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Dr. Rosinha: Com água privatizada, pobres morrerão de sede com as empresas ajoelhadas sobre seus pescoços
Arapuca

Dr. Rosinha: Com água privatizada, pobres morrerão de sede com as empresas ajoelhadas sobre seus pescoços


29/06/2020 - 03h33

Água

por Dr. Rosinha*

Crianças, principalmente meninos, do meu tempo, brincavam de lutar.

A derrota de um dos lutadores era concretizada quando, o perdedor batia a mão três vezes na terra e pedia água.

Ou seja, fala a palavra mágica: “água”.

“Água” é de um simbolismo extraordinário: o derrotado pede o que mais de natural tem na terra para manter-se vivo.

No segundo semestre de 2005, eu estava em Umuarama, noroeste do Paraná, quando, de surpresa, fui convidado a ir a um dos colégios do município falar sobre a importância da água. Aceitei o convite.

A caminho do colégio comecei a pensar sobre o que falar, pois não tinha preparado nada.

A conversa era com jovens.

O desafio:  abordar o tema sem ser chato.

Falar de água sem tocar no dia-a-dia das pessoas pode se tornar algo distante, sem importância.

Decidi iniciar com casos concretos, começando com o que tinha ocorrido comigo no ano anterior, 2004.

Fui a Paranavaí para um debate sobre agricultura familiar, mas um dos meus companheiros pediu que, naquele exato momento, eu fosse até um sítio ali perto.

Não me contou a razão, mas insistiu tanto que fomos.

Antes de chegarmos à residência do cidadão que íamos visitar, paramos em um reflorestamento.

Não era um daqueles desertos verdes de pinus ou eucaliptos, que nada cresce no meio deles.

Era um reflorestamento de mudas de árvores nativas da região.

Fazia parte da propriedade que me levavam para ver.

Curioso, perguntei ao proprietário –um senhor de mais de 60 anos – o motivo de tal iniciativa.

Ele nos contou que, quando lá chegou, ainda muito jovem, aquilo tudo era  mato e existiam muitos pássaros.  O rio era caudaloso e existiam bagres deste tamanho (afastou uma mão da outra, mostrando o tamanho).

Só que, anos depois, não tinha mais nada.

Mas como acabara de nascer seu primeiro neto, ele havia decidido reflorestar uma grande área para que os pássaros regressassem, o rio voltasse a ter volume e, com isso, os peixes regressassem.

Próximo a Maringá tem uma localidade que se chama Água Boa. Não sei a origem do nome, nem quem o deu, mas imagino que tenha sido colocado pelos seus primeiros moradores que, aí, chegando encontraram água boa.

A partir deste fato, pedi aos alunos e alunas na sala de aula que pensassem como era a região e, principalmente, o local em que nasceu ou se criou.

O estado do Paraná é repleto de água e era água boa.

Então, que pensassem quantas fontes de água conheceu e como eram os rios.

Pensassem e dissessem para a turma se existia ou não peixes e pássaros.

Apesar de ainda jovens, a maioria relatou que muita coisa mudou, para pior, nos últimos dez anos daquele 2004.

Outros fizeram referências sobre o que o avô ou o pai relataram: fim dos animais silvestres, pássaros, peixes, florestas e fontes de água.

Hoje deve estar pior.

Hoje no Paraná, matas, rios vivos, animais silvestres, pássaros, poucos existem e estes poucos correm perigos de não mais existirem.

No Brasil não é diferente. O capital e os homens em busca de lucros e desprovidos de humanismo –como Bolsonaro –destroem tudo e o último ato foi colocar a água à disposição do saque.

A história do Brasil é constituída de uma sucessão de saques contra as nossas riquezas naturais. A lista é longa e nunca houve uma trégua.

Os saques começaram pelo pau-brasil, ouro, diamantes, ferro, borracha, nióbio, sal, mogno, petróleo, etc.

Agora, apesar do que já vinha ocorrendo em menor escala, podemos acrescentar a água.

Desde Collor com seu discurso e prática da privatização de estatais, empresas estaduais e municipais de distribuição de água, que pouco cumpria e/ou cumpre sua função social, vêm sendo privatizadas.

O objetivo de empresas privadas é o lucro, o que significa que se você não pagar a conta não terá acesso à água, que é um bem natural e necessário à vida.

Sem água potável é a enfermidade e a morte.

Com a privatização da água, a luta (daqueles meus tempos de criança, como disse no início) só poderá ser interrompida se alguém tiver dinheiro para comprar água para dar ao derrotado quando, “asfixiado” pelo vencedor, bater na terra seu três tapas pedindo água.

Se ninguém tiver a grana para comprar a água, o derrotado poderá morrer de sede ou ser asfixiado como aconteceu com americano George Floyd, que pedia ar.

George Floyd foi morto por um policial branco ajoelhado sobre seu pescoço.

No Brasil, pobres morrerão de sede com empresas privadas e seu capital ajoelhadas sobre seus pescoços.

Dr. Rosinha é médico pediatra, militante do PT. Pelo PT do Paraná, foi deputado estadual (1991-1998) e federal (1999-2017).  De maio de 2017 a dezembro de 2019, presidiu o PT-PR. De 2015 a 2017, ocupou o cargo de Alto Representante Geral do Mercosul. 

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1 comentário

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Marcos Videira

30 de junho de 2020 às 17h57

“No Brasil, pobres morrerão de sede com empresas privadas e seu capital ajoelhadas sobre seus pescoços.”
Está provado ! Allan dos Santos é um AMADOR !!!

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