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Dr. Rosinha, sobre o broche do coronel na Saúde: Meu pai tinha razão quando dizia que medo a gente tem de vivo, morto não faz mal a ninguém
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Dr. Rosinha, sobre o broche do coronel na Saúde: Meu pai tinha razão quando dizia que medo a gente tem de vivo, morto não faz mal a ninguém


14/06/2020 - 19h11

Símbolos

por Dr. Rosinha*

O símbolo sempre substitui ou sugere algo.

Fui criado, como todas as crianças, num mundo de símbolos e significados.

Os símbolos e os seus significados eram — e são —  diferentes de acordo com as culturas e as civilizações.

Ser neto de imigrantes europeu e criado na roça, num ambiente rural, são circunstâncias que contribuem à formação de uma cultura e de símbolos e/ou significados diferentes de quem foi criado numa cidade grande.

Não havia televisão, não tinha acesso a jornais, livros e a gibis ou qualquer outro tipo de histórias em quadrinhos.

Portanto, a caveira como imagem impressa, como símbolo da morte não fazia parte do meu universo.

Existia o morto, o defunto que, este sim, gerava em mim –não sei a razão – muito medo.

O medo era tanto que fazia de tudo para não ir a qualquer velório, enterro ou mesmo a cemitérios.

O medo de morto durou até o dia em que, numa estrada, vi um homem morto por um acidente.

Não sei a expressão do meu rosto e nem a intensidade da contração dos meus músculos ao ver o morto.

Só lembro a frase do meu pai: “você tem que ter medo de vivo, morto não faz mal a ninguém”.

A partir desta data comecei a ‘encarar’ defuntos e até a passar próximo de cemitérios.

A caveira, como símbolo, tornou-se minha conhecida quando fui para a cidade estudar.

Em 8 de junho, quando vi o secretário-executivo do Ministério da Saúde (MS), o coronel da reserva Elcio Franco Filho, usando na lapela um broche com uma caveira e uma faca perfurando o crânio, um arrepio percorreu meu corpo.

O inconsciente trouxe-me outros fatos e/ou histórias do passado, cujo símbolo é a caveira.

Imediatamente veio-me à mente a Scuderie Le Cocq, ou Esquadrão Le Cocq, ou Esquadrão da Morte.

Na ditadura, havia muitos esquadrões da morte. Hoje não está diferente.

Abro um parêntese: a Scuderie Le Cocq era uma organização paramilitar criminosa –como as milícias de hoje –criada por policiais no Rio de Janeiro. Atuou nas décadas de 1960, 1970 e 1980, portanto no período da ditadura militar.

Seu emblema: uma caveira sobre ossos cruzados, que significava, “tenha medo de nós. Somos violentos”. Fecho o parênteses.

A entrevista do coronel Elcio Franco foi para ele tentar explicar a confusão criada pelo próprio Ministério da Saúde ao mudar a metodologia para contabilizar os dados sobre os números de infectados e mortos do covid-19 no País.

O governo Bolsonaro quer diminuir o número de infectados e de óbitos e para isso tem à frente da pasta o general  fardado Eduardo Pazuello, que, por sua vez, nomeia o coronel do broche com caveira. Isso, no mínimo, transmite insegurança.

Grande parte dos que hoje morre por covid-19 é vítima justamente da violência institucional de Bolsonaro e da equipe política que ocupa o Ministério da Saúde.

Ao lado da caveira transpassada por uma faca estava, na lapela do paletó do coronel, o símbolo do SUS (Sistema Único de Saúde), que praticamente passou despercebido.

A simbologia da morte violenta se destacou mais que a da defesa da saúde e da vida.

O mínimo que se pode dizer é que os militares que ocupam cargos no Ministério da Saúde não sabem o que é saúde pública nem o que é o SUS.

Tampouco tem qualquer sensibilidade com a dor alheia.

Usar este tipo de broche no ambiente que defende a saúde e a vida revela não ter qualquer noção do cargo que ocupa.

Antes, muito antes da Scuderie Le Cocq, os piratas tinham bandeiras com o símbolo da caveira e dois ossos cruzados. A caveira era essencial para causar medo nas outras embarcações.

Tendo hoje um presidente autoritário, fascista, milícias atuando à luz do dia e muitos militares no Ministério da Saúde, ao ver o broche no peito de um deles, creio que não foi nenhum exagero eu pensar nas forças paramilitares do período da ditadura e ligá-las às atuais milícias.

Bem, que meu pai dizia: “você tem que ter medo de vivo, morto não faz mal a ninguém”.

Ele tinha toda a razão.

Dr. Rosinha é médico pediatra, militante do PT. Pelo PT do Paraná, foi deputado estadual (1991-1998) e federal (1999-2017).  De maio de 2017 a dezembro de 2019, presidiu o PT-PR. De 2015 a 2017, ocupou o cargo de Alto Representante Geral do Mercosul. 



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2 comentários

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Zé Maria

16 de junho de 2020 às 07h45

Esses Milicos são Piratas da Doença, Colecionadores de Ossos.

Responder

abelardo

15 de junho de 2020 às 11h50

Tem pessoas que se acham mais seguras ou valentes escoradas por algum tipo de escudo, patuá, guia e coisas do gênero. Talvez, não confiem em sua própria coragem. Essas desnecessárias demonstrações de fraquesa só os tornam mais rejeuradis e desacreditados, como profissional e cidadão.

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