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Doutor Marcelo Silber esclarece dúvidas de Beattrice, André e Brasileiro


08/08/2011 - 14h46

por Conceição Lemes

Na reportagem Médicos puxam a orelha de pais e mães, André Oliveira questionou:

Eu gostaria de saber o que os doutos médicos dão ou deram para os seus filhos comer… Eu tenho certeza de que será o caso “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço…

O Brasileiro, leitor assíduo do Viomundo, deu  lição de bom senso:

Meu filho passa a semana toda comendo alimentos saudáveis. Mas no fim-de-semana a gente libera um pouco para as guloseimas. Afinal de contas, ninguém é de ferro, não é? (É assim que o pessoal da cervejinha do fim-de-semana fala!)

E outra questão é o que fazer se as crianças que comem “junk food” estiverem crescendo mais do que aquelas que comem alimentos saudáveis? Apesar de conter muita gordura saturada, a “junk food” muitas vezes é hiperprotéica, além de levar à hiperinsulinemia. Proteínas são um estímulo para liberação de hormônio do crescimento e a insulina é um importante hormônio anabólico.

Nós, os pais, estamos entre a cruz e a espada! Só muita dedicação para fazermos nossos filhos crescerem bem e de forma saudável.

A propósito das observações de O Brasileiro, a querida Beattrice acrescentou:

E a hiperinsulinemia pode levar ao pré-diabetes.

Apesar da provocação do doutor Marcelo Silber (lerão logo abaixo,é um gozador; sou apenas jornalista), achei importante que um pediatra esclarecesse os pontos levantados por André, Brasileiro e Beattrice e tratasse da obesidade infantil, que exige abordagem multifatorial. Por isso, convidei-o para essa tarefa, já que é também leitor do Viomundo.

Silver é pediatra e neonatalogista há 25 anos. Trabalha nos hospitais Israelita Albert Einstein e Sírio-Libanês, no Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da USP e, como médico voluntário, em creches municipais da cidade de São Paulo.

por Marcelo Silber, para o Viomundo

Como muitos dos leitores do Viomundo sabem, sou pediatra clínico e neonatologista. Trabalho em consultório e hospital particular, em hospital público e creches municipais (como médico voluntário), além de ter atuado por muitos anos em postos de saúde.

Muitos mitos (verdadeiros e falsos) estão presentes na abordagem da obesidade infantil (que como todos sabemos é multifatorial), procurarei a pedido da minha amiga, a Dra. Conceição Lemes (hehehehe) esclarecer os mais frequentes entre os leitores do  Viomundo.

– Médicos são seres humanos normais como todos os outros. Alguns têm hábitos alimentares,de lazer e de atividade física adequados às necessidades de uma vida como a nossa e outros não, com consequências óbvias na educação de seus filhos (e pacientes também !!)

– Um melhor nível cultural, sócio-econômico e educacional não garante necessariamente hábitos alimentares mais saudáveis. Vou além, acho que o Brasil vive agora uma “ grande epidemia de obesidade” decorrente da inclusão de milhões de pessoas na classe média (fato bom) com hábitos alimentares e físicos ruins (dieta hipercalórica e gordurosa aliada a falta de atividade físíca e esportiva regular).

Concordo com os leitores que disseram que a solução passa pela escola de período integral para todas as crianças, com almoço e jantar sob supervisão de nutricionista habilitada, além de no mínimo duas atividades de  esportes coletivos por criança (handebol, voleibol, natação e futebol).

– A osesidade é considerada hoje um estado pró-inflamatório, já que provoca um aumento na liberação de citocinas inflamatórias que atuam na  diminuição da produção de adiponectina (importante hormônio cuja função é atuar como fator adjuvante positivo na atuação da insulina) , resultando portanto numa diminuição da sensibilidade à insulina. Lembrando também que o tecido adiposo fabrica o hormonio resistina (que também aumenta a resistência à insulina)

– Resistência à  insulina aumentada é um termo que descreve a capacidade diminuida dos tecidos-alvo principais (fígado, músculo e tecido adiposo) a responder à ação celular da insulina. Com isso, a glicose passa a ter dificuldade de penetrar nestas células, gerando um aumento na produção pancreática de insulina (hiperinsulinismo). Quando as células beta-pancreáticas atingem seu limite secretor máximo (e entram em falência), a pessoa torna-se portadora de diabetes tipo II. Ressalto que mesmo antes do diagnóstico clínico as lesões microvasculares já estão ocorrendo com comprometimento da retinas, rins, nervos entre outros órgãos…

– A inatividade física ou o sedentarismo, por sua vez, diminui os níveis de GLUTT 4 que vem a ser o principal transportador de glicose, diminuindo mais  a sua entrada nas células e obrigando o pâncreas a secretar ainda mais insulina, agravando portanto o hiperinsulinismo  e o risco de  diabetes tipo II.

