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Dr. Rosinha: Ao receitar cloroquina, Bolsonaro age como charlatão sob as bênçãos do CFM
Reprodução de vídeo e CFM
Arapuca

Dr. Rosinha: Ao receitar cloroquina, Bolsonaro age como charlatão sob as bênçãos do CFM


31/07/2020 - 21h15

Charlatão

por Dr. Rosinha*

Nasci e fui criado no interior do Paraná.

Sou de uma família que trabalhava muito e ganhava pouquíssimo.Dependendo da época,  não tinha nenhum tostão.

Na década de 1950, médico nas cidades do interior era raridade.

Já nas áreas rurais delas, com estradas ausentes ou precárias, como a minha família, médico só em sonho.

Assim, quando alguém ficava doente em casa, a solução era fazer chá, ir à vizinha benzedeira ou rezar e fazer promessas para os mais variados santos e santas.

Na nossa região, os pedidos, na maioria das vezes, era para Nossa Senhora Aparecida.

E se o “milagre” se concretizasse, mesmo com parcos recursos, a família tinha que viajar até a cidade de Aparecida do Norte (SP), para pagar a promessa.

Na nossa região, ir ao médico só em ultimíssimo caso.

Afinal,  significava levar embora todas as economias.  Ou pedir fiado (favor, que vergonha!) para pagar depois da venda de parte da safra, alguns porcos, galinhas ou boi. Mas pagava.

O pobre sempre foi muito honesto.

No Brasil, estruturalmente, sempre houve — e há até hoje! — déficit de médicos e de serviços públicos, o que levava a população a buscar outros recursos para a cura de suas doenças.

Apesar da falta de serviços públicos de saúde e médicos, essa carência gritante nunca mobilizou a sociedade em geral para um debate relevante, de peso.

Por que esse assunto nunca “ganha” a sociedade?!

Bem, acho que  a “sociedade” é constituída predominantemente por uma  classe média que se mais preocupa com bens materiais e questões supérfluas, na maioria das vezes, individuais e pessoais.

Essa classe média não tem consciência do coletivo e de direitos, como saúde e escola pública de qualidades para toda a população.

Voltando à questão do déficit estrutural de médicos no Brasil.

Isso ficou muito presente nas cidades dos anos 1960 a 1980.

Nesse período, ocorreram grandes migrações da zona rural para as periferias das cidades. Uma verdadeira avalanche de migrantes pobres.

Estimam-se que, nas décadas de 1960-1980 — 43 mihões de pessoas saíram do campo para a cidade.

Nesse período, não havia serviços de saúde pública nem médicos disponíveis para atender todas as necessidades dessa população.

O SUS não existia e o serviço de saúde pública era escasso e precário.

Assim, mesmo nas grandes cidades, se o pobre precisasse de médico, ele não tinha dinheiro para pagar as consultas.

A alternativa então continuava sendo procurar ajuda dos benzedeiros e benzedeiras, os chás e as rezas, que passaram a ganhar visibilidade.

Só que, aí, como eles estavam mais próximos dos grandes centros médicos e da zelosa “sociedade”, eles passaram a combatidos e excrecados publicamente pelos “doutores da ciência”.

Doutores representados por entidades — associações médicas, conselhos, sindicatos — que nunca se preocuparam com a defesa do direito à saúde para toda a população.

Parêntese: Não me refiro aqui aos médicos e médicas que trabalham com dedicação em defesa da ciência, da saúde pública e da ética médica. Fechando parêntese.

Os benzedeiros e benzedeiras, os curandeiros e as curandeiras, passaram a ser vistos e tratados como charlatães.

Tanto que a questão  ganhou artigos especiais no Código Penal, que estabelece que o charlatanismo e curandeirismo são crimes contra a Saúde Pública.

Mas, como toda a lei no Brasil, o nosso Código Penal também não é pra todos.

Bolsonaro é a maior prova.

Ao apregoar o uso da cloroquina, ele se comporta como vendedor de drogas milagrosas.

É, portanto, um charlatão.

O Conselho Federal de Medicina (CFM) e os Conselhos Estaduais sempre muito cientes em denunciar as pessoas pobres que benziam, o que fizeram até agora em relação à conduta do charlatão Bolsonaro?

NADA!

Repito: NADA!

Como a maioria dos membros do CFM votou em Bolsonaro, não dá para esperar que faça alguma coisa.

Na época em que Dilma era presidenta da República, os membros do CFM sempre estavam  no Congresso Nacional fazendo lobby contra o Programa Mais Médicos.

O Mais Médicos era para atender os pobres, aquelas pessoas que têm como referência benzedeiros, curandeiros, xamãs e pajés para atender os seus enfermos.

Sem médicos, essas populações continuam recorrendo a benzimentos, chás e rezas.

Caso tenha a suspeita de covid, recorre à cloroquina receitada por Bolsonaro e “abençoada” pelo CFM.

Dr. Rosinha é médico pediatra, militante do PT. Pelo PT do Paraná, foi deputado estadual (1991-1998) e federal (1999-2017).  De maio de 2017 a dezembro de 2019, presidiu o PT-PR. De 2015 a 2017, ocupou o cargo de Alto Representante Geral do Mercosul. 



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2 comentários

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Aureliano

01 de agosto de 2020 às 09h41

BOLSONARO, UM VISIONÁRIO

Declaração dada em visita a Porto Alegre em 29/06/2017, quando então Bolsonaro se revela um visionário: “sou capitão do Exército, a minha especialidade é matar, não é curar ninguém”.

Se você pensa que essa declaração é fake news, vá à Folha de São Paulo do dia 30/06/2017, ou então leia o recém lançado livro de Henry Bugalho “Minha especialidade é matar”

Não é à-toa que se diz que o capitão Bolsonaro é o principal aliado do coronavírus, e o coronavírus, embora contaminando-o, não quer matá-lo nem sair por aí gritando “Fora Bolsonaro!”

Nem o coronavírus nem o safado do Rodrigo Maia.

Responder

Zé Maria

31 de julho de 2020 às 21h51

CFM & CRMs: Os Charlatões com Diploma de Medicina.
Correram os Médicos Cubanos, pra morrer de COVID-19
não antes de receitar Cloroquina e matar os Pacientes.

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