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Dr. Rosinha: Bolsonaro e Weintraub querem nos colocar como ‘degenerados’ em algum colégio cívico-militar ou hospício
Arapuca

Dr. Rosinha: Bolsonaro e Weintraub querem nos colocar como ‘degenerados’ em algum colégio cívico-militar ou hospício


13/03/2020 - 22h07

Hospício

por Dr. Rosinha*

Fiquei chocado quando li que a Escola Municipal Darcy Ribeiro, na Praia do Hospício, em Araruama (RJ), será militarizada e passará a se chamar Colégio Estadual Sargento (Sgt.) PM Antônio Carlos Oliveira de Moura.

Esta mudança de nome e função, entre outras coisas, significa que a educação para o governo federal e vários governos estaduais deve ser usada para destruir o modelo atual de educação pública e também qualquer referência aos educadores do passado, no caso Darcy Ribeiro.

Nada contra os sargentos – alguns deles, inclusive, merecedores de honrarias pelos serviços que prestam.

O PM Antônio Carlos Oliveira de Moura pode até ser um herói local ou estadual, mas ganhar nome colégio em contraponto a Darcy Ribeiro é dizer que a educação, no governo Jair Bolsonaro, é caso de sargento.

Quase certamente quem leu essa notícia deve ter se perguntado: “o que o Sargento fez em favor da educação?”

Ao mesmo tempo, pensado: isso só poderia ter ocorrido num local chamado Praia do Hospício.

Darcy foi educador, político, etnólogo, antropólogo e escritor brasileiro.

Junto com Anísio Teixeira fundou a Universidade de Brasília (UnB).

Depois, com Leonel Brizola, criou os Cieps, primeira proposta política de ensino público integral no Brasil.

Darcy também foi o idealizador da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), que hoje leva seu nome.

Será que Jair Bolsonaro e seu ministro da deseducação, Weintraub,  vão querer mudar o nome da UENF para Universidade sargento Tainha?

Também por estar localizada na Praia do Hospício a escola foi motivo de brincadeiras e/ou chacotas, quase sempre com algum conteúdo preconceituoso, pela própria história dos hospícios, também chamados de manicômios.

O primeiro manicômio ou hospício brasileiro foi inaugurado em 1852 –por coincidência numa praia, a Praia Vermelha (RJ) –com o objetivo não declarado de retirar da vida em sociedade “degenerados e degeneradas”.

Claro, degenerada(o)s na concepção da elite que governava o Brasil naquele período.

As escolas militarizadas foi um dos tópicos de Bolsonaro para a educação, se não o único durante a campanha de 2018.

Agora no governo, ele pretende implantar o modelo cívico-militar de educação em 216 escolas até 2023.

Segundo o decreto de implantação deste modelo, a adesão das escolas é voluntária, mas ao tomar conhecimento que algumas escolas do Distrito Federal se recusaram a adotá-lo, Bolsonaro disse ao governador Ibaneis Rocha (MDB): “Me desculpa, não tem de aceitar, tem de impor”.

“Tem de impor”, este é o método de implantação do novo modelo de educação: imposição.

É o modelo capitão ou se quiserem, modelo sargento.

Desde o inicio do governo, Bolsonaro ataca permanentemente a educação pública de qualidade.

Vale a pena relembrar aqui as lições do grande educador Paulo Freire.

Para Paulo Freire, a educação ou é instrumento de manutenção de um sistema, no caso capitalista, com todos seus componentes, como, por exemplo, manter a alienação para o indivíduo não tomar conhecimento de seus direitos e continue sendo objeto de exploração.

Ou que ela construa homens e mulheres críticos à realidade em que vivem e se façam sujeitos de transformação.

Os governos Lula e Dilma, além de ampliarem o número de instituições de ensino superior, reformularam-no.

A reformulação do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) em 2009 permitiu uma revolução na educação.

Através das notas obtidas pelos alunos, se tornou possível entrar nas universidades federais. E, depois com o Sistema de Seleção Unificada (Sisu),  possibilitou o acesso a algumas universidades estaduais.

Antes disso, o ProUni permitiu que milhões de jovens obtivessem bolsas de estudos –integrais ou parciais –em universidades privadas.

Desde o início, o governo Bolsonaro declarou a educação como inimiga.

Somam-se a isso ações ativas de desmonte da educação pública de qualidade à competente incompetência, como ficou demonstrado no último Enem e no Sisu.

Estas ações (incompetentes?) farão com que mais de 250 mil vagas ofertadas pelo ProUni esse ano não serão preenchidas.

É tão descarado o processo de destruição da educação que até Rodrigo Maia se manifestou:

“O ministro da Educação atrapalha o Brasil, atrapalha o futuro das nossas crianças, está comprometendo o futuro de muitas gerações. Cada ano que se perde com a ineficiência, com um discurso ideológico de péssima qualidade na administração, acaba prejudicando os anos seguintes. Mas quem demite e quem nomeia ministro é o presidente”.

Ou seja, Abraham Weintraub segue orientação de Bolsonaro.

A politica de destruição da educação pública é planejada.

Parece ser uma administração incompetente, com erros políticos e ortográficos.

Não, não é. É programa de governo.

Enquanto desvia a atenção para a “incompetência”, o governo Bolsonaro vai competentemente destruindo a educação pública.

Parece ser coisa de louco, mas não são loucos.

Querem nos deixar loucos para nos colocar, como “degenerados”, em algum colégio cívico-militar ou num hospício.

*Dr. Rosinha é médico pediatra, militante do PT. Pelo PT do Paraná, foi deputado estadual (1991-1998) e federal (1999-2017).  De 2015 a 2017, ocupou o cargo de Alto Representante Geral do Mercosul.

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