Doutor Marcelo Silber esclarece dúvidas de Beattrice, André e Brasileiro

por Conceição Lemes

Na reportagem Médicos puxam a orelha de pais e mães, André Oliveira questionou:

Eu gostaria de saber o que os doutos médicos dão ou deram para os seus filhos comer… Eu tenho certeza de que será o caso “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço…

O Brasileiro, leitor assíduo do Viomundo, deu  lição de bom senso:

Meu filho passa a semana toda comendo alimentos saudáveis. Mas no fim-de-semana a gente libera um pouco para as guloseimas. Afinal de contas, ninguém é de ferro, não é? (É assim que o pessoal da cervejinha do fim-de-semana fala!)

E outra questão é o que fazer se as crianças que comem “junk food” estiverem crescendo mais do que aquelas que comem alimentos saudáveis? Apesar de conter muita gordura saturada, a “junk food” muitas vezes é hiperprotéica, além de levar à hiperinsulinemia. Proteínas são um estímulo para liberação de hormônio do crescimento e a insulina é um importante hormônio anabólico.

Nós, os pais, estamos entre a cruz e a espada! Só muita dedicação para fazermos nossos filhos crescerem bem e de forma saudável.

A propósito das observações de O Brasileiro, a querida Beattrice acrescentou:

E a hiperinsulinemia pode levar ao pré-diabetes.

Apesar da provocação do doutor Marcelo Silber (lerão logo abaixo,é um gozador; sou apenas jornalista), achei importante que um pediatra esclarecesse os pontos levantados por André, Brasileiro e Beattrice e tratasse da obesidade infantil, que exige abordagem multifatorial. Por isso, convidei-o para essa tarefa, já que é também leitor do Viomundo.

Silver é pediatra e neonatalogista há 25 anos. Trabalha nos hospitais Israelita Albert Einstein e Sírio-Libanês, no Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da USP e, como médico voluntário, em creches municipais da cidade de São Paulo.

por Marcelo Silber, para o Viomundo

Como muitos dos leitores do Viomundo sabem, sou pediatra clínico e neonatologista. Trabalho em consultório e hospital particular, em hospital público e creches municipais (como médico voluntário), além de ter atuado por muitos anos em postos de saúde.

Muitos mitos (verdadeiros e falsos) estão presentes na abordagem da obesidade infantil (que como todos sabemos é multifatorial), procurarei a pedido da minha amiga, a Dra. Conceição Lemes (hehehehe) esclarecer os mais frequentes entre os leitores do  Viomundo.

– Médicos são seres humanos normais como todos os outros. Alguns têm hábitos alimentares,de lazer e de atividade física adequados às necessidades de uma vida como a nossa e outros não, com consequências óbvias na educação de seus filhos (e pacientes também !!)

– Um melhor nível cultural, sócio-econômico e educacional não garante necessariamente hábitos alimentares mais saudáveis. Vou além, acho que o Brasil vive agora uma “ grande epidemia de obesidade” decorrente da inclusão de milhões de pessoas na classe média (fato bom) com hábitos alimentares e físicos ruins (dieta hipercalórica e gordurosa aliada a falta de atividade físíca e esportiva regular).

Concordo com os leitores que disseram que a solução passa pela escola de período integral para todas as crianças, com almoço e jantar sob supervisão de nutricionista habilitada, além de no mínimo duas atividades de  esportes coletivos por criança (handebol, voleibol, natação e futebol).

– A osesidade é considerada hoje um estado pró-inflamatório, já que provoca um aumento na liberação de citocinas inflamatórias que atuam na  diminuição da produção de adiponectina (importante hormônio cuja função é atuar como fator adjuvante positivo na atuação da insulina) , resultando portanto numa diminuição da sensibilidade à insulina. Lembrando também que o tecido adiposo fabrica o hormonio resistina (que também aumenta a resistência à insulina)

– Resistência à  insulina aumentada é um termo que descreve a capacidade diminuida dos tecidos-alvo principais (fígado, músculo e tecido adiposo) a responder à ação celular da insulina. Com isso, a glicose passa a ter dificuldade de penetrar nestas células, gerando um aumento na produção pancreática de insulina (hiperinsulinismo). Quando as células beta-pancreáticas atingem seu limite secretor máximo (e entram em falência), a pessoa torna-se portadora de diabetes tipo II. Ressalto que mesmo antes do diagnóstico clínico as lesões microvasculares já estão ocorrendo com comprometimento da retinas, rins, nervos entre outros órgãos…

– A inatividade física ou o sedentarismo, por sua vez, diminui os níveis de GLUTT 4 que vem a ser o principal transportador de glicose, diminuindo mais  a sua entrada nas células e obrigando o pâncreas a secretar ainda mais insulina, agravando portanto o hiperinsulinismo  e o risco de  diabetes tipo II.

Calma, leitor. O que não está bom, sempre pode ficar um pouquinho pior… Se não vejamos:

– O aumento da resistência insulínica no tecido adiposo leva a um aumento no número de ácidos graxos livres. Esses por sua vez aumentam no fígado a produção de triglicérides e LDL (o colesterol ruim) e, ao mesmo tempo, diminuem a produção do HDL (o colesterol bom). Essse fenômeno negativo se chama dislipidemia. Perde-se, portanto, o efeito antioxidante na parede das artérias, favorecendo assim a formação das placas de aterosclerose, aumentando significamente o risco de doenças cardiacas e acidentes vasculares cerebrais

-Finalmente destaco a elevada incidência de Hipertensão arterial nos obesos, explicada por vários mecanismos, tais como o estado pró inflamatório e pró-trombótico (já mencionado), alteração vascular estrutural (encontradas já nas crianças obesas) e que o hiperinsulinismo provoca retenção de sal, levando o obeso há uma sobrecarga renal crônica com hipertensão arterial subsequente…

Como pediatra, destaco que adquirir hábitos alimentares, de lazer e de atividade física saudáveis na infância é a única solução de médio-longo prazo eficaz no controle da obesidade e de seus malefícios e que somente o envolvimento de médicos, educadores, da mídia, em suma de toda a sociedade, ajudarão as famílias a mudar hábitos tão arraigados e a lutar contra interesses tão poderosos que todos sabemos quais são…

Saiba aqui por que médicos puxam a orelha de pais e mães