro é hoje o maior obstáculo para o  combate ao coronavírus no Brasil; vai provocar um genocídio.

Blog da Saúde – O senhor diz que as medidas necessárias para mitigar o impacto da pandemia do Covid-19 não foram tomadas a tempo. Isso se deve a quê?

Arthur Chioro –  Em parte, à desorganização e  falta de liderança do governo federal e à oposição do próprio Bolsonaro às medidas que precisariam ser tomadas.

Mas, fundamentalmente, resultam dos efeitos da política econômica neoliberal de Guedes e Bolsonaro, que desfinanciaram e precarizam o SUS.

Em 2019, foram cortados  R$ 13,5 bilhões da saúde e, neste ano, outros  R$ 4,5 bilhões.

Desde a instituição de Emenda Constitucional 95 (EC 95,  emenda do teto), em 2018, as perdas na saúde somam 22,5 bilhões de reais.

Blog da Saúde – Dias atrás, o ministro da Saúde anunciou que o Ministério da Saúde irá repassar 2 reais por habitante para ações de prevenção. O que acha desse valor?

Arthur Chioro – É acintoso. Para efeito de comparação, permite adquirir apenas 1 sabonete ou 58 ml de álcool em gel para cada cidadão.

Os recursos anunciados agora pelo governo federal, da ordem de 5 bilhões, quando os casos já se avolumam, sequer são suficientes para ampliar a necessidade de novos leitos hospitalares e de UTI.

Blog da Saúde – Na tua avaliação, qual o maior problema da resposta brasileira à epidemia?

Arthur Chioro – Temos que enfrentar, ao mesmo tempo, três grandes desafios: o coronavírus, a crise econômica e social e a incapacidade do governo Bolsonaro em liderar e coordenar os esforços que o país precisa fazer. Ele está causando um enorme prejuízo e suas ações são irresponsáveis e até mesmo criminosas.

Como tudo está sendo efetuado de modo profundamente descoordenado, e dada a incapacidade do governo federal de agir, a condução das ações foi repassada para governadores, prefeitos e secretários de saúde. Seria fundamental a ação integrada e coordenada pelo governo federal.

Blog da Saúde – A rede de saúde está preparada para atender os casos?

Arthur Chioro — A rede de saúde não foi preparada para atender os casos.

Sabe-se que 80% são leves e devem ser atendidos nas UBS. Mas as equipes de atenção básica estão em sua maioria sem médicos, em função da desestruturação do Mais Médicos.

Mandetta e Bolsonaro foram os maiores inimigos do Mais Médicos quando eram deputados.

O governo Bolsonaro destruiu o programa e alegou que colocar médicos (brasileiros ou cubanos) nas capitais e municípios das regiões metropolitanas era uso político da Dilma e do PT.

Constata, agora, o enorme equívoco e anunciou mais 5 mil médicos, inclusive para esses municípios e regiões.

Mas não chamarão os médicos cubanos que estão disponíveis, porque entregaram para o CFM [Conselho Federal de Medicina] a validação da autorização.

Seguindo os ritos do edital, e com a lentidão com que o processo vem sendo conduzido, os médicos só devem chegar às UBS [Unidades Básicas de Saúde] no final da epidemia.

A pesar do tempo disponível para preparação, não foi programado e executado até aqui  a contratação de leitos hospitalares e de UTI, que já são insuficientes para atender a demanda usual do SUS.

O Ministério também não adquiriu testes em quantidade suficiente, e poderia ter reforçado o orçamento da Fiocruz para produzi-los ou importá-los.

Os municípios e seus trabalhadores não foram preparados para essa fase da epidemia. Em muitas localidades os trabalhadores não foram treinados. As denúncias de que não contam com equipamentos de proteção individual suficientes não param de chegar. Fluxos de atenção não foram previamente estabelecidos.

Não houve também nenhuma articulação com a saúde suplementar para preparar a participação do setor privado no combate à epidemia.

Tivemos desde janeiro para preparar essa estrutura e tomar tais providências, mas o Ministério da Saúde, espremido pela postura de negação da gravidade da situação por parte do presidente, e a incapacidade de peitar o super-ministro Guedes e reivindicar os recursos necessários, ficou apenas no plano retórico e não agiu, perdendo precioso tempo.

Blog da Saúde – O que fazer?

Arthur Chioro — Muitas medidas podem e devem ser tomadas, tais como:

*convocar emergencialmente, e em 15 dias disponibilizar mais 10 mil médicos, incluindo os milhares de médicos brasileiros formados no exterior e os cubanos que aguardam o Revalida, para atuarem nas UBS das capitais e regiões metropolitanas.

*uso intensivo da telemedicina para orientação e consulta dos pacientes menos graves.

*Garantir testes para todos que necessitarem, assim como garantir os materiais de proteção necessários aos trabalhadores da saúde.

*aquisição de equipamentos (respiradores) e de material de consumo.

