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Dr. Rosinha: Hediondo é o comportamento dos que se opuseram ao atendimento de criança violentada e estuprada
Arapuca

Dr. Rosinha: Hediondo é o comportamento dos que se opuseram ao atendimento de criança violentada e estuprada


20/08/2020 - 14h08

Hediondo

Dr. Rosinha*

Em 2009, estupefatos, tomamos conhecimento de que uma menina de apenas 9 anos de idade, do interior de Pernambuco, estava grávida e que seria submetida a um aborto.

Assim que – de maneira irresponsável – foi dada publicidade ao fato iniciou-se uma ‘batalha’ sobre se devia ou não a menina ser submetida à interrupção da gravidez.

Logo após o aborto, o bispo de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho, excomungou a equipe médica, as ONGs feministas que defendiam o aborto e a mãe da criança estuprada.

Na ocasião, o bispo não excomungou o estuprador.

Num artigo intitulado “A lei do rosário e porrete”, registrei que o médico que atendeu a menina, logo após o procedimento, referindo-se a ela disse: “está consciente, conversando e sempre brincando”.

Então perguntei: “Dom Cardoso, o senhor ouviu ou leu? A criança estava bem, “conversando e sempre brincando”.

Em resumo pode-se afirmar que, em 2009, houve uma “batalha” entre fanáticos religiosos, que usam o discurso – contra o aborto – da defesa da família e da vida, mas ao fim e ao cabo constroem a morte contra os que defendem a legalidade do aborto, aqui no caso, garantido em lei.

Acabamos de viver outra “batalha” com as mesmas características e os mesmos sujeitos e objetivos: os que defendem a interrupção de uma gestação cuja gestante é uma inocente, indefesa e violentada criança de 10 anos de idade e os que falseiam o discurso da defesa da vida e constroem a morte.

No hiato 2009-2020, milhares de crianças, principalmente meninas, sofreram abuso sexual e suas famílias intimamente viveram essa batalha. Viveram dores e sofrimento.

Vivemos numa sociedade doente, num Brasil doente.

Vivemos num Brasil que violenta e estupra suas – meninas – crianças.

Vivemos num Brasil cheio de dores e sofrimento.

Vivemos num Brasil que, a cada hora, quatro meninas de até 13 anos são estupradas (Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2019).

Segundo a BBC News Brasil, que tabulou os dados obtidos no Sistema de Informações Hospitalares do SUS, do Ministério da Saúde, o “Brasil registra ao menos seis abortos por dia em meninas de 10 a 14 anos, em média. Só em 2020, foram ao menos 642 internações”.

A BBC News Brasil também informa que é registrado “uma média anual de 26 mil partos de mães com idades entre 10 a 14 anos”.

E que, desde 2008, foram registrados quase 32 mil abortos envolvendo meninas nesta faixa etária. Há que se levar em consideração que nesses números não está incluído o sistema privado de saúde.

Os números não medem o número de casos e não registra a dor.

Os números não registram os fatos e não mostram as marcas da violência.

Os números não contam as histórias tristes e as lágrimas que escorrem e/ou são engolidas a seco.

Os números não contam as cicatrizes da alma nem as marcas que serão levadas pelo resto da vida.

Apesar de registrar bem menos casos do que realmente são, os números são assustadores.

Os números subestimam o número de crianças que morrem a morte física antes de completar a gravidez.

Os números jamais conseguirão registrar as feridas da alma, do espirito e/ou do coração.

Assim como Dom José Cardoso em 2009, agora foi a vez do presidente da CNBB, Dom Walmor Oliveira de Azevedo, a condenar o aborto legal praticado em uma menina de 10 anos de idade.

Ao referir-se ao aborto e ao estupro, o presidente da CNBB afirmou:

“Dois crimes hediondos. A violência sexual é terrível, mas a violência do aborto…”.

Nada disse sobre a violência dos fanáticos na frente do hospital que submeteram a menina a mais um trauma:  como bandida teve que entrar, escondida, dentro do porta malas de um carro.

O racismo no Brasil é estrutural.

O abuso sexual de crianças, principalmente de meninas, também é estrutural, patriarcal e institucional.

O doutor Olímpio Barbosa de Morais Filho, responsável pelo procedimento médico e pela vida da menina estuprada, disse à imprensa: “Ela voltou a sorrir”.

Ela voltou a sorrir.

Voltará a ser criança?

Hediondo é o comportamento do bispo e dos fanáticos que se opuseram ao atendimento de uma criança violentada e estuprada.

Dr. Rosinha é médico pediatra, militante do PT. Pelo PT do Paraná, foi deputado estadual (1991-1998) e federal (1999-2017).  De maio de 2017 a dezembro de 2019, presidiu o PT-PR. De 2015 a 2017, ocupou o cargo de Alto Representante Geral do Mercosul. 



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1 comentário

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abelardo

21 de agosto de 2020 às 11h46

Vai ficando cada vez mais visível que uma das causas do forte crescimento de outras religiões, em comparação a trágica redução de catolicos no Brasil, pode estar relacionada com a arrogância e com levianas hipocrisias proferidas por supostas autoridades católicas, nos últimos tempos. Então e por sorte da igreja católica, talvez a debandada não seja ainda maior devido ao carisma, a confiança e a coragem do Papa Francisco em encarar de frente a arrogância, a prepotência, a delinqüência e a ambição desenfreada que sempre imperou nas instituições católicas.

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