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Dr. Rosinha, ao general Heleno: No ‘foda-se!’ aos congressistas, inclua o seu Bolsonaro; ele fabricou o ‘veneno’ das emendas parlamentares
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Dr. Rosinha, ao general Heleno: No ‘foda-se!’ aos congressistas, inclua o seu Bolsonaro; ele fabricou o ‘veneno’ das emendas parlamentares


01/03/2020 - 23h12

Foda-se

por Dr. Rosinha*

Foda-se! Ou vá se foder!

São expressões que hoje se ouve em todo lugar, de pessoas de todas as idades, independentemente de gênero.

Aparentemente, esse foda-se perdeu a conotação de relação sexual, cópula e/ou coito.

Virou mais xingamento.

Até a década de 1970, criança e adolescente ousassem dizê-las levava um tapa na boca, às vezes tinham até que lavá-la com sabão.  Sou desse tempo.

Hoje ficou corriqueiro e até general manda um “foda-se” para o Congresso Nacional.

O general Heleno, homem forte do governo de Jair M. Bolsonaro, disse que parlamentares chantageiam o governo e de “saco cheio” (esse por minha conta) manda um foda-se ao Congresso, no caso, a instituição.

General, o senhor Jair Bolsonaro foi parlamentar por quase 30 anos.

Olhando por seu ponto de vista, ele pertenceu ao PP, um dos partidos mais chantagistas do Congresso.

O senhor acha que o PP era base de sustentação dos governos Sarney, FHC, Lula, Dilma e Temer por ideologia, amor à Pátria ou pelos olhares meigos desses ex-presidentes?

A aprovação do orçamento com as emendas parlamentares e a posterior liberação (execução e pagamento) sempre foi fonte de negociação e/ou chantagem entre parlamentares e poder executivo.

Fui parlamentar por 16 anos, sendo os 4 primeiros na gestão de FHC.

Cheguei e a coisa já estava dada e escancarada.

Os parlamentares apresentavam emendas. Eram pagas, principalmente, àqueles que votavam nas propostas do governo, mesmo que fosse para matar trabalhadores e trabalhadoras pela boca, ou seja, pela fome.

Mais. Os valores disponíveis para as emendas eram, ano a ano, aumentados, com um simples argumento: “ou aumentam os valores ou não aprovamos o orçamento”.

Não era assim explicitado, mas estava implícito no processo de articulação/negociação para aprovar o orçamento.

Nos 16 anos que fiquei no Congresso como  deputado federal, o PP – partido que Bolsonaro pertenceu de 2005 a 2016  –era um dos articuladores na aprovação das emendas e um dos que cobravam aumento dos valores das mesmas.

Quando cheguei, em 1999, o valor das emendas estava em torno de R$ 1 milhão por parlamentar (deputados, deputadas, senadores e senadoras), quando saí passava de R$ 12 milhões.

Qual a prefeitura do Brasil tem cerca de R$ 12 milhões/ano para investir?

Qual pequena ou microempresa tem cerca de R$ 12 milhões/ano para investimentos?

Deputados e senadores têm hoje R$ 13 milhões por ano para decidir onde devem ser investir.

O orçamento da União é autorizatório, ou seja, autoriza o governo a gastar: não o obriga.

Só é obrigatório gastar o que está fixado na Constituição — por exemplo, os percentuais da educação e da saúde, agora achatados pela Emenda Constitucional 95.

Os parlamentares insatisfeitos com a não liberação (execução e pagamento) das emendas resolveram colocar a obrigação do pagamento das emendas na Constituição, ou seja: é impositivo o pagamento destas emendas.

Se o Executivo não pagar, incorre em crime de responsabilidade, passível da cassação do mandato de Presidente.

Como parlamentar e cidadão sempre defendi o fim das emendas.

Elas são usadas para ganhos eleitorais pessoais.

Ajudam a criar o fisiologismo e os currais eleitorais.

Colocam o parlamentar não ideológico, na condição de subserviente ou chantagista do poder executivo.

Por ser contra as emendas, votei em primeira votação contra a inclusão na Constituição da obrigatoriedade de ser paga.

Já Jair M. Bolsonaro votou a favor. Agora, ele experimenta o veneno que queria colocar goela abaixo dos outros então presidentes.

Ao mandar um “foda-se” aos congressistas, o general Heleno deveria incluir o seu Presidente.  Afinal, foi Bolsonaro que fabricou este veneno.

E como perguntar não ofende, “não seria o caso de o general Heleno lavar a boca com sabão uma vez que ele está se colocando contra uma instituição, ou seja, contra a democracia?”

Ah, não posso esquecer de mandar uma sugestão aos que para a rua no dia 15 de março: Peçam mais democracia e o fim das emendas parlamentares.

E,por favor, façam um esforço a mais: procurem se lembrar dos nomes dos deputados e senadores para os quais votaram em 2018, para fazer parte do atual Congresso.

*Dr. Rosinha é médico pediatra, militante do PT. Pelo PT do Paraná, foi deputado estadual (1991-1998) e federal (1999-2017).  De 2015 a 2017, ocupou o cargo de Alto Representante Geral do Mercosul.

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