Calma, leitor. O que não está bom, sempre pode ficar um pouquinho pior… Se não vejamos:

– O aumento da resistência insulínica no tecido adiposo leva a um aumento no número de ácidos graxos livres. Esses por sua vez aumentam no fígado a produção de triglicérides e LDL (o colesterol ruim) e, ao mesmo tempo, diminuem a produção do HDL (o colesterol bom). Essse fenômeno negativo se chama dislipidemia. Perde-se, portanto, o efeito antioxidante na parede das artérias, favorecendo assim a formação das placas de aterosclerose, aumentando significamente o risco de doenças cardiacas e acidentes vasculares cerebrais

-Finalmente destaco a elevada incidência de Hipertensão arterial nos obesos, explicada por vários mecanismos, tais como o estado pró inflamatório e pró-trombótico (já mencionado), alteração vascular estrutural (encontradas já nas crianças obesas) e que o hiperinsulinismo provoca retenção de sal, levando o obeso há uma sobrecarga renal crônica com hipertensão arterial subsequente…

Como pediatra, destaco que adquirir hábitos alimentares, de lazer e de atividade física saudáveis na infância é a única solução de médio-longo prazo eficaz no controle da obesidade e de seus malefícios e que somente o envolvimento de médicos, educadores, da mídia, em suma de toda a sociedade, ajudarão as famílias a mudar hábitos tão arraigados e a lutar contra interesses tão poderosos que todos sabemos quais são…

Saiba aqui por que médicos puxam a orelha de pais e mães

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13 comentários

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bruna

11 de janeiro de 2012 às 22h39

ola doutor , eu queria esclarece uma duvida minha e que eu tenho um problema de tiroide sabe aquelas que engorda e tivi relaçao sexual mas tomei pirula do dia seguinte mas to com medo do remedio da tiroide ter cortado o efeito ou nao tem nada a ver ?

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jocasta

19 de dezembro de 2011 às 18h39

oi doutor tive relação com namorado periodo fertil
dia 17.dezembro e dia 18 de dezembro…
tomei pilula microvlar
parei de tomar sexta feira
tive relação sem camisinha ele gozou duas vezes dentro
hoje apareçeu pouco de sangue
tenho chance de engravidar dele
beijoss

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diogojfaraujo

11 de agosto de 2011 às 13h15

Tá rolando propaganda dum tal suplemento alimentar pra crianças, chamado Pediacare ou coisa parecida, que diz ser criaado por nutricionistas e pediatras, e indicados pelos mesmos… Na propaganda aparece uma mãe tentando dar comida de verdade para o filho, e ele só recusa… Então, dá um hamburguer, e ele aceita… Então diz que tal suplemento tem tudo que a criança precisa pra ficar bem… Alguém viu????????

Enquanto nutricionistas e médicos continuarem a fazer o serviço sujo, fica difícil andar nessa discussão… Nutricionistas são mais preocupadas em sucos de licopeno e outros elixires imbecis do que com a boa alimentação… É só dar uma passeada pelos sites do tipo pra ver a quantidade de asneiras… Fora que não se interessam pela cozinha, não sabem e não fazer questão de aprender sobre a arte…

Sei que generalizar é meio tosco, mas o que eu vejo são pais doidos por facilitar sua vida com milagres e alquimias, e parte dos profissionais de saúde se aproveitando dessa deficiência intelectual dos pais… Aliás, grandes culpados, pois se um pais não come feijão mas obriga o filho a comer pq é saudável, é um baita dum hipócrita…

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beattrice

11 de agosto de 2011 às 01h22

Conceição
agradeço a vc e ao Marcelo Silber a atenção ao debate que travamos no outro post.
E já engatando neste,
há algumas evidências que apontam a correlação entre certos temperos e uma certa "proteção" contra certas doenças neurodegenerativas, cito como exemplo a baixa, muito baixa, incidência de Alzheimer na Índia, o que tem levado à especulação do papel do curry.

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Marcio H Silva

11 de agosto de 2011 às 01h20

Melhor comer um churrasquinho no espeto vendido na rua que ir ao fast-food. Faço exame de sangue de tres em tres meses porque tenho psoríase e tomo metrotexato. Hoje fui ao medico e meus triglicerideos e colesterol estão limítrofes. Tenho que largar mais o computador e caminhar e fazer exercícios simples. E vou acrescentar com consumo de linhaça, todo dia. Uma colher de sopa de farinha de linhaça no pote de iogurte todo dia antes de dormir. Como muitas frutas e legumes, mas vou diminuir, quase eliminar a carne vermelha.