*Para os casos graves é preciso garantir acesso à rede hospitalar, com ampliação emergencial de leitos hospitalares e de UTI, com expansão da oferta de leitos públicos.

Também contratação de leitos emergenciais das santas casas e hospitais privados, abertura de hospitais de campanha para suprir excesso de demanda onde for necessário.

Blog da Saúde – Para tudo a que isso seja possível é fundamental a liberação de recursos por parte do governo federal para estados e municípios. E, aí, como fica? Já estamos no final de março?

Arthur Chioro – Realmente, é fundamental que o governo federal libere todos os recursos que forem demandados para que estados e municípios possam, descentralizadamente, mas de forma organizada e integrada, estruturar essa operação em caráter emergencial.

Isso já deveria ter sido feito desde fevereiro e só ocorrerá com a revogação imediata e definitiva dos efeitos da EC 95 sobre o orçamento da saúde.

Blog da Saúde – Nós estamos tendo pacientes de planos de saúde sendo tratados no SUS, pois hospitais privados alegam não estão preparados ou não querem tratar os casos de Covid 19. Como fica isso?

Arthur Chioro – Os planos de saúde e os hospitais privados têm a obrigação de atender, fazer a testagem quando necessário e notificar os casos às autoridades. Mas foram liberados para o setor 10 bilhões de reais do fundo garantidor da Saúde Suplementar sem nenhuma contrapartida ou exigência de observação de compromissos. Um absurdo!

É também imperativo coordenar e regular as operadoras de planos de saúde e hospitais privados para que ofertem sua capacidade instalada para atender seus pacientes e aqueles que forem encaminhados pelo SUS.

Blog da Saúde – Que medidas imprescindíveis devem ser adotadas nos serviços que vão continuar operando?

Arthur Chioro – Por exemplo, redução e escalonamento de jornadas de trabalho, acompanhados de reforço da frota de ônibus nos horários intermediários; limpeza frequente de instalações e veículos; oferta de álcool 70 em locais de trânsito de pessoas e em veículos, com sinalização de orientação; disponibilidade de sanitários limpos e sempre abastecidos com água, sabonete líquido e papel toalha.

Blog da Saúde – O que cabe à sociedade em geral?

Arthur Chioro — Cumprir também sua parte muita responsabilidade.

Os serviços de saúde só devem ser procurados na presença de febre, tosse seca ou com secreção e quando tiver dificuldade para respirar.

Isso é importante para garantir que as UPA e hospitais não superlotem e para que as equipes possam se dedicar ao atendimento dos enfermos mais graves.

Seguir rigorosamente as orientações e determinações das autoridades sanitárias é fundamental.

As pessoas devem ficar em suas casas, observando os cuidados de higiene e de isolamento social. Tomar todo o cuidado com os idosos e pessoas com doenças crônicas, imunodeprimidas ou com deficiências, situações em que há um aumento significativo do risco de manifestações graves da doença e das mortes é imprescindível.

Mais do que nunca precisamos colocar em prática a solidariedade, inclusive para garantir a sobrevivência dos que vivem sozinhos, nas ruas e em condições de maior vulnerabilidade social e econômica, em condições precárias de saneamento e moradia.

Ser solidários com os trabalhadores informais, domésticas, e com aqueles, da área da saúde e de serviços essenciais, que não poderão suspender suas atividades.

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5 comentários

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Joaquim Silveira

26 de março de 2020 às 12h33

O povo quando votou nesse insano para presidente já sabiam que ia se dar mal, graças a mídia liderada pela globosta, agora temos um desiquilibrado e puxa saco do trump como presidetente.
Ontem assistir uma entrevista onde uma deputada representando o bozo foi ridicularizada, ela mentiu, tentou manipular dados, foi um fiasco para ela que saiu com a cara do bozo, ridícula, mentirosa e achando que o povo é otário.

Responder

Sônia Bulhões

25 de março de 2020 às 22h39

Aplausos ao ex-ministro Dr. Arthus Chioro que deveria estar na coordenação do Ministério da Saúde. Conheço o Dr. Arthur e sei da competência dele.

Responder

Zé Maria

25 de março de 2020 às 22h03

https://twitter.com/i/status/1242818572088459265

O Grande Professor Português
Boaventura Sousa Santos envia
um Recado aos Brasileiros.

https://twitter.com/hilde_angel/status/1242818572088459265

Responder

Zé Maria

25 de março de 2020 às 17h04

Só por curiosidade:

Quem está bancando a Manutenção do Genocida
na Chefia do Poder Executivo Federal é o Exército,
a Marinha, a Aeronáutica ou o Comando das PMs?

Responder

Zé Maria

25 de março de 2020 às 14h34

Das duas, uma:

Ou Jair Bolsonaro afasta o Dr. Mutretta,
e assume logo que é um Assassino;
Ou ele mesmo se afasta, e deixa a Ciência
cuidar da Epidemia de Coronavírus no País.

Responder

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