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Dr. Rosinha: As 100 mil vítimas do covid, a ‘estátua’ do genocídio praticado pelo governo Bolsonaro
Fotomontagem com charge de Duke
Arapuca

Dr. Rosinha: As 100 mil vítimas do covid, a ‘estátua’ do genocídio praticado pelo governo Bolsonaro


09/08/2020 - 19h24

Estátuas

por Dr. Rosinha*

— Para que estátuas e o que significam?

É o que sempre me pergunto. E como a pergunta é dirigida a mim mesmo, já sei a resposta: são elocubrações.

Para a maioria das pessoas, estátuas e bustos não significam nada, quando não são invisíveis.

Pelos lugares que passei e passo encontro bustos e estátuas abandonadas e sem informações adequadas de quem é a figura.

Estão sujas e borradas de cocô de pássaros, principalmente pombos.

Às vezes os ‘desenhos’ das borras fecais ficam mais interessantes do que a própria figura.

Dependendo do território onde estão, ao redor nota-se forte odor de urina, pois o local acaba se tornando um banheiro público para homens.

Às vezes, são pontos de protesto. Por exemplo, pichações de caráter político.

Há bustos que dias após a inaguração já não têm a placa indicando quem é a figura. Isso sem falar dos que não têm sequer a figura.

Em meio à praça, o busto foi colocado com o objetivo de homenagear alguém.

Em muitos casos, para tirar a pessoa agraciada de algum canto escondido da história.

Em outros, até para inventar uma biografia para entrar para a história.

Mas há casos em que a figura homenageada merecia o cárcere.

Manifestações antirracistas que têm ocorrido nos últimos meses nos Estados Unidos e na Europa trouxeram à luz, mais uma vez, o debate sobre o significado dos homenageados com os bustos e as estátuas.

O debate só se deu porque, durante protestos recentes contra a escravidão e o colonialismo, algumas estátuas foram decapitadas, queimadas e derrubadas.

Realmente, há personagens que quaisquer homenagens a eles são incompreensíveis.

O rei Leopoldo II, da Bélgica, é um deles.

No século XIX, Leopoldo II invadiu o Congo, fazendo desse país africano uma colônia da Bélgica.

Além de saqueá-lo, assassinou e mutilou cerca de 10 milhões de africanos.

Outro exemplo de homenagem incompreensível é a Edward Colston, traficante de escravos século XVII.

Em Bristol, na Inglaterra, manifestantes derrubaram e lançaram na água a estátua de Colston.

Afinal, qual o lugar na história de estátuas e bustos que foram quebrados, queimados ou derrubados?

Reconstruí-los e mantê-los no mesmo lugar?

Ou levá-los do jeito que estão, danificados, para um museu?

Algo tem que ser decidido, até porque as gerações futuras têm o direito de conhecer a história do seu país e dessas figuras.

Assim como têm o direito de informa-se sobre os atos que os colocaram abaixo.

Vale aqui lembrar que não é apenas o povo, em protesto, que destrói estátuas e bustos.

Regimes políticos também fazem isso, quando derrubam governos.

É o que aconteceu no Iraque com as estátuas de Saddan Hussein após a invasão militar dos Estados Unidos ao país,

No livro Ontologia da Imagem Fotográfica (O Cinema-Ensaios, Ed. Brasiliense), André Bazin diz que se submetermos as artes plásticas à psicanálise talvez encontremos o “embalsamamento como um fato fundamental de sua gênese” e que na “origem da pintura e da escultura, descobriria o ‘complexo’ da múmia”.

Escreve Bazin que a “religião egípcia, toda ela orientada contra a morte, subordinava a sobrevivência à perenidade material do corpo” e que a “morte não é senão a vitória do tempo”.

Salvar a “própria materialidade do corpo, sem suas carnes e ossos”.

Assim a “primeira estatua egípcia é a múmia de um homem curtido e petrificado em natrão” (mineral constituído de carbonato de sódio hidratado (Na2CO3.10H2O).

Se fosse mantido este método – petrificar os corpos com natrão – para ‘construir’ estátuas, poderíamos petrificar os corpos das 100 mil vítimas do covid-19. E, em protesto, colocá-los na esplanada dos ministérios em Brasília.

Assim Bolsonaro enxergaria o conjunto da obra de seu governo: o genocídio que pratica.

Estas 100 mil ‘estátuas’ responderiam à pergunta inicial deste texto: significaria o resultado de um governo genocida.

E, como todo genocida, merece o cárcere.

Dr. Rosinha é médico pediatra, militante do PT. Pelo PT do Paraná, foi deputado estadual (1991-1998) e federal (1999-2017).  De maio de 2017 a dezembro de 2019, presidiu o PT-PR. De 2015 a 2017, ocupou o cargo de Alto Representante Geral do Mercosul. 



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