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rosko

10 de agosto de 2011 às 23h05

No supermercado, fico mais tempo no setor das frutas. É lá que meu carrinho fica pesado.
No desjejum só consumo frutas e um legume e nada mais. Tranquilamente me sustenta até meio-dia. Esse papo de comer a cada 3 horas não acredito. O sistema digestivo precisa descansar, foi assim que me lembro, faz muito tempo, o que um vegetariano me falou, e constatei que isso, pelo menos pra mim, é verdade.

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Samyra

09 de agosto de 2011 às 09h50

Relato simples com aprofundamento razoável dos processos desencadeados em nosso corpo por causa de uma alimentação ruim. Também parabenizo pelas informações.
Entretanto, assim como o Sr. Roberto Locatelli, creio que deveríamos tentar entender que a alimentação não deveria ser um campo de batalha entre o sabor/prazeroso e o sem graça/dever. O prazer com a comida vem, primordiamente, de hábitos adquiridos. Não é uma questão de gosto e ponto final, pois o gosto também é algo construído e (ainda bem) tem a capacidade de mudar.
Entendo que a exposição frequente a tantas opções menos saudáveis e mais atraentes podem ser um suplício para qualquer pessoa, mas é vital lembrar que hábitos alimentares não são nada mais que hábitos e podem ser reconstruídos de outras formas, maneiras e prazeres diferentes.

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Roberto Locatelli

08 de agosto de 2011 às 22h25

Exemplo de tempero que não se usa em SP e sul: pimenta. Uma pena, pois ela estimula as papilas gustativas, entre outros efeitos benéficos.

Estou prestes a importar uma pimenta chamada bhut jolokia, considerada a pimenta mais picante do mundo. Ela é tão forte que os trabalhadores que a manipulam têm que usar luvas industriais para não corroer a pele dos dedos. Mesmo assim, o perigo para quem a consome é mínimo: os casos de morte são raros…

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    Marcelo Silber

    09 de agosto de 2011 às 10h03

    Caro Roberto
    Você esta 100 % certo!!!
    As especiarias (aquelas como cravo, pimenta, canela, entre outras…) as mesmas que " provocaram " o descobrimento do novo mundo são fundamentais e muito necessárias na alimentação.
    São elas que quando consumidas estimulam o organismo a produzir GLP 1 e Peptideo Y que são dois hormônios que vão estimular o hipotalamo medial (centro de saciedade) fazendo o índividuo parar de comer.Típico exemplo que mostra que prazer e fisiologia andam juntos na natureza.
    Neste caso a Medicina (ciência biológica) comprova as teses da sociologia-antropologia (ciências humanas)
    Vamos continuar a nossa luta contra esse horrível sistema industrial-alimentar, tendo como alvo o que realmente interessa, as crianças !!!
    Abraço, velho

    dukrai

    11 de agosto de 2011 às 09h37

    tá faltando a Dra Fátima entrar aqui pra listar os 352 fatores positivos da pimenta kkkkkkkk

Roberto Locatelli

08 de agosto de 2011 às 22h23

Alimentos saudáveis podem ser muito saborosos, sim. Então não se justifica essa ideia de que "no fim de semana libero para meus filhos comerem guloseimas". Isso é deseducativo. Fica aquela impressão de que, durante a semana, precisamos sofrer com aquela comida natureba e, no fim de semana, libera-se a comida gostosa.

– Um bolo feito em casa ou mesmo comprado em padaria contém menos sódio do que o de supermercado;
– comida feita em casa pode (e deve) ser bem temperada, cheirosa, colorida e saborosa. Muito mais do que as supostas "guloseimas" industrializadas.

Em São Paulo e no sul do Brasil, europeizamos nossa comida: nada tem sabor, é tudo sem tempero. Conheço gente que coloca um dente de alho (um!!!) na panela cheia de feijão. Assim fica mesmo tudo insosso.

Responder

    Elton

    10 de agosto de 2011 às 19h54

    Então sou exceção!!! Sou paranaense, moro em Santa Catarina e SEMPRE tempero minha comida à moda afro-asiática. E não abro mão dos sabores!!!

NELSON NISENBAUM

08 de agosto de 2011 às 15h40

Brilhante participação do amigo e colega. Parabéns, e parabéns ao site pelo espaço aberto ao bom debate e à informação qualificada.